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Ensino do Design no Amazonas: modernidade ou modernização?

Santos de Oliveira, Alexandre

Actas de Diseño Nº10

Actas de Diseño Nº10

ISSN: 1850-2032

V Encuentro Latinoamericano de Diseño "Diseño en Palermo" Primer Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño

Año V, Vol. 10, Marzo 2011, Buenos Aires, Argentina | 264 páginas

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Modernização em Le Goff, esboçando um conceito

Tomamos como ponto de partida o conceito exposto por Le Goff (2003). Em sua obra, História e Memória, a discussão com relação a modernização aparece no bojo das tentativas de elucidação das questões referentes ao par antigo/moderno. O breve contexto histórico em que ele situa o termo e os seus desdobramentos, propiciam a discussão do tema a partir da perspectiva do “atraso” imposta às nações periféricas, quando comparadas às grandes potências (européias e a americana) e as questões de identidade nacional. Segundo Le Goff (2003: 190) a ação modernizadora tem, no seu cerne, uma visão política e de submissão de uma cultura à outra. É importante observar que no processo de modernização “(...) as nações atingidas pelo imperialismo ocidental, (...) foram confrontadas com o problema do atraso em certos campos”.

Esta constatação, atrelada ao sentido de modernidade, enquanto versão economicista da modernização, impôs às nações “atrasadas” a necessidade de, em diferentes instâncias, aderir ao projeto de modernização/ocidentalização emergente.

Sills (1975) por sua vez, define a modernização como um termo atual para designar o processo pelo qual as sociedades menos civilizadas, adquirem as características comuns das sociedades mais desenvolvidas. Para ele, o canal responsável pela imposição de valores e crenças, já fora criado pelo imperialismo colonial em nome da ideologia do progresso.

O conceito de modernização, segundo Le Goff (2003), enquanto corolário da modernidade ocidental, é introduzido, com êxito, em alguns dos países denominados de Terceiro Mundo, na segunda metade do século XX.

Faro (1992: 19), reforça a idéia de modernização como fenômeno de transição à modernidade, evidenciando que a superação do antigo e a emergência do moderno passa, obrigatoriamente, pela modernização. Principalmente quando a questão se apresenta, mais uma vez, sob a perspectiva missionária, competindo à Europa Ocidental e aos Estados Unidos, conduzir à modernidade, países considerados atrasados. Neste sentido, é interessante observar que, o caminho para a entrada na modernidade passa, pela modernização, uma vez que esta, enquanto abordagem político-econômica (Le Goff, 2003), parece constituir-se num caminho a ser percorrido pelos países periféricos para chegar ao padrão de modernidade cultural delineado pelos apóstolos da modernidade. Le Goff (idem) ressalta ainda que, na atualidade, diante dos processos de descolonização, posteriores à Segunda Guerra Mundial, observam-se, outras abordagens para este tema, à partir de enfoques tais como: a dimensão tecno-econômica e a dimensão sócio-cultural.

Para Bell (1989), a integração dessas vertentes, de natureza heterogênea e por conseguinte, conflituais, parece ampliar o alcance da primeira abordagem (a políticoeconômica), convertendo a ordem política no verdadeiro sistema de controle da sociedade. Subjacente ao significado de progresso da modernização, está o substrato político de dominação. Mesmo quando Le Goff (2003 p.190-191) tenta subdividir em tipologias a modernidade, fica também evidente ou subjacente no seu discurso, o caráter conflitual que permeia o termo.

Por outro lado, a criação da teoria da modernização, defendida por Jameson (2005), permitiu uma sobrevida à imagem de progresso vinculada com a tecnologia, num momento em que já se esboçava um certo desencanto com tais ideias entre a classe burguesa, parece amenizar o caráter conflitual do conceito de modernização. Neste ínterim, o discurso da modernização já se fazia ouvir além mar, uma vez que os ecos já podiam ser ouvidos fora da Europa e dos Estados Unidos. Neste momento, segundo Sills (1975), já é possível falar no termo modernização, como uma categoria de demonstração consciente das semelhanças passíveis de serem observadas, em todas as sociedades modernas fora da Europa e dos Estados Unidos.

Uma vez que, respeitadas as devidas proporções e especificidades, observa-se uma similitude econômica que acaba por servir de medida comparativa para avaliação do nível de modernidade das sociedades em vias de modernização.

É importante observar que no Brasil, e especialmente no Amazonas, os reflexos das idéias de modernização, pós Segunda Guerra, começam a ser sentidos através das políticas de desenvolvimento aqui implementadas.

Modernização e o ensino do Design no Brasil

A necessária relação entre arte e indústria que remonta ao século XVIII na Europa (Forty, 2007) e que chega ao Brasil no século XIX, com a vinda da missão artística francesa (Leite, 2006; Cardoso, 2004), se constitui num marco para pensar a implantação de cursos voltados à “(...) formação de artífices capazes de projetar e executar os mais variados artefatos da vida cotidiana” (Leite, 2006: 255). Nesta perspectiva os Liceus de Artes e Ofícios tiveram papel significativo na formação de mão-de-obra que pudesse dar conta, já àquela época, dos ideais de progresso e civilização em curso na Europa, em fins do século XIX e início do século XX que começam a aportar no Brasil. Discutindo alguns marcos para a origem do ensino do Design no Brasil, Leite (2006: 256) afirma que começam a se delinear, em solo brasileiro, uma série de eventos que apontam para a necessidade de enfrentamento das “(...) novas questões da produção e da expressão artística”. Leite afirma ainda que o primeiro modernismo brasileiro, de caráter nacionalista, das décadas de 1920 e 1930, volta-se para o Brasil no entanto, o seu localismo e pulverização não teve influências diretas sobre o ensino do Design, apesar do seu questionamento só ter ocorrido na década de 1950 com o “projeto construtivo brasileiro” (Cardoso, 2004: 82).

Na segunda metade do século XX a atuação do estado brasileiro gravitava em torno da superação da condição de “atraso” induzida por intervenções do estado nas dimensões econômicas e culturais do país, através de sucessivos surtos de modernização, visando conduzir o país à tão almejada modernidade. É neste contexto que se instala o ensino do Design no Brasil que, infelizmente, enquanto entrincheirado em si mesmo, acabou por se constituir num “modernismo” que não passou pela modernização, e impedindo o ingresso do Design na maioridade/modernidade.

Estará o design no Brasil fadado à síndrome de Peter Pan, ser eternamente jovem? A opção política pelo desenvolvimento atrelado ao capital estrangeiro, leia-se norte-americano, se constitui no ingresso do Brasil na modernização que já havia se iniciado na era Vargas.

O Plano de Metas de Juscelino se constitui no documento oficial de adoção do modelo de modernização política, econômica e cultural para o Brasil, modelo este que, segundo os analistas, seria levado às últimas conseqüências pelos Militares à partir de 1964. É importante observar, juntamente com Cardoso (2004: 83) que a idéia de modernização com vistas à modernidade do governo JK, sai dos museus e do círculo burguês e começa a ser massificada entre a população brasileira.

A proliferação intencional dos aparatos imagéticos e simbólicos pelo rádio, pela propaganda, pela arquitetura e pela recém chegada televisão, corroboram com a idéia de que, um projeto de modernização não pode prescindir de aparatos de homogeneização das formas de apreensão do real (Harvey, 2004). Dentre os aparatos mencionados estão aqueles de domínio do Design aqui aportados. É neste cenário que começa a se configurar o ensino do Design no Brasil, as transformações culturais no cinema, no teatro e nos sons da Bossa Nova, o crescimento das grandes cidades, para dar conta do surto de migrações internas, a estética modernista de Brasília, são indícios de que algo estava acontecendo no país e a educação, enquanto instância de legitimação cultural, não podia estar alheia a tal movimentação.

Em se tratando do ensino do Design, é sabido que o racionalismo da escola de Ulm se estabeleceu no Brasil através da pedagogia da ESDI - Escola Superior de Desenho Industrial, no entanto, é importante ressaltar as iniciativas da Escola Técnica de Criação do MAM - Museu de Arte Moderna e a cadeira de Desenho Industrial implantada na graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura da USP (FAU-USP) (Niemeyer, 1998; Cardoso, 2008).

Ainda no que concerne à ESDI e a implantação da cadeira de Design na FAU-USP, Niemeyer (1998: 88) observa que, face o movimento nacionalista que ecoava no Brasil, a escola poderia se constituir num “espaço institucional em que seria produzida a identidade nacional dos produtos” se constitui numa evidência daquela onda de nacionalismo, que campeou o segmento acadêmico mas que, no caso do Design na USP, não ganhou o devido espaço desdobrando-se posteriormente, em solo esdiano.

Uma outra experiência ligada ao ensino do design que merece destaque, é o projeto para uma escola de Desenho Industrial e Artesanato, idealizada por Lina Bo Bardi, que deveria ser implementada em Salvador - BA, no início da década de 1960, conforme declara Leite (2006: 260) no entanto, a iniciativa não se consolidou, pelas mudanças no cenário político. Esses indícios de um Design, atrelado à tradição nacional, mesmo não tendo encontrado solo fértil para o seu desenvolvimento, indicam que sempre houveram alternativas para o modelo vigente, fica claro que o modelo de formação em design que se estabeleceu no Brasil e que persiste até os dias atuais, não se constitui numa única forma de operar.

A existência de outros discursos que partem da vocação e mais que isto, da realidade e das necessidades da sociedade brasileira, se apresenta como uma outra forma de pensar e ensinar Design no Brasil. A implantação da ESDI fazia parte de um projeto de modernização do Brasil, através da vontade política de Carlos Lacerda, (Niemeyer, 1998) então governador da Guanabara. O objetivo explícito do seu idealizador de “articular a elevação da qualidade de produtos com a cultura” (Niemeyer 1998: 116) esbarraram na aproximação da ESDI com as convicções pedagógicas de Ulm e sua estética racionalista, impedindo qualquer expressão modernista na escola e coibindo a emergência de abordagens diferentes daquela importada da Europa, ou seja, alheia ao contexto no qual o ensino de design estava inserido (Leite, 2006). Le Goff (2003) declara que a ação modernizadora pressupõe a submissão de uma cultura à outra. Se pensarmos no ensino do Design, que se estabeleceu no Brasil, essa consonância é evidente.

Muito diferente do projeto dos cursos ministrados no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), do MASP na década de 1950 que, segundo Niemeyer (1998: 16) “estimularam a discussão sobre a relação, design, arte, artesanato e indústria”.

Observa-se neste caso, as feições de um projeto de ensino de Design que se propunha pensar o Brasil de frente contudo, pela falta de recursos teve vida curta. É importante observar que o caráter de modernização que permeou as iniciativas de implantação do ensino do design no Basil, acabou por influenciar a formação de outras escolas, dentre elas destaca-se a implantação do ensino do Design no Amazonas.

Modernização, modelos de desenvolvimento e o ensino do design no Amazonas

No Amazonas, o fenômeno da modernização se apresenta, num primeiro momento, de forma pré-industrial e extrativista, através da extração das drogas do sertão e posteriormente com o aclamado “Ciclo da Borracha” (1850-1913). O ciclo drogas do sertão do início do século XVIII, desenvolve-se, sob a égide do processo de colonização e respondendo à lógica do capitalismo mercantil. No ciclo da borracha, a Amazônia responderá, com a extração do látex dos seringais, às demandas da produção industrial que aconteciam na Europa e Estados Unidos. Passado o período do apogeu, a modernização deixa apenas os reflexos que serviriam de ícone a outros eventos que teriam lugar no Estado. Sobre esses ícones é importante destacar a abertura do Rio Amazonas à navegação internacional em 1867, possibilitando a atração de um forte contingente de imigrantes e a rápida urbanização da cidade de Manaus, com sua arquitetura à Belle Èpoque (Mesquita, 2006). É desta época, por exemplo, a instalação no Amazonas da Escola de Educandos e Artifices, Mesquita (2006) faz referência à existência de atividades de pintura, e oficinas de tipografia. Páscoa (1997), discorrendo sobre esta questão, aponta para a existência de docentes vindos da Europa que ministravam cursos de decoração, fotografia, pintura e publicidade, no entanto, esta questão ainda não foi de todo esgotada e pesquisada merecendo um exame que excede os limites deste ensaio, no entanto, tal investigação pode constituir-se elucidativa para o entendimento do papel e importância das atividades de ensino ligadas ao campo do Design no Amazonas.

Na década de 1940, Souza (2000) e Pontes Filho (2000) observam que os seringais voltam a experimentar novo impulso em função da II Guerra Mundial, face a impossibilidade do fornecimento de borracha oriunda da região asiática, no entanto, com o final da guerra e com a liberação da borracha produzida no Oriente, a Amazônia, é novamente esquecida e o interesse econômico só será retomado à partir da década de 1960 com a descoberta do seu potencial mineral e florestal, interessantes à industria e ao capital estrangeiro, culminando com a implantação dos projetos de desenvolvimento para a região, esta fase representa a inserção da Amazônia na dinâmica do capitalismo nacional e internacional.

A criação da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), substituída posteriormente pela Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) em 1966, se constitui no marco inicial destas políticas de modernização. É importante observar que a criação dessas agências cumpria, naquele momento, um importante papel de integração da região ao restante do país. Ao que parece, em algum momento, o Estado-nação reconhece a Amazônia como parte do seu território e decide ocupá-la, isto fica evidente através da presença do Estado em regiões fronteiriças. Num momento pósguerras, a proteção das fronteiras se constituía numa preocupação do Estado. Assim, o domínio do espaço, antes virtual e cartográfico agora começa a se materializar, anunciando um posterior domínio do tempo e das suas formas de representação (Harvey, 1993), cuja análise estão para além dos limites deste ensaio. Mas, a aparente preocupação com a Amazônia possui outras justificativas, as riquezas naturais, tornavam a região atraente, para os investidores nacionais e internacionais, como para aqueles que, de algum modo poderiam apropriar-se de suas riquezas indevidamente, como já ocorrera anteriormente.

Assim, além do fortalecimento das fronteiras, criam-se incentivos fiscais que seriam geridos por instituições governamentais, tais como a SUDAM e a SUFRAMA - Superintendência da Zona Franca de Manaus, dando prosseguimento à política modernizadora.

A despeito das várias iniciativas e “tentativas” (Le Goff, 2003) de modernização da Amazônia, é importante observar que nas décadas de 1970 e 1980, no auge do Governo dos Militares, foram implementadas uma série de políticas que tiveram como objetivos, além da modernização econômica a modernização técnica, a modernização cultural (Le Goff, 2003 e Bell 1989), numa evidência clara que o projeto visava superar o “atraso” e o subdesenvolvimento da região amazônica. Trata-se de um “novo” processo de conquista, que nega toda a história pregressa e advoga a missão de modernizar o Brasil e a Amazônia.

Ainda considerando este pano de fundo e dentre as tantas questões que são possíveis de articulação, discussão e aprofundamento através do exame da legislação.

É interessante, por hora, destacar, de forma ilustrativa, que o título da lei remete diretamente à redução de um determinado espaço geográfico às sua dimensão econômica e valorativa (Plano de Valorização Econômica da Amazônia) lembrando-nos a afirmação de Bell (1989: 24) “(...) a medida do valor é a utilidade”. No entanto, alguns aspectos desses projetos de modernização merecem destaque, o primeiro refere-se à presença no texto dos documentos consultados (Brasil, 1966, 1968) objetivos relacionados às dinâmicas de controle do espaço geográfico, a adoção de políticas migratórias, a fixação das populações regionais em áreas de fronteiras, a ampliação de oportunidades de formação e treinamento de mão-deobra e pessoal especializado necessários ao desenvolvimento da região, a concessão de incentivos fiscais e a instalação de empreendimentos de cunho industrial, se constituem indícios de que o projeto de modernização chegava para ficar. Trazendo as reflexões de Le Goff (2003) sobre as questões referentes ao par antigo/moderno é importante questionar que o processo de organização e de implementação de tais políticas de modernização na Amazônia, não fazem referência ao seu passado, à sua história e desconsideram até o seu presente.

É certo que estamos analisando o problema de forma superficial, no entanto, o exame de alguns documentos e a concatenação dos fatos e eventos fornecem a impressão de uma (re) descoberta da Amazônia, tal qual fizera a expedição de Francisco de Orellana em meados do século XVI. Voltando às ilustrações, observa-se que, as estáticas disponibilizadas pelo IBGE (2009), apontam para o crescimento populacional da região norte entre as décadas de 1970 e 1980, com taxas superiores aquelas evidenciadas em décadas anteriores. Para se ter uma idéia, a taxa média de crescimento da população residente no norte do Brasil alcançou, em 1970, o índice de 5,02%. No estado do Amazonas o índice foi de 4,12%. Dados esses quando comparados aos índices de outras regiões do pais, no mesmo período, são indicativos da ressonância que tem os projetos de modernização, implementados, por meio de várias instâncias de gerenciamento das políticas do Estado.

Analisando a demanda pelo ensino médio na cidade de Manaus no período em questão, Aguiar (2002: 124) assinala que houve um aumento da procura de vagas nos estabelecimentos de ensino público, em função do aumento da população urbana, o que acabou por desestruturar o sistema de ensino. No panorama da educação, é importante ressaltar ainda que em 1970, a recém criada Universidade do Amazonas, comemorava apenas 8 (oito) anos de existência. Considerando que a televisão só chegará no Estado na década de 1970, o cine Guarany se constituia na única fonte de diversão. Segundo Aguiar (2002: 133) até então, ouvia-se em Manaus, além da Rádio Rio-Mar o sinal de uma série de rádios estrangeiras, dentre elas a BBC de Londres, no entanto, as políticas de modernização da Amazônia previam a criação de um quantitativo de rádios visando a “ocupação dos espaços vazios” eliminando a influência das rádios estrangeiras no território nacional.

Existia àquela época apenas a Biblioteca Pública Municipal.

O Teatro Amazonas, símbolo do Ciclo da Borracha, estava fechado; jornais tais como o A Crítica, o Jornal do Comércio e O Jornal, além de veicularem as principais notícias locais, apresentavam aos leitores um panorama da realidade nacional, divulgava também as publicações literárias do Clube da Madrugada. É neste cenário cultural que começa a se delinear todo um processo de ação modernizadora.

Neste sentido, observa-se que os projetos de modernização implementados após a II Guerra Mundial terão impacto direto sobre as formas de organização da sociedade. O poder político do Estado encontra-se sedimentado e engessado pela Ditadura Militar, oferecendo aos países centrais o espaço necessário ao desenvolvimento de uma internacionalização do capital nos países periféricos (Souza, 2000: 37-38).

Em síntese, face os modelos implantados na Amazônia até a década de 1980, fazia-se necessário criar uma série de estruturas tecno-econômicas e sócio-culturais, capazes de estabelecer na região um ideal político de modernização que favorecesse o seu domínio, com vistas à sua integração ao cenário nacional, favorecendo a implantação dos projetos de desenvolvimento que terão lugar à partir de então.

Dentre as instituições e instâncias que foram criadas para dar suporte ao projeto de modernização, estava um curso de Desenho Industrial que, segundo Cavalcanti (2005) respondia diretamente às demandas do setor produtivo regional e nacional. Antecedendo ao curso de graduação, observa-se a criação em 1987 da Divisão de Design na Fundação Centro de Análise Pesquisa e Inovação Tecnológica - FUCAPI, como iniciativa de um consórcio entre a SUFRAMA, a ABIPTI - Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e o CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, através do Plano Estratégico de Ciência e Tecnologia - PEECT, culminando com a criação em 1988, do curso de Desenho Industrial na Universidade Federal do Amazonas - UFAM, sob forte influência da Universidade Federal da Paraíba - UFPB, constituindo-se no primeiro curso de design na região norte do Brasil. Para pensar o ensino do design no Amazonas, é importante destacar, juntamente com Souza (2000) algumas ações engendradas com vistas á criação de uma modernização dependente. A primeira ação é evidenciada pela criação de uma cadeia de dependência econômica sob a bandeira da modernização, o segundo é a ampliação das desigualdades sociais e econômicas em decorrência da divisão do trabalho, o terceiro está relacionado à implantação de um modelo industrial dependente, sob o comando do capital e tecnologia estrangeira e a transferência de fábricas dos países centrais para o terceiro mundo, como forma de diminuir custos e valorização do seus capitais.

É importante questionar a quem interessa este modelo de internacionalização do capital, hoje denominado de globalização, uma vez que tal industrialização tardia e dependente, tal como se configurou no Amazonas, criou uma falsa idéia de progresso e modernidade no momento em que se tornam mais agudas as relações de dependência econômica, influenciando decisões nos domínios político e social e anulando ou silenciando as questões culturais.

Não é novidade que, nos campos político-econômico e sócio-cultural, no caso brasileiro, há uma mescla de interesses externos e de demandas internas, em se tratando da Amazônia, o cenário não é diferente.

Para Santos (2000), após sucessivos momentos de apogeu de uma economia eminentemente extrativista voltada para a exploração das drogas do sertão e o ciclo da borracha, observa-se a emergência dos projetos integristas com vistas à ocupação territorial e com forte apelo à industrialização.

Se quisermos estabelecer um paralelo entre os processos de modernização implementados na Amazônia e a implantação do ensino do Design, podemos afirmar que as décadas de 1970 e 1980 foram emblemáticas para esta região.

É claro que não estamos negando os ciclos econômicos que se constituíram fundadores da economia e da sociedade amazonense, conforme já tivemos a oportunidade de esboçar anteriormente. Neste sentido, é possível perceber que, a modernização opera através da transformação da sociedade e de suas instituições, considerando juntamente com Silles (1975), que estas instituições estão, sob alguma fase de transição que, no momento em questão, não se apresenta como uma ação interna mas, começa a se configurar por forças externas.

Por seu caráter hegemônico, começam a ceder espaço para a emergência do moderno e do “novo”. Assim, podemos afirmar, provisoriamente, que a modernização se constitui num caminho onde o fim desejado, por uma instância maior, a saber, o Estado, é a modernização econômica para alcançar a modernidade. Ação esta independente das necessidades dos sujeitos envolvidos, funcionado à partir da criação de demandas, num cenário previamente desenhado onde, num primeiro momento, importa anular as diferenças e absorver a modernização.

Por outro lado, recordando a implantação do ensino do design através da ESDI, a associação do modernismo a um projeto político de desenvolvimento, com objetivo de formar mão de obra para o esperado surto industrial, conforme declara Niemeyer (1998), tem consonância com o caso do ensino do design no Amazonas onde este acontece pós movimento de industrialização tardia e tendo como cenário as políticas de desenvolvimento implementadas na região, culminando com a emergência do modelo Zona Franca de Manaus, capitaneando a implantação do Pólo Industrial de Manaus, com base em políticas de isenção fiscal como forma de atração de empresas nacionais e estrangeiras. É importante questionar que o modelo de industrialização que se instalou, necessitava das demandas de design, tal qual elas se configuraram no final da década de 1980, questão esta que necessita ainda ser investigada. Tal como a ESDI o ensino do design que se instaurou no Amazonas não parece ter incorporado “(...) a síntese das concepções artísticas contemporâneas com os elementos da tradição” (Niemeyer, 1998 p. 117) e dos saberes amazônicos, neste sentido, uma pergunta: Qual o papel do design no conjunto da sociedade amazonense? No entanto, entende-se que um ensaio desta natureza não possui instrumental adequado para fornecer as respostas a esta questão, que requer desdobramentos e reflexões posteriores mais detidas, inclusive no que concerne ao exame das fontes primárias de investigação.

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Ensino do Design no Amazonas: modernidade ou modernização? fue publicado de la página 240 a página245 en Actas de Diseño Nº10

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