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A visualidade dos jogos virtuais como fomentadoras de um imaginário tecnológico

Lima de Faria, Mônica

Actas de Diseño Nº7

Actas de Diseño Nº7

ISSN: 1850-2032

IV Encuentro Latinoamericano de Diseño "Diseño en Palermo" Comunicaciones Académicas Julio 2009, Buenos Aires, Argentina

Año IV, Vol. 7, Julio 2009, Buenos Aires, Argentina. | 263 páginas

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Nos últimos tempos, as novas tecnologias de comunicação vêm crescendo assustadoramente, tanto em termos de inovações tecnológicas quanto em número de usuários destas novas tecnologias (Wolton, 2003). Os aparatos tecnológicos vêm cada vez mais ganhando espaço no cotidiano das pessoas, sendo assim, o mundo digital e virtual também participam dessa aproximação. De acordo com Muniz Sodré:

A passagem da comunicação de massa às novas possibilidades técnicas não significa a extinção da mídia tradicional, mas a coexistência e mesmo a integração da esfera do atual (trabalhado na esfera pública por jornais, rádios, televisão, etc.) com a do ciberespaço, onde são proeminentes as tecnologias digitalizadas do virtual. Na verdade, estamos ingressando no que Salaun chama de uma nova “geração” do audiovisual.

A realidade virtual é o avatar da evolução técnica das máquinas audiovisuais (Sodré, 2002:78,79).

Com o advento da internet, as comunicações tornam-se mais rápidas e generalizadas, havendo uma maior distribuição de informações, porém sem controle ou “filtragem” daquilo que é disseminado.

Este artigo apresenta os jogos virtuais eletrônicos como um meio de comunicação proeminente no mundo contemporâneo.

Nestes jogos, as imagens têm um papel muito importante, pois mediam a relação entre os jogadores/ usuários e entre os jogadores e máquina, o que acaba por gerar um imaginário próprio, causando até o surgimento de um novo tipo de humano, homem e máquina: um meta-humano.

O jogo, segundo Rosário (2003: 159), é um “procedimento comunicativo capaz de engendrar estratégias discursivas e trocas simbólicas (...)”. Os jogos virtuais considerados neste projeto são os eletrônicos. Segundo Levis (1997), os videogames são o primeiro meio de comunicação de massa nascido na era da informática, e, como diz na capa de sua obra Los videojuegos, un fenómeno de masas, a indústria do videogame é a mais próspera do sistema audiovisual. Os jogos virtuais, no caso os eletrônicos, são caracterizados pela interação através de uma interface, um meio, ou uma plataforma mediadora não atual, pela qual os jogadores podem interagir.

Negroponte (1995), ao falar das origens das interfaces multímodo, ou seja, com várias funções sensoriais, comenta:

[...] a melhor interface seria aquela que dispusesse de canais diversos e concorrentes de comunicação, mediante os quais o usuário pudesse expressar sua intenção a partir de uma série de aparatos sensoriais diferentes (os dele e os da máquina). Ou, igualmente importante: um canal de comunicação forneceria a informação falante no outro. [...] Meu sonho em termos de interface é que os computadores se pareçam mais com seres humanos (Negroponte, 1995:97 e 100).

Sabe-se que hoje as interfaces digitais, inclusive as dos jogos virtuais eletrônicos contemplam as expectativas apontadas por Negroponte (1995), e ainda oferecem a possibilidade de interação. A interatividade de um sistema de jogos virtuais eletrônicos “é maior quantas maiores possibilidades ofereça ao usuário de incidir de maneira direta no desenvolvimento da mensagem” (Levis, 1997:37).

O desenvolvimento da mensagem de um jogo eletrônico, podendo ter uma ou mais possibilidades de resultados/ objetivos a serem atingidos, permitem a improvisação, a interpretação e escolha de caminhos possíveis para se chegar ao objetivo, e é nesse sentido que se torna uma atividade lúdica de aprendizagem e descontração, uma característica inerente aos jogos eletrônicos.

De acordo com Levis, um videogame é um software informático que reproduz em uma interface um jogo cujas regras foram previamente programadas (Levis, 1997: 27). Então é importante observar, que para caracterizar um jogo não virtual, como um eletrônico virtual, é necessário que existam regras pré-estabelecidas e programadas, e também um objetivo a ser alcançado. Indo ao encontro da afirmação de Levis (1997) sobre o poder da indústria dos jogos eletrônicos, Negroponte (1995) já comentava:

Os projetistas independentes de jogos têm, hoje, de perceber que seus produtos vão provavelmente se tornar best-sellers, se projetados para uma plataforma de uso geral (...). Por esse motivo, a computação gráfica dos PCs vai se desenvolver com rapidez rumo àquilo que vemos nos mais avançados videogames (Negroponte, 1995:113).

Já se sabe que Negroponte (1995) estava certo, tendo em vista a inúmera gama de produtos encontrados hoje.

Dentre os jogos virtuais podem ser encaixados vários tipos de jogos, desde os RPGs interpretativos, jogos de videogame, jogos de computador –online ou não–, entre outros. Neste artigo, como já comentado, serão considerados aqueles eletrônicos, incluindo os videogames e MMOs, dentro da categoria de RPG.

RPGs –Role Playing Games– são jogos de interpretação, para Cook, Tweet & Williams:

A ação do RPG acontece na imaginação dos jogadores.

Como atores em um filme, os jogadores, algumas vezes falam como se fossem seus personagens ou como se os outros jogadores fossem personagens. Essas regras adotam essa postura casual, usando ‘você’ para se referir a ‘seu personagem’. Porém, na verdade, você não é mais seu personagem do que quando joga com a peça rei no xadrez. Do mesmo modo, o mundo indicado por essas regras é um mundo imaginário (Cook, Tweet, Williams, 2002:6).

Ainda sobre os RPGs, Morris & Hartas (2004) explicam:

A idéia do roleplaying game aparenta ser relativamente nova na história do entretenimento, pensando em sua primeira aparição em Dungeons & Dragons nos anos 70.

Na verdade, essa foi uma formalização da antiga arte do ‘faz de conta’ que permeia a iamginação humana e deseja escapar da dureza da rotina diária. Foi apenas natural que isso saísse do papel e lápis para transformarse no que se mostra ser a mais influente mídia de entretenimento do futuro, o jogo de computador (Morris, Hartas, 2004:7)1.

Entre os RPGs, existem várias plataformas, ou tipos de interfaces: os jogos de tabuleiro, como Dungeons & Dragons citado por Morris & Hartas (2004:7); os consoles de videogame, podendo ser caseiros (Atari, Nintendo, Playstation...) ou arcade (conhecidos popularmente como jogos de “fliperama”); e os jogos de computador, que também são videogames, podendo ser online ou não. A grande mudança está entre os videogames e os MMO2s –Massive Multiplayer Online– que diferenciamse basicamente pelas plataformas de interface. Os RPGs de videogame apresentam histórias fechadas, nas quais o personagem do jogador interage com outros personagens máquinas, numa gama limitada de possibilidades.

Já nos MMOs, ou MMORPG –Massive Multiplayer Online RPG– os personagens dos jogadores interagem com personagens máquinas e entre si, através de seus ciborgues ou avatares, uma vez que são jogos online, através da internet, ou em rede, possibilitando uma interação real entre os ciborgues virtuais.

Então, diferença básica entre videogames e MMOs, é que num se interage unicamente com a máquina, noutro a interação se dá com máquinas e homens/máquinas.

Entendendo desta forma, os MMOs, bem como os jogos virtuais eletrônicos em geral, podem e são entendidos como um meio de comunicação, uma vez que sua interface, através das plataformas convencionais ou online permitem virtualmente a troca de informação entre jogadores, ou máquinas e jogadores, estabelecendo a comunicação no momento em que faz sentido aos usuários.

Segundo Dominique Wolton,

[...] a internet não passa de um sistema automatizado de informação; de uma forma ou de outra, são os homens e as coletividades que integram esses fluxos de inormações em suas comunicações. A informação é sempre um segmento, e somente a comunicação, com suas prodigiosas ambiguidades, lhe faz emergir um sentido (Wolton, 2004:149).

A comunicação através de meios virtuais cibernéticos é para Pierre Lévy um processo evolutivo pelo qual se passa agora, que caminha em direção à “digitalização, à virtualização e à inteligência coletiva” (Lévy, 2004:158).

Seguindo as idéias de Pierre Lévy, o virtual não é o oposto de real, como é entendido popularmente, mas sim de atual (Lévy, 1996). O virtual não é a ausência ou inconcretude de algo, mas a sua possibilidade de atualização; virtual seria então, uma potência de ser atual, então o virtual “é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização” (Lévy, 1996:16).

O que é importante salientar é que essa interação ou sociabilidade, se dá unicamente no meio virtual, e não num meio atual, utilizando as terminologias de Pierre Lévy. Seguindo as idéias do autor, ele fala sobre os sistemas de realidade virtual, comos os jogos eletrônicos: Os sistemas de realidade virtual transmitem mais que imagens: uma quase presença. Pois os clones, agentes visíveis ou marionetes virtuais que comandamos por nossos gestos, podem afetar ou modificar outras marionetes ou agentes visíveis, e inclusive adicionar à distancia aparelhos ‘reais’ e agir no mundo ordinário (Lévy, 1996:29).

No caso dos jogos eletrônicos, a realidade virtual se dá num meio digital, que, segundo Lévy (2004), é entendido pela combinação de símbolos ou elementos discretos e não apresenta relação óbvia entre o código e o que é descrito, “um código digital é convencional” (Lévy, 2004:159). Este meio digital então, é recheado de códigos convencionais, compreendidos por aqueles que o utilizam gerando um gênero de comunicação, uma espécie de vida cultural própria (Lévy, 2004), podendo ser encaixado ao fenômeno pós-moderno das tribos, decrito por Michel Maffesoli (2005).

Michel Maffesoli (2005) afirma que uma das diversas características do imaginário pós-modernidado é a força do sensível, assim resgatando valores ou condições arcaicas da antiguidade, um tipo de razão bárbara de coletivo e comunhão. Um destes fenômenos, segundo ele, é a metáfora das tribos –um retorno do ideal comunitário.

A massificação da cultura, do lazer, do turismo, do consumo é, claro, a causa e o efeito de tal tribalismo [...] o tribalismo só pode [re]nascer quando a ambiência impõe-se à razão. Por favorecer o imaginário, o lúdico, o onírico coletivo, ela reforça os microagrupamentos (Maffesoli, 2005:112).

A tribo torna-se, então, um agrupamento de indivíduos de acordo com afinidades sensíveis, que se dá exatamente pela necessidade do estar junto (Maffesoli, 2005).

A união social acontece num âmbito não mais racional como o moderno, mas sim, numa situação de puro emocional e ritualística, que, de certa maneira acaba sendoexemplificada  pelos imaginários criados pelos jogos virtuais eletrônicos.

Antes de tudo, deve-se entender que o imaginário não é algo concreto, porém um conjunto de sensações, crenças, afetos, sentidos, imagens, símbolos e valores, que representam certa condição cultural do homem (Faria, 2007). Maffesoli (2005) afirma que na pós-modernidade o imaginário se dá dentro de um estado coletivo, o tribalismo.

Nesse tribalismo, o imaginário do homem, como indivíduo, está inserido e é correspondente ao daquele grupo do qual faz parte, sendo para o autor inviável existir um imaginário individual.

“Todo imagináro é real. Todo real é maginário” (Machado da Silva, 2003:7). Ou seja, todo o conjunto de sensações, crenças e afetos que caracterizam um imaginário são reais uma vez que o homem vive na realidade imaginal, o que não pode ser confundido é o virtual e o imaginário (Lévy, 1996) . O virtual carrega inúmeras possibilidades de imaginários, mas nem todo o imaginário é virtual.

Falando dos jogos virtuais eletrônicos, estes seriam uma tecnologia do imaginário, um meio pelo qual imaginários se expressam e se formam (Machado da Silva, 2003). Mediado pela tecnologia que são os jogos virtuais eletrônicos, “o imaginário é uma introjeção do real, a aceitação inconsciente, ou quase, de um modo de ser partilhado com outros, com um antes, um durante e um depois” (Machado da Silva, 2003:9). Seguindo a idéia do imaginário ser algo real e coletivo, segundo Rahde (2001), o imaginário é uma forma de mudança, de reapropriações de idéias e fórmulas anteriores, a fim de reconstruir soluções plurais, que convergem numa manifestação iconográfica, o que faz retornar à importância da imagem na construção do imaginário.

Os jogos virtuais eletrônicos apresentam-se como uma dessas tecnologias, combinando o digital, o lúdico e a interatividade dentro de um meio de comunicação que, relembrando o que afirma Levis(1997), veio a ser um dos meios mais lucrativos da atualidade.

Cruzando estas idéias com as de Maffesoli (1995), observa- se o que ele chama de reencantamento do mundo, um retorno da imagem negada. Esse reencantamento vem a acontecer na condição pós-moderna, em que surge um mundo imaginal no qual a maneira de pensar é perpassada pela imagem, pelo imaginário, pelo afetivo, pelas sensações, fantasias e sonhos.

Se as imagens, como afirma Rahde (2001), têm papel importante na construção do imaginário, ela é uma tecnologia do imaginário.

Numa concepção pós-moderna, a criação gráfico/plástica está presente no processo do imaginário, das tecnologias de projeção de formas e idéias que se transformam numa outra realidade que não se pode denominar irreal ou virtual, pois tudo o que a imaginação projeta, a tecnologia vem tornando possível de se tornar realidade (Rahde, 1999:80).

Entramos então nos imaginários tecnológicos, provocados por essas imagens reais criadas pelas novas tecnologias do imaginário, criando mundos futurísticos de ficção-científica, cyberpunks, sofisticados, retornando aos mitos, heróis guerreiros e mágicos, contos de fadas e criaturas fantásticas ou ainda, mesclando as possibilidades, como muito se encontra nos jogos virtuais eletrônicos, mostrando mundos míticos e oníricos.

O onírico, e o mítico segundo Malrieu (1996), fazem parte do imaginário. O onírico, ou seja, aquilo que vem do sonho, está intimamente ligado às impressões sensoriais dos indivíduos, algo demasiadamente abstrato que instigam imagens de cunho afetivo. No que se refere ao mítico, ainda de acordo com Malrieu (1996), encontramse elementos imbuídos da fantasia e do fantástico, “um sistema coletivo de crenças pré-existente, [no qual] são construídos os comportamentos individuais da imaginação” (Malrieu, 1996: 51-52). Sendo assim, mítico corresponde à uma possível presença de atividade da imaginação, a qual gera novos elementos respaldados pela mítica coletiva. Relacionando o onírico com o mítico, Campbell afirma:

O sonho é o mito personalizado e o mito é o sonho despersonalizado; o mito e o sonho simbolizam, da mesma maneira geral, a dinâmica da psique. Mas, nos sonhos, as formas são destorcidas pelos problemas particulares do sonhador, ao passo que, nos mitos, os problemas e soluções apresentados são válidos diretamente para toda a humanidade (Campbell, 2007: 27-28).

Seguindo esse raciocínio, onírico e o mítico presentes no imaginário, poderiam ser uma nova forma de criatividade na comunicação, pois, uma vez lidando com estereótipos não comuns à nossa ocidentalidade, criar-seiam espaços para o surgimento de novas possibilidades de significação, interpretação e comunicação.

A visualidade desses jogos virtuais eletrônicos é extremamente plural, bem como suas narrativas e possibilidades.

Isto vai ao encontro das idéias de Rahde & Cauduro (2005), que dizem que a imagem pós-moderna é repleta de hibridações e metamorfoses obtidas, pelo inclusivismo de diversas formas de visualidades. Assim, tais imagens plurais e excessivas, produzem diversos significados ambíguos, imprecisos e contraditórios, característicos da contemporaneidade.

Dentre as inúmeras visualidades presentes nos imaginários presentes dos jogos virtuais eletrônicos, nota-se que a figura do herói é bastante presente em suas imagens e narrativas. Os temas já citados de heróis, magias e fantasias são dos mais facilmente encontrados nesses jogos, principalmente os on-line.

Os homens têm uma necessidade interna de heróis. Eles são campeões do bem, restauradores da ordem e praticamente imutáveis no tempo e no espaço. Povoam um setor privilegiado do nosso imaginário, governado pela fantasia (Luyten, 2000:69).

Sendo assim, os heróis das fantasias medievais encontrados nos jogos virtuais eletrônicos geram um estímulo do imaginário, mediados por sua visualidade e seus ciborgues.

O imaginário, segundo Maffesoli (2001:75), é “o estado de espírito de um povo. Não se trata de algo simplesmente racional, sociológico ou psicológico, pois carrega também algo de imponderável, um certo mistério da criação ou da transformação”, ou seja, para Maffesoli não é possível simplesmente “definir” o imaginário, este é então uma espécie de sentimento coletivo para o autor, que perpassa a racionalidade.

De acordo com Durand (2004:430), “a verdadeira liberdade da vocação ontológica das pessoas repousa precisamente nessa espontaneidade espiritual e nessa expressão criadora que constitui o imaginário”. Essa necessidade de heróis faz com que eles sejam criados, mistificandoos (Eco, 2004). Porém, esses heróis que comunicam e são consumidos (Faria, 2007), nos jogos virtuais eletrônicos, também podem ser criados e manipulados por seus jogadores.

Então, em cada um destes heróis, já é imbuído algo muito próprio: o imaginário de cada jogador.

[...] O objeto é a situação social e, ao mesmo tempo, o seu signo: conseqüentemente, não constitui apenas um fim concreto perseguível, mas o símbolo ritual, a imagem mítica em que se condensam aspirações e desejos. É a projeção do que gostaríamos de ser [...] (Eco, 2004:243).

Eco (2004) afirma que numa sociedade de massa, as pessoas tendem a eleger símbolos oferecidos pela mídia.

Símbolos estes que vão ao encontro dos valores perseguidos por essa sociedade, sendo mitificados e idealizados como algo exemplar, um ser humano modelo no qual todos devem se espelhar e desejar vir a ser. A visualidade destes símbolos é de extrema importância, uma vez que o simbólico é imaginal, “o símbolo define-se como pertencente à categoria do signo” (Durand, 1993:8).

Porém, é no imaginário tecnológico que se encontra a mitificação do herói e do imaginário, uma vez que é aí que se dá integração do homem e da máquina: para jogar, o usuário deve criar o seu ciborgue, que se relaciona com outros ciborgues. O herói do jogo é manipulado e criado pelo próprio jogador, tornando-se um simulacro do eu, do sujeito. O herói torna-se um meta-humano, um ser idealizado, sem defeitos, no qual se reflete as projeções do jogador através de uma máquina-homem com poderes extra-humanos, ou semi-deuses, controlada pelo jogador.

Segundo Machado da Silva, “o imaginário tecnológico é produto de um imaginário social, socialmente imaginado e construído, que condiciona em ricochete, conforme as tecnologias do imaginário disponíveis em determinado momento” (1999:132). Comparando com a ficção-científica do cinema, tão similar às dos jogos eletrônicos, o imaginário tecnológico de hoje leva a uma incerteza, ao medo da dominação do homem pela máquina, do caos e do artificial. Até que ponto ainda se é homem e já se é máquina? Isso se reflete na construção dos meta-humanos ciborgues guiados pelo imaginário dos jogadores através das possibilidades da máquina.

Este tema é também amplamente trabalhado na visualidade dos jogos virtuais eletrônicos, mostrando imagens futurísticas, de ficção científica e até, como já comentado, misturando a fantasia medieval com o a máquina.

Essa temática da máquina e do ciborgue e a criação do meta-humano é facilmente entendível, uma vez que os jogos já são criados para se relacionarem com os usuários através de máquinas, mediados por imagens, ou seja, já são naturalmente imbuídos deste imaginário tecnológico, ora visto com bons olhos, ora apocalíptico.

A questão, ainda sem resposta, está nas conseqüências que essa vida digital pode acarretar.

Então, os jogos virtuais eletrônicos necessitam de uma interface visual para a interação entre os jogadores/usuários comunicarem-se. As imagens destes jogos representam um papel importante, a de mediadoras e fomentadoras do imaginário destes jogos e por conseqüencia, dos jogadores. Esse imaginário é sim, por sua vez, tecnológico, já que toda a interação do jogo se dá em meio à tecnologia. A criação do meta-humano, ciborgue só é possível porque as tecnologias e as imagens tecnologicas a permitem, sendo então estas as responsáveis por gerar estes imaginários. E é através das imagens de computação gráfica, que os imaginários se constroem e pelas quais se dá a fantasia, o mítico e o onírico que tornam estes jogos atrativos à inúmeras pessoas.

Notas 1. Livre tradução do autor.

2. “São ambientes digitais [virtuais] onde pessoas de diversas partes reúnem-se, cada um com seu personagem, para jogar. Alguns desses jogos on-line chegam a comportar centenas ou milhares de jogadores no mundo todo dividindo ao mesmo tempo um só espaço de jogo” (Branco, 2005:94).

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Mônica Lima de Faria. Professora da ESPM-RS; Mestre em Comunicação Social PUCRS; Bacharel em Design Gráfico UFPEL.


A visualidade dos jogos virtuais como fomentadoras de um imaginário tecnológico fue publicado de la página 98 a página102 en Actas de Diseño Nº7

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