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Repensar e ensinar design a partir do conceito de região

Santos de Oliveira, Alexandre

Actas de Diseño Nº25

Actas de Diseño Nº25

ISSN: 1850-2032

XIII Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” IX Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño

Año XIII, Vol. 25, Julio 2018, Buenos Aires, Argentina | 260 páginas

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Resumen:

Esta comunicación tiene como objetivo discutir el concepto de región y las oportunidades para pensar y enseñar diseño. La discusión busca efectuar una lectura positiva de la región como una posible categoría, hace de los discursos de globalización y de deslocalización que, a veces, buscan la teoría y práctica de la enseñanza del diseño, principalmente en localidades específicas de América Latina que parecen sufrir una presión para ajustarse a las determinaciones globales, en detrimento de las especificidades y características regionales. A partir de este escenario discursivo, se presenta un conjunto de proposiciones que tiene como objetivo el repensar y el enseñar diseño a partir de las conexiones que vienen de la región y de sus características identitarias.

Palabras clave: Enseñanza del diseño - Región - Identidad - Cultura- Diseño

Pensando o conceito de região 

O ponto de partida para a leitura do conceito de região advém da sua dimensão espaço-temporal. Uma região pode ser percebida por abrigar uma comunidade específica, com um modo de vida concreto e com um determinado sentimento de pertença a um território. No que respeita à dimensão do espaço, adotarei a noção de espaço local face às ressonâncias entre este termo e a ideia de região sem, contudo, desconsiderar as diferenças conceituais que perpassam ambos os termos. Ao optar pela leitura do conceito de região como um fenômeno local, ou como uma das formas que podem ser assumidas por este, estou considerando o ensino do design como uma atividade culturalmente situada e como unidade de referência primeira, como espaço desencadeador de discursos, exemplificações e desencadeador, tanto de teorias como de práticas de ensino e que acabam por orientar a atuação profissional. Por este motivo, no que respeita à dimensão temporal, a relação região/local será abordada tomando como base, tanto a crítica à razão metonímica (Santos, 2008, p. 97- 102) e aos modos de produção de não existências que lhe são subjacentes, como a ótica da visão sistêmica (Milton Santos, 2006, p. 169) vinculada à ideia de que existe uma interdependência entre situações locais e globais e que permite entender as inter-relações existentes entre os elementos que compõe a realidade sociocultural. Terei em mente ainda que o fenômeno global, ou para ser mais preciso, a globalização, não se constitui em um processo espontâneo, automático e irreversível que avança segundo uma dinâmica própria (Milton Santos, 2001, p. 56), que em seu processo de desenvolvimento tenderia a substituir as ideias de região e de localidade. Este processo conduz a crítica ao particular e ao “local”, como categorias de antítese em relação aos conceitos de universal e global, constituindo-se no caminho reflexivo que utilizarei para pensar a relação dialética presente nas imagens supracitadas, tendo o ensino do design como espaço de reflexão privilegiado. 

Apesar da referência ao espaço geográfico que o termo região evoca, ou ainda o adjetivo “regional”, utilizado para classificar e/ou qualificar uma determinada condição ou realidade, é possível notar que estas conceituações excedem em muito as limitações de espaço e tempo que lhe são atribuídas. Um olhar sobre as diferentes noções que o conceito assume, da filosofia à geografia, por exemplo, atestam tais extrapolações. Um bom exemplo disto é a interpretação do conceito de região a partir da noção de diferenciação de área, na qual prevaleceria o determinismo ambiental na definição de uma região, a partir da uniformidade resultante de elementos naturais, tais como clima, vegetação, relevo, temperatura, dentre outros (Corrêa, 1995, p. 9 e 22-23). É certo que o uso do termo região, tanto para designar uma área onde se localiza uma atividade produtiva, uma área com características geográficas específicas, ou ainda a conceituação do termo enquanto unidade política e administrativa, tomam a delimitação espacial como o marco de referência, sem que a utilização desta terminologia qualifique, na totalidade, a multiplicidade e diversidade da realidade a que se refere (Breitbach, 1988, p. 18). 

Logo, a abordagem do conceito de região formulada no âmbito da geografia crítica, ao efetuar uma leitura do termo articulada à construção dos modos de produção capitalista (Correa, 1995, p. 21) parece ampliar a visão parcializada que circunda a conceituação em causa. Esta abordagem compreende a ideia de região como uma das consequências do desenvolvimento diferenciado e desigual das sociedades nas quais a inserção na divisão nacional e internacional do trabalho, ocasionou distintas relações de produção. Sob esta ótica, a região é vista a partir das relações dialéticas entre o espaço e os processos históricos que modelam os grupos sociais (Correa, 1995, p. 21; Milton Santos, 2001, p. 80-8). Tal concepção vai colocar em questão o conceito de globalização, surgido nos anos 80 e sua aparente antítese em relação às realidades regionais. 

Ao tomar a economia como viés analítico-discursivo das relações de produção, em sua vertente econômica, a ideia de região, parece por em questão o conceito de globalização. Neste caso as noções de unidade econômica e de que estaria em formação uma cultura homogênea ao redor do globo, como prenúncio do fim das diferenças regionais, organiza-se, tanto por meio da homogeneização do espaço, como pela uniformização das relações sociais, tendo a padronização dos processos e fluxos de bens, capitais e informação o seu principal vetor (McLuhan, 2002; Giddens, 2003; Castells, 2006). 

Estes discursos têm desencadeado diferentes interpretações sobre a compreensão do conceito de região, qual seja: (1) a ideia de que o apego a um discurso de feições regionalista negaria à região, o desenvolvimento e o progresso; (2) a ênfase no discurso regional poderia ser fruto da necessidade de preservação do status quo das elites locais; (3) a perspectiva de que um discurso em favor da região poderia constituir-se em uma instância de resistência cultural, diante das demandas de homogeneização global ou ainda, (4) a reconfiguração política da ideia de região, oportunizando assim a criação de novos blocos regionais organizados para a defesa de interesses comuns com ênfase na dimensão econômica, a exemplo de agrupamentos tais como o MERCOSUL MERCOSUL - Mercado Comum do Sul; Nafta - North American Free Trade Agreement e ALCA - Área de Livre Comércio das Américas. 

No entanto, essas leituras sobre o fenômeno região podem ser compreendidas como tentativas para explicar o processo que Milton Santos denomina de “universalidade atual do fenômeno da região” (Milton Santos, 2006, p. 165). Para ele, no decorrer da história, as civilizações foram configurando-se por meio de processos orgânicos em que a territorialidade, a identidade, a exclusividade e os limites constituíam-se nas principais características definidoras da solidariedade de um entorno e de uma região. Contudo, a aceleração com que ocorrem as transformações mundiais e, em especial aquelas ocorridas nos pós-guerras, colocam em cheque as temporalidades que regiam as configurações regionais. Para Santos (2008, p. 167), estas transformações, que têm como principal vetor o fluxo de capitais, geram processos de mensuração e homogeneização das realidades locais/regionais sob uma perspectiva acrítica, influenciando tanto as organizações espaço-temporais existentes como aquelas que vão se estruturar em sequência. Para ele, uma região precisa ser vista tomando em conta a sua inserção nos diversos cenários, além de ter em consideração o preexistente e o novo, como estratégia necessária para captar o elenco de causas e consequências do fenômeno (Milton Santos, 1988, p. 17). 

O geógrafo constata que tais processos de mensuração e homogeneização exigem uma integração dependente que tem efeito desintegrador das solidariedades regionais, cuja consequência é a desarticulação da capacidade de gestão da vida local. Por outro lado, Milton Santos contrapõe-se à ideia de que a expansão hegemônica do capital eliminaria por completo as diferenças regionais. Para ele, o tempo acelerado e as oscilações provocadas pela desarticulação das solidariedades locais, aumentaria a diferenciação dos lugares ao instaurar um processo de “contrafinalidade localmente gerada” (Milton Santos, 2006, p. 193) que, longe de conformar-se passivamente com as imposições externas de setorização social e cultural, instaura um jogo dialético que permite pensar a região, tanto como um lugar de cegueira e complacência, como de lucidez e revolta, o que permitiria substituir, no tratamento da região, a ideia de passividade pela ideia de ação, criando as condições para pensar a região como uma categoria credível. Isto porque os espaços regionais, conforme observa Theotonio Santos (1998, p. 78), mantêm uma irredutibilidade impossível de ser substituída por outros espaços, qual sejam, os espaços nacional e global. Para ele, esses espaços, nacionais e globais, podem interferir sobre a conformação dos espaços regionais, orientando-os, mas nunca os substituindo. 

Deste modo, é importante que o ensino do design tome em consideração que está em questão aqui, a (des)construção da ideia de região, enquanto fenômeno estável, em face da aceleração do movimento e das mudanças que impactam sobre a forma e os conteúdos das regiões. Esta constatação é percebida por Milton Santos, para quem “o que faz a região não é a longevidade do edifício, mas a coerência funcional, que a distingue das outras entidades vizinhas ou não. O fato de ter vida curta não muda a definição do recorte territorial” (Milton Santos, 2006, p. 165). Apesar da afirmação de Santos parecer uma capitulação ante a globalização, ela abre uma questão importante a ser considerada no âmbito das discussões sobre a ideia de região. Ao reconhecer a não estaticidade do fenômeno, através da ideia de coerência funcional, o geógrafo instaura uma reflexão sobre o caráter dinâmico do local, tanto no plano externo, em sua interdependência com outros locais e outras regiões, como no plano interno que pode ser lido a partir das conexões positivas que evocam a harmonia entre os elementos do sistema de conhecimento, ou seja, entre elementos que conferem à região o seu tônus, a sua vitalidade e as características que acabam por funcionar como veículos de apropriação e oxigenação das realidades regionais. 

Esta coerência funcional desafia, a meu ver, a lógica das escalas que tem dominado as discussões sobre as noções de temporalidade vigentes na modernidade, a saber, a razão metonímica (Santos, 2008, p. 95) e a razão proléptica. Ao adotar uma única escala como dominante, a razão metonímica determina a irrelevância de todas as outras escalas à condição de inexistentes, de igual forma a razão proléptica (Santos, 2008, p. 96), que através da monocultura do tempo linear, estabelece o progresso como sentido e direção únicos na regulação da vida social. Esta concepção advém tanto da noção de temporalidade universal, enquanto a escala das entidades ou realidades que vigoram independente de contextos específicos, como do conceito de globalização, percebido como uma entidade que alarga seu domínio a todo o globo, o que lhe permitiria designar outras realidades (as partes) como locais, residuais e/ou atrasadas (Santos, 2008, p. 103 e 104). 

No cerne do problema das escalas está a dualidade global e local. Para Milton Santos (2006, p. 230), “a ordem global busca impor, a todos os lugares, uma única racionalidade. E os lugares respondem ao Mundo [global] segundo os diversos modos de sua própria racionalidade” (Idem). Além de ser governado por distintas racionalidades, o geógrafo acrescenta que, tanto a ordem global como a ordem local, apesar de constituírem situações opostas, elas são intercambiáveis em termos dos seus aspectos constituintes, ou seja, em cada uma verifica-se a existência de aspectos da outra, sendo a forma de organização o principal componente de diferenciação entre ambas. Enquanto a razão universal/global é organizacional, tendo como primado a informação, a razão local/região é orgânica, tendo como principal viés os processos de comunicação. 

Em sua caracterização das instâncias global e local, Milton Santos apresenta uma distinção para essas duas escalas. As escalas superiores ou externas fundam a ordem global tendo como parâmetros a razão técnica e operacional, o cálculo e a linguagem matemática. Ao passo que a ordem local é percebida por ele como aquela que é fundada na escala do cotidiano e tem como parâmetros “a co-presença, a vizinhança, a intimidade, a emoção, a cooperação e a socialização, baseada na contiguidade” (Milton Santos, 2006, p. 231). Tais características permitem a Milton Santos, por um lado, entender a ordem global como uma instância “desterritorializada” cuja principal característica é a inconstância espacial e, por outro, defender a ordem local como espaço que, por abrigar os objetos sociais concretos (a casa, o lugar de trabalho, os pontos de encontro, dentre outros), constitui-se no local onde se dão as continuidades e descontinuidades dos processos históricos (Milton Santos, 1982, p. 5-6). 

Deste modo, a ordem global, ao promover alguns poucos centros de ação, reduziu os demais centros à condição de local e de periferia, tal como assinalou Boaventura Santos (2008, p. 112-113), sendo esta uma das principais antinomias da ordem global. Por outro lado, a ordem local é definida por Milton Santos, também como aquela que “reterritorializa” e reúne numa mesma lógica interna, “homens, instituições, formas sociais e jurídicas e formas geográficas” (Milton Santos, 2006, p. 231), materializando a partir do localmente vivido, os traços de união de todos os dados, sendo o local o espaço de convivência onde tomam corpo, tanto os ideais locais como as abstrações globais. A interdependência entre o local e o global, proposta por Milton Santos, considera o peso e o papel das entidades globais na conformação da vida social, no entanto o local aparece em suas reflexões como uma instância privilegiada de compreensão da realidade global, residindo aí o fundamento, tanto para uma melhor compreensão da realidade espacial, como para colocar a transformação desta a serviço do homem (Milton Santos, 1982).

Ainda sobre a ideia de desterritorialização provocada pelas escalas global e local, Boaventura Santos destaca que, à mediada que aumenta a interdependência e as interações globais, as relações sociais parecem abrir caminho para novas concepções sobre o território. Tais elaborações podem ser lidas também a partir da ideia de reterritorialização, evidenciada através do fenômeno que ele denomina de “novos direitos e opções” (Santos, 2001, p. 60), acontecimento este que atravessa fronteiras antes policiadas pela tradição, pelo religião ou pelos nacionalismos. Para o sociólogo, em contradição com esta tendência, estão as novas identidades regionais, nacionais e locais, construídas em torno do direito às raízes, alicerçadas tanto em territórios imaginados, como em formas de vida e sociabilidade baseadas em relações de proximidade e interatividade (Santos, 2001, p. 60-61). Entre desterritorializações e reterritorializações, enquanto ações que caracterizam as imagens de global e local/ região, é importante ter em conta a impossibilidade de substituição ou de destruição do local pelo global como assinalou Hall (2006, p. 77-78). No entanto, é igualmente necessário identificar os processos através dos quais são produzidas as “novas identificações globais” e as “novas identificações locais” e, mais que isto, os termos e as lógicas que regulam estes processos bem como as zonas e os locais em que tais instâncias não conseguem abarcar com sucesso, ou mesmo onde tal empreendimento não ocorre por conta das diferenças espaço-temporais que separam tais elaborações conceituais dos locais onde elas deveriam concretizar-se. 

Assim, é possível compreender que, em Milton Santos, localidade e globalidade são mais que conceitos, são realidades que ao mesmo tempo em que se opõem, se interpenetram e se confundem. A existência do mundo (global) é percebida nos lugares (regiões), sendo o espaço a instância privilegiada de realização desses conceitos. É no “lugar” que, para Milton Santos, ocorrem as superposições dialéticas, dos tempos externos, das escalas superiores globais com os eixos dos tempos internos e locais. Lugar este onde se fundem as noções e as realidades de espaço e de tempo. Enquanto “quadro de uma referência pragmática ao mundo” (Milton Santos, 2006, p. 218), o lugar tanto é o palco da cooperação e do conflito e ambiente da vida social individualizada e da territorialização política, que se dá por meio do confronto entre organização e espontaneidade, como é também o locus das paixões, da ação comunicativa e das diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade (Idem). 

De certo que as identidades locais e os regionalismos não podem ser lidos como reservas de autenticidade e de resistência à globalização, como bem assinalou Néstor Canclini (2007). Contudo, é importante perceber as possibilidades que um reposicionamento do discurso que procura identificar no embate local/regional/global as forças e potencialidades presentes no conceito de região. Esta tomada de posição parte da ideia defendida por Boaventura Santos para quem, “o global e o local são socialmente produzidos no interior dos processos de globalização” (Santos, 2001, p. 69), o que implica de igual modo reconhecer também as contradições, os vínculos e as apropriações que minaram as forças emancipatórias que poderiam advir de tais classificações e conceituações. 

Sendo assim, a globalização, enquanto conjunto de trocas desiguais na qual “um determinado artefato, condição, entidade ou identidade local”, ultrapassa as fronteiras nacionais em um processo de extensão da sua influência, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade e/ou prerrogativa de designar os outros artefatos, condição ou identidade como rivais e inferiores (Santos, 2001, p. 69). Ciente deste posicionamento, penso que, ao ensino do design, faz-se necessário pensar em um discurso e uma prática que tenha como meta devolver ao local um espaço mais horizontal e mais emancipatório na agenda de trabalho, objetivando ouvir o que o local e o regional têm a dizer sobre si mesmo e sobre o(s) outro(s), abrindo os espaços para entender como as modalidades locais, regionais e globais se influenciam e combinam e também em que aspectos são impermeáveis e divergentes no trato com a realidade que se inscreve como global. 

Por outro lado, é possível que um desses problemas conceituais que envolvem a noção de região e as dificuldades para pensá-la no contexto do ensino do design, advenha do fato de que este conceito é tratado utilizando-se as lógicas de temporalidade da racionalidade moderna. Então, para que o conceito de região possa promover um diálogo mais horizontal e, quiçá mais emancipató- rio ao ensino do design, penso ser necessário repensar a ideia de região com vistas a imaginá-la sob o prisma de outra racionalidade diferente daquela que governa a modernidade ocidental e isto implica identificar e rever as assimetrias que fundam a noção de região como um estatuto de oposição, fundado em dualidades tais como: superioridade/inferioridade, global/local, Sul/Norte, atrasado/avançado dentre outras. Assim, a inversão de tais polaridades poderá permitir outras formas de pensar a região a partir de termos mais igualitários. Talvez, para alcançar este objetivo, num primeiro momento seja necessário colocar em evidência o conceito de região, através daquilo que Boaventura Santos denomina de inversão de polaridades (Santos, 2008, p. 112) para, a partir daí, identificar os elementos que podem fazer da região um conceito a serviço de outra racionalidade. 

Sobre esta inversão de polaridades, Santos (2008, p. 112) propõe, através da ecologia das transescalas, a recuperação simultânea de aspirações universais ocultas e de escalas locais/globais alternativas, que não resultam da globalização hegemônica. Este processo poderá permitir que seja instaurada aquela contra finalidade gerada localmente de que fala Milton Santos. Para tanto, faz-se necessário começar pelas metáforas, tal como aquelas expressas pelo fenômeno das “terras caídas” - Expressão usada na região amazônica para designar o desmoronamentos das ribanceiras dos rios e que Leandro Tocantins faz menção em seu livro o Rio comanda a vida. (Tocantins, 2000, p. 39). As “terras caídas”, insistem em modificar o desenho dos rios alterando sua estrutura, transformando o traçado das margens, eliminando extensas porções de terra que, ao mesmo tempo que reorganiza o rio confere a este uma nova conformação e um novo curso. 

Talvez a riqueza, que advém de uma metáfora como esta, permita repensar a verticalidade com que são concebidos os conceitos de local/regional em relação ao global, ao tempo que chamam a atenção para a existência de diferentes lógicas espaço-temporais. De igual forma, instaura a reflexão sobre outras coerências que se refazem, se organizam e se moldam para servir aos seus próprios propósitos, ou seja, num empreendimento que visa mover o local e por extensão o discurso da região, de uma posição hierárquica, fruto dos constantes processos de “despromoção do local” (Santos, 2008, pp. 112-113) e que, a meu ver, impedem o local e a região de aspirarem outras escalas temporais para além daquelas impostas pela dualidade local/global e para além das duas opções conferidas à inserção do local e da região, em sua relação com o global, qual seja, a exclusão ou a inclusão subalterna (Santos, 2001, p. 71). 

O desafio a tais lógicas de temporalidade residiria, talvez, no reposicionamento do discurso da região a partir das conexões existentes em seu interior, o que facultaria a este conceito mover-se dentro de uma determinada lógica de temporalidade que supere as classificações assimétricas. Deste modo, quando são utilizadas outras lógicas exógenas para quantificar ou mesmo qualificar os componentes da região (objetos, pessoas, formas e identidades culturais, modos de ser/estar, economias, mitos, etc.), em sua relação com outras dimensões tidas como globais, sob a égide daquilo que Boaventura Santos denominou de “falso universalismo” (Santos, 2008, p. 119), observa-se uma tendência para desqualificar no regional aquilo que não pode ser de todo absorvido e/ou transformado em universal ou global. 

Mesmo que, no âmbito local/regional, tais elementos apresentem uma coerência interna, o uso de uma lógica temporal única não dá conta das múltiplas e complexas temporalidades presentes no âmbito da região, constatação esta que requisita instrumentos conceituais que se organizem em torno de uma ecologia de trans-escalas (Santos, 2008, pp. 112-113), objetivando instaurar uma contrafinalidade gerada a partir do local e que permita entender a coerência funcional existente no interior das noções de local e região, com vistas a desliga-las da inércia global/local gerando formas diferenciadas e emancipatórias de perceber e compreender a ideia de região.

Proposições para (re)pensar e ensinar design

É tomando este cenário discursivo que penso que o conceito de região apresenta-se como um dos itens que compõem a agenda sob a qual o ensino do design poderá vir a debruçar-se nos próximos anos. A primeira proposição advém dos processos de apropriação do espaço que, historicamente, oscilaram entre negação e reconhecimento das diversas identidades presentes na região, em favor de uma identidade de viés híbrido, mestiço ou miscigenado, ao gosto da forma de racionalidade dominante, que, de certo modo, criou uma atitude de suspeita sobre todas as outras formas de reinvindicação identitária. Deste modo, a pergunta que me parece válida organiza-se em torno da possibilidade de que o do ensino do design consiga observar e questionar tal lógica, como uma das estratégias instauradoras de um novo conceito de região ancorado em reconhecimentos e em formas de interpretação que tenham como compromisso, dar credibilidade às identidades que formam e conformam a região. Esta proposição ao mesmo tempo em que propõe uma reorientação na noção de historicidade no trato com a ideia de região, compromete-se com a valorização dos elementos que fazem com que a região seja vista como tal, ou seja, as conexões internas que permitem aos indivíduos e coletividades construir processos de identificação a partir da ideia de região. 

A segunda proposição gira em torno das relações de proximidade, de copresença e de cooperação que caracterizam a região. Estas referências a meu ver, chamam a atenção para um modo de ser, de ver, de estar e de relacionar-se no âmbito da região e que deverá merecer a atenção do ensino do design no processo de investigação sobre as relações entre usuários/interfaces/contextos. Tal proposição advém do reconhecimento de que existe um acervo comum, tanto no que concerne a aspectos histó- ricos, culturais e territoriais, como no que se referem às inquietudes, problemas e conflitos deles decorrentes. 

A dimensão conflitual por seu turno, remete à terceira proposição, qual seja, a possibilidade de que o ensino do design, por meio do seu fazer, efetue uma leitura dos antagonismos da região por meio da inversão de termos e polaridades. Esta proposição esta baseada na ideia de que o jogo de forças que se dá no âmbito da zona de conflito da região pode ser lido através de imagens tais como: dentro e fora, local e global, regional e universal, geral e particular, enquanto polaridades que compõem o entrelaçamento dos diálogos em torno de uma identidade construída, a partir do discurso da região. Por estarem em conflito, essas dialéticas apresentam as condições propícias à inversão das polaridades que permeiam as imagens supramencionadas, instaurando uma visão positiva e que procure, no âmbito da região, enquanto zona de conflito, transformar ausências em presenças, o que requisita ao ensino do design um trabalho de igual forma tome em consideração as polaridades mas que também deem primazia e tomem como ponto de partida as categorias que fazem referência à região com vistas a criar uma estrutura em favor da região. 

Deste modo, a quarta proposição requisita a revisão da forma como o termo e o tema região têm sido usados no âmbito do ensino do design. De uma concepção usual de atraso, de débito e déficit, faz-se necessário empreender esforços que tenham como meta uma leitura da região a partir da ideia de que ali existem saberes e um excedente cultural que contradiz a perspectiva do saldo devedor em favor de uma visão de fé e de confiabilidade nas potencialidades da região. Para tanto, ao ensino do design faz-se necessário o questionamento constante dos métodos, das abordagens e das estratégias visando criar espaços para que esta revisão paradigmática ultrapasse os limites de uma intenção teórica e possa redundar em ações projetuais efetivas. Desta forma será possível pensar a região, enquanto tema de ensino, como possuidora de uma racionalidade própria, orgânica e detentora de um modus operandi particular que lhe permite, através das relações de proximidade, copresença, solidariedade e cooperação, constituír-se num local de referência e criatividade, necessários ao desenvolvimento de um ensino do design que se proponha emancipatório.

Referências 

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Abstract:

This paper aims to discuss the concept of region and opportunities to think and teach design. The discussion seeks to make a positive reading of the region as possible category, made speeches of globalization and offshoring, by sometimes seek the theory and practice of design education, mainly in specific locations in Latin America that seem to suffer pressure to conform to the overall determinations, to the detriment of regional specificities and characteristics. From this discourse scenario, a set of propositions that aims to rethink and teaching design from the connections that come from the region and its identity characteristics is presented.

Key words: Design education - Region - Identity - Culture - Design

Resumo:

Esta comunicação tem como objetivo discutir o conceito de região e as oportunidades para pensar e ensinar design. A discussão procura efetuar uma leitura positiva da região como categoria possível, face os discursos de globalização e de deslocalização que, por vezes, campeiam a teoria e prática do ensino do design, principalmente em locais específicos da América Latina que parecem sofrer uma pressão para conformar-se às determinações globais, em detrimento das especificidades e características regionais. A partir deste cenário discursivo, apresenta-se um conjunto de proposições que tem como objetivo o repensar e o ensinar design a partir das conexões que advém da região e de suas características identitárias.

Palavras chave: Ensino do design - Região - Identidade - CulturaDesign.

(*) Alexandre Santos de Oliveira. Doutor em Design, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, com Doutorado Sanduíche no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra sob a orientação do sociólogo Boavenura de Souza Santos. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade de Educação da Bahia, FEBA. Licenciado em Música pela Universidade Católica do Salvador - UCSAL.


Repensar e ensinar design a partir do conceito de região fue publicado de la página 105 a página110 en Actas de Diseño Nº25

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