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Fotografiks

Bertão, Re-nato

Fotografia e Design Gráfico

Actas de Diseño Nº1

Actas de Diseño Nº1

ISSN: 1850-2032

I Encuentro Latinoamericano de Diseño "Diseño en Palermo" Comunicaciones Académicas, Agosto 2006, Buenos Aires, Argentina

Año I, Vol. 1, Agosto 2006, Buenos Aires, Argentina. | 265 páginas

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Introdução

David Carson é hoje o designer gráfico com mais projeção no mercado de comunicação visual e a referência emtermos de linguagem gráfica contemporânea. No final da década de 90 publicou o livro Fotografiks que apresenta suas imagens fotográficas ao lado de texto analítico de Meggs.

Este trabalho foi motivado pela citação do clássico texto de Flusser, Ensaio sobre a fotografia: Para uma filosofia da técnica, que aparece na parte final do livro: O caráter mágico das imagens é essencial para a compreensão de suas mensagens. As imagens são códigos que traduzem eventos e situações, processos em cenas.

Não que as imagens eternalizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder mágico, inerente à estruturação plana da imagem, domina a dialética interna da imagem, própria de todas as mediações, e que nela se manifesta de forma incomparável. (Flusser, 1998, p. 28).

Partindo desse link, o que se pretende nas próximas páginas é apresentar outras relações possíveis entre a produção fotográfica de Carson e os conceitos da imagem propostos por Flusser.

Vilém Flusser e a fotografia Na obra Ensaio sobre a fotografia (1998), os dois capítulos iniciais apresentam uma série de reflexões sobre a imagem. Flusser distingue a imagem em função do seu modo de produção e foca sua análise no que ele chama de imagens técnicas, aquelas produzidas por aparelhos.

Imagens fotográficas, obtidas por aparelhos, são de fato o seu objeto de estudo. Quando da elaboração deste livro os recursos do universo digital ainda engatinhavam e por isso sua análise se baseia em imagens de natureza analógica.

Para Flusser, imagens são representações em uma superfície bidimensional. Para que isso aconteça é necessário que haja uma capacidade de abstração/síntese da informação. Para a reconstrução da imagem, plena de informação, é necessário àquele que a visualiza fazer uso da imaginação. Para o autor, imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens. A imagem, enquanto espaço interpretativo, articula-se por meio do código, mediação e representação.

Imagem técnica, segundo Flusser, é uma abstração mais elaborada, porém ela tem uma capacidade de reconstituição que a torna mais verossímil, mais representativa, mais objetiva. Isso faz com que elas não necessitem ser decifradas, pois “o significado se imprime de forma automática sobre a superfície” e se apresentam “como impressões digitais” (1998).

O autor ainda considera que o caráter objetivo, não simbólico “das imagens técnicas faz com que o observador as olhe como se fossem janelas, e não imagens” (1998).

Contudo, mais adiante no seu texto, Flusser aparentemente se contradiz ao afirmar que a objetividade das imagens técnicas é ilusória. Ele afirma que “o que vemos ao contemplar as imagens técnicas não é “o mundo”, mas determinados conceitos relativos ao mundo, a despeito da automaticidade da impressão do mundo sobre a superfície da imagem” (1998).

Em poucas palavras, para Flusser as imagens técnicas, longe de serem janelas, são imagens acima de tudo, independentemente da maneira como foram produzidas.

Design gráfico e fotografia As imagens fotográficas, desde seu aparecimento, têm tido um papel relevante no registro do mundo visível e histórico. É notório que elas alteram a percepção do homem em relação ao espaço que o cerca e também a si mesmo.

Meggs, no capítulo “Is photography art?” do livro Fotografiks (1999) apresenta um aspecto bastante interessante em relação aos desvios proporcionados pela fotografia. Ele afirma que a imagem fotográfica precisa e documental foi, ao longo do tempo, deixando de lado o real e procurou cada vez mais apresentar o ideal.

Segundo ele, a publicidade foi a motriz dessa mudança de foco, onde o ordinário deu lugar ao cânone.

Contemporaneamente, no universo da imagem manipulada digitalmente não há mais dúvidas: A fotografia pode ser um instrumento de alteração da identidade e da realidade. Meggs, numa postura um tanto romântica em relação à imagem fotográfica, se posiciona: O antídoto para a poluição fotográfica do ambiente e para a distorção da nossa compreensão do mundo é a integridade da visão. Uma câmera é mais que um depósito de luz utilizado por uma pessoa sensível. Portar uma câmera pronta para disparar altera a vida, a experiência e a reação ao mundo. Cada olhar, cada canto é uma possibilidade. O portador da câmera, profissional ou amador, olha vigilantemente o mundo. Essa persistência da visão encontra encantamento, conhecimento e poesia no mundo. (1999, p. 7) O design gráfico, em muitos momentos, atua em parceria com a publicidade. Enquanto o publicitário cria estratégia e soluções para veicular idéias e produtos, cabe ao designer gráfico trazer à tona a visualidade associada a eles. O design, assim como a publicidade colabora para a que a imagem fotográfica, enquanto espaço interpretativo (Flusser, 1998) apresente novos códigos.

O design tem na fotografia um potente recurso de expressão, além dos sinais gráficos, letras e números. O designer, ao elaborar uma mensagem visual articula texto e imagem em uma superfície material ou virtual.

A fotografia - enquanto recurso comunicativo inserido num contexto - atua de modo conjugado com os demais elementos. Para a efetiva compreensão da mensagem visual é necessário que ela esteja integrada graficamente.

Aos olhos do designer, diferentemente do fotógrafo, a imagem fotográfica é objeto de comunicação passível de edição e manipulação.

O design contemporâneo caracteriza-se pela ruptura, pela experimentação e pela incorporação das ferramentas digitais. Para Meggs, isso flexibiliza os limites de atuação do design e permite o “questionamento da sintaxe tradicional da comunicação visual”, transformando “o design em algo mais expressivo e menos dogmático” (1999). Nessa nova lógica de produção da mensagem visual, a fotografia hoje é um elemento fundamental em função da sua facilidade de obtenção e manipulação.

David Carson e a fotografia Não é da profissão do designer fotografar. O profissional do design é um gerente do espaço gráfico que articula conhecimentos técnicos e estéticos de modo a criarmensagens visuais eficientes para o mercado de comunicação visual.

Carson é um designer que também fotografa e sua produção naturalmente está impregnada de um ponto de vista do design. Ele é um fotógrafo amador que usa uma câmera automática de 35mm e serviços de revelação em uma hora. Meggs ressalta que os amadores sempre trazem a tona pensamentos inovadores, pois eles não têm noção do seja a “verdade”. Para reforçar sua tese também cita o fotógrafo Edward Weston, numa declaração de 1932: “O homem é o atual meio de expressão e não o instrumento que ele escolhe para usar como meio”1.

Carson, segundo Meggs, usa a fotografia como instrumento para estender e documentar sua experiência perceptiva. Transforma a experiência pessoal efêmera em um registro público. Meggs afirma que os objetos e ambientes colecionam evidências e que o fotógrafo, com sua visão, reconhece e documenta esse fenômeno. Para ele, a fotografia é vista primeiramente como a matéria retratada, porém possui uma presença secundária como uma superfície bidimensional contendo padrões de tons e cores. Quando vistos desse modo os atributos visuais de cor e espaço tornam-se um nível adicional de experiência perceptiva e uma potente expressão não pictórica.

Esta presença secundária é o que separa as obras de arte das fotos instantâneas (snapshots). (1999, p. 16) Esta definição auxilia na compreensão da produção fotográfica de Carson. Grande parte das suas imagens apresenta somente texturas, superfícies, composições, cores. São experiências perceptivas documentadas num contínuo processo de exploração do mundo. Meggs afirma que para Carson a fotografia é um material bruto e vulnerável aos recursos usados pelos designers gráficos: Reenquadramento, recorte, justaposição, sobreposição, fusão, escalonamento etc. Close-ups e fotografias fora de foco também fazem parte do repertório de imagens de Carson. Segundo Meggs, elas permitem o isolamento de um atributo e com isso obrigam o olho a ver a cor e a massa como um todo e não o detalhe. Ele ainda afirma que fotografias com um baixo nível de informação deixam mais evidente o caráter visual da imagem. A cor, a forma e o espaço vêm à frente enquanto o conteúdo recua.

Para Meggs, as fotografias de Carson são apresentadas como experiências a serem compartilhadas, fotografias como veículo de encontro e confronto. “O primeiro encontro acontece quando o fotógrafo, armado com a câmera, confronta o mundo e decide fotografar o instante. A fotografia então se torna uma experiência arquivada, aguardando novos encontros com novos espectadores.

Cada um traz um novo ponto de vista para a imagem, baseado na sua experiência pessoal” (1999).

Fotografiks O livro Fotografiks tem dois subtítulos: “Equilíbrio entre fotografia e design por meio da expressão gráfica que emana do conteúdo” e “Fotografia com uma atitude de design gráfico”. Eles são literalmente legendas do livro.

Todo o universo imagético apresentado nas suas páginas está voltado para a relação entre fotografia e design. Em relação ao título, apesar do neologismo, o termo Fotografiks é bastante adequado pois permite por si só uma percepção imediata da relação da fotografia com o design gráfico.

O livro é um impresso de qualidade e que impressiona logo a primeira vista. São 185 imagens coloridas que abrangem desde a expressão vernacular - tal como o grafitti - a registros particulares do “processo” de viagem seja pelo mundo ou a caminho do trabalho. Todas as imagens de Carson estão associadas a um comentário de Meggs que não procura traduzí-las, mas sim analisálas do ponto de vista do design. A publicação tem um formato mais horizontal que vertical, o que de certa remete ao formato das cópias fotográficas.

O estilo Carson de fazer design está em todas as páginas.

A editoração do conteúdo utiliza uma linguagem gráfica bastante contemporânea -difundida principalmente por Carson- onde a fragmentação do espaço gráfico é evidente. Isso fica claro na des-organização dos elementos, na subversão do tipo e da imagem. Por mais incoerente que possa ser, apesar de tanta ruptura em termos de linguagem gráfica, o projeto de design respeita as imagens e permite uma leitura fluida.

Fotografiks: Flusser & Meggs As imagens de Carson são técnicas. Os índices de sua natureza estão evidentes e muitas vezes a limitação do aparelho ou do funcionário colabora para construir a mensagem. Ele parece não querer desvendar a caixa preta, parece sim querer ser surpreendido por ela a partir das suas experimentações com o aparelho.

A relação entre a produção fotográfica de Carson e o pensamento de Flusser -como apontado no livro Fotografiks, inicia-se a partir da afirmação do pensador de que as imagens possuem um caráter mágico, essencial para que sua mensagem seja compreendida. Carson, ao fotografar o “processo” do próprio olhar, ao desvelar imagens cotidianas, de certa forma potencializa a compreensão da imagem. Porém ele faz isso no sentido inverso: O mundo não é abstraído ou sintetizado. É simplesmente apresentado no ritmo do olhar.

O discurso de Flusser que vê a imagem como uma representação abstraída do mundo é de certa forma ilustrado nas fotografias de Carson. Em algumas fotografias de Fotografiks fica bastante evidente essa relação abstração & representação. A leitura das imagens de Carson exige mais imaginação do que uma fotografia dita tradicional. Nesse sentido suas imagens técnicas (fotografias) estão muito relacionadas àquelas imagens “pré-técnicas” (desenhos) apresentadas por Flusser.

Uma relação interessante a ser feita ainda é que muitas fotografias de Carson são feitas a partir de visões de janelas de carros, aviões e trens. Isso evidencia o registro de um “processo” de viagem - como afirma Meggs - mas também relaciona a produção fotográfica de Carson com o pensamento de Flusser ao deixar nas bordas da fotografia resquícios das janelas, visões do mundo.

A falta de nitidez e lógica compositiva das imagens técnicas apresentadas por Fotografiks pode realmente passar uma impressão de amadorismo. Contudo, é exatamente esse “descaso” que permite à nossa imaginação visualizar os atributos básicos (cor e forma) que também constituem a informação. Para o design gráfico, cuja função é articular visualmente a informação, Carson poderia até ser considerado um purista ao trabalhar com elementos tão fundamentais.

Uma última questão: Meggs observa que Carson com suas imagens técnicas propicia a experiência do encontro e do confronto. Esse processo de captura e leitura da imagem é bastante próximo daquele apresentado por Flusser que envolve a abstração como processo representativo e a imaginação como processo de decodificação sujeito a visões de mundo.

Conclusão O design gráfico, em muitas situações, depende da fotografia para se viabilizar. Na contemporaneidade onde a hibridação é o norte, analisar alternativas de relacionamento entre essas duas áreas é algo bastante saudável.

Talvez sejam ainda raras as experimentações da natureza de Fotografiks, porém há que cada vez mais se procurar articular novos caminhos. David Carson, é um modelo bastante apropriado para uma discussão dessa natureza dada a sua verve experimental. O que vale nesse caso é a sua atitude em relação à imagem fotográfica que coloca em xeque vários paradigmas tanto do design gráfico quanto da fotografia. Flusser e Meggs são base sólida para uma possível compreensão do que Carson apresenta em Fotografiks.

Notas 1. BUNNELL, P. Edward Weston on Photography. Salt Lake City: 1983. p.68

Referências bibliográficas CARSON, D. & MEGGS, P. B. Fotografiks. London: Laurence King Publishing, 1999.

FLUSSER, V. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1998.

MEGGS, P. B. A History of Graphic Design. New York: Van Nostrand Reinhold, 1992.


Fotografiks fue publicado de la página 62 a página65 en Actas de Diseño Nº1

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