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A voz da Capoeira: design social aplicada em jornal comunitário

Cazzoni Gonçalves, Manoela; Pereira de Andrade, Ana Beatriz

Actas de Diseño Nº21

Actas de Diseño Nº21

ISSN: 1850-2032

XI Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” VII Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño Julio 2016, Buenos Aires, Argentina

Año XI, Vol. 21, Julio 2016, Buenos Aires, Argentina | 258 páginas

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Resumen:

La investigación trata del proceso y de los resultados del periódico comunitário A Voz da Capoeira. El proyecto ha sido elaborado junto con el Centro Cultural Casa da Capoeira, ubicado en la ciudad de Bauru, interior del estado de São Paulo. Se optó por los principios del Diseño Social, considerando como interlocutores: fundador, profesores y alumnos.

Hasta el presente momento, ya se hicieron dos ediciones, y la tercera está en fase de producción. Esto ya permite alguna evaluación de resultados.

El grupo social estuvo involucrado en todas las etapas del proceso e indicaron la opción metodológica de mapeo para describir el proyecto, enfatizando un intento por relacionar el diseño y la emoción.

Palabras clave:

Diseño Social - Comunidad de Prensa - Diseño - Diseño Gráfico - Editorial - Capoeira - Periódico.

1. Introdução

Sabe-se que a sociedade brasileira vive em grande desigualdade social. Percebe-se que pouco ou nada é feito para aqueles que precisam de melhorias em termos de qualidade de vida, tanto acerca de aspectos sociais e culturais, quanto os que possibilitem crescimento pessoal, desenvolvimento de senso crítico e educação.

O geógrafo Milton Santos afirma:

Tanto os pobres como aqueles que são o objeto da dívida social, os quais já foram incluídos e, depois, marginalizados, acabam por ser o que hoje são, isto é, os excluídos. (...) Agora estamos diante da pobreza nacional e da dívida social nacional da ordem internacional.

Elas aparecem como se fossem algo fixo, imutável, indeclinável, quando, como qualquer outra ordem, pode ser substituída por uma ordem mais humana. (Santos, 1999)

Pode-se dizer que o Design, sobretudo o Gráfico, nem sempre tem seu valor reconhecido. Porém, acredita-se que aliando essa área com o social, é possível promover mudanças, atuando em conjunto com uma esfera social marginalizada pela sociedade.

A designer e professora Heliana Pacheco define que: “o Design Social ligou-se às minorias para contornar os limites comerciais que a indústria impunha ao exercício do projeto. (...) O Design Social, na verdade, tem uma relação de trabalho onde o designer trabalha com alguém e não para alguém”. (Pacheco, 1996) Assim, um projeto em Design Gráfico, quando conceituado, fundamentado, executado e aplicado junto com interlocutores torna-se uma ferramenta útil para contestação, reflexão, conscientização e instrumento para possíveis modificações sociais, culturais e econômicas.

Portanto, considera-se importante conciliar o Design Gráfico aos projetos sociais.

No caso das mídias impressas e digitais, acredita-se que seja possível projetar maneiras de interlocução a partir de questões que tenham como finalidade a contribuição em estratégias sociais. Toma-se, por exemplo, peças elaboradas por Organizações Não Governamentais (ONGs), instituições com foco social e, até mesmo indivíduos, que possam ter por objetivo colocar em cena o que possa ser posto em prática.

O que pode advir desta forma de projetar, também é o aspecto da sustentabilidade.

Em 1977, Viktor Papanek já questionava o exercício da profissão do designer, buscando chamar este profissional à responsabilidade ambiental, devido aos impactos ecológicos resultantes da produção industrial.

Segundo Brian Dougherty: “ideias relacionadas à sustentabilidade estão no processo de transformar o modo como os negócios e outras organizações operam e comunicam”. (Dougherty, 2011).

Após estas considerações iniciais, seguindo os princípios do Design Social, fez-se necessária a busca de um grupo social real. No primeiro momento, tratou-se de identificação das possibilidades de aplicações práticas dos conceitos até então pesquisados.

2. Em busca de um grupo social: o início do 

caminhar

Encontrou-se, inicialmente, a ONG Periferia Legal. A ONG Periferia Legal tem como uma das ênfases de ações a sustentabilidade. Um dos objetivos da ONG é resgatar das casas o lixo doméstico e transformá-lo em adubo e biogás com o uso de um biodigestor. Uma estratégia gráfica, a partir dos conceitos do Design Social, conceituada, desenvolvida e aplicada às necessidades da comunidade poderia resultar em uma ação eficaz. A ONG tem também como outros objetivos: a geração de renda, conscientização ambiental, economia solidária e estruturação das famílias da comunidade na qual está inserida.

Um jornal, com identidade visual e projeto gráfico reconhecido pelos envolvidos, seria uma das maneiras de fortalecer e ampliar práticas comunitárias. Ressalta-se que a questão foi identificada a partir de um desejo existente na comunidade. A saber: a do fazer de um jornal comunitário, e de forma comunitária.

Muniz Sodré confirma que:

A violência está maior nos grupos onde a comunidade é forte, cheia de si. Por isso é complicado abordar a comunidade, compreendê-la como lugar de vínculos.

Portanto a mídia trata a externalidade dessa vinculação, que é a relação. E está tratando de uma forma cada vez mais externa. Hoje, na internet, por exemplo, nunca as pessoas estiveram tão conectadas, tão ligadas, mas não vinculadas. (Sodré, 2001)

A opção pelo jornal impresso, inicialmente, deu-se pelo fato de que o público ao qual se destinaria nem sempre possui computador com acesso à internet que possibilitem a comunicação com o uso de meios digitais e virtuais.

E, seguindo o proferido por Muniz Sodré, pretende-se fortalecer os vínculos.

Verificou-se que, na situação em foco, o comumente usado para distribuir informações são jornais, panfletos, cartazes, dentre outras peças elaboradas conforme a competência do designer gráfico e seu envolvimento com a comunidade.

Fez-se necessário estudar meios de projetar possibilidades de identidade visual e projeto gráfico adequados aos propósitos da ONG e da comunidade, considerando os objetivos da própria ONG.

Portanto, em paralelo às reflexões teóricas, estariam sendo desenvolvidos experimentos que resultassem em projeto gráfico para execução prática do jornal comunitário denominado A Voz da Periferia Legal.

Cabe ressaltar que a pesquisa tem por princípio caráter teórico-prático com abordagem multidisciplinar.

Edgar Morin observa que:

O ensino por disciplina, fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar.

E é essa capacidade que deve ser estimulada e desenvolvida pelo ensino, a de ligar as partes ao todo e o todo às partes (Morin, 2001).

A Multidisciplinaridade fez-se presente no campo teórico, devido à diversidade de referencial necessário, e na prática devido ao fato de que o resultado prático pretendido foi desenvolvido em conjunto com pesquisadoresalunos de Jornalismo da mesma Unidade da IES.

Ellen Lupton nos lembra: “publicar envolve tanto produzir quanto distribuir trabalho. Primeiro você tem de apresentar seu conteúdo de uma forma física que as pessoas o encontrem” (Lupton, 2008).

A impressão de jornais e projetos gráficos gera custos e infelizmente nem sempre é possível arcar com eles, além da busca incansável por patrocinadores e apoio. Então, considerou-se a possibilidade de que o resultado fosse também apresentado em forma digital para ser acessados online, e disponibilizado em redes sociais.

Foram feitos diversos estudos de identidade visual e gráfica, levantamento teórico de editoração e de design de layouts para impressão, a fim de alcançar qualidade em resultados.

João Guizzo enfatiza que:

Editar bem é cuidar para que o livro apresente um texto redigido de acordo com o público que pretende atingir e tenha também uma visualização gráfica adequada a esse público. Isso por vezes envolve um trabalho exaustivo de redação e preparação de texto, além de cuidadoso estudo de tipo e tamanho de letra, ilustrações, cores, capa etc. (Guizzo, 1985).

No entanto, após todo o desenvolvimento deste processo, não houve o retorno esperado por parte da ONG. Uma decepção! Pois, não foi somente a ausência de respostas quanto a correções de informações, mas também o não envolvimento da comunidade para viabilizar o produto.

Percebeu-se que a ONG vinculou-se a política partidária e distanciou-se da comunidade. Os informes de atividades são feitos via redes sociais. Assim, a proposta do jornal impresso A Voz da Periferia Legal perdeu todo o sentido.

Porém, o envolvimento com a pesquisa se manteve. E, cabe aqui este relato do início do caminhar, teórico e prático, pela opção metodológica do Design Social e da cartografia.

Buscou-se então outro grupo social que permitisse a interlocução. Encontrou-se a Casa da Capoeira e seu fundador Alberto Pereira. Em um curto espaço de tempo, a integração foi intensa e completa. Em conformidade com os princípios estabelecidos para a pesquisa, e junto com o grupo, já foram impressas duas edições do jornal comunitário nomeado A Voz da Capoeira.

Neste artigo, coloca-se em cena o histórico da Casa da Capoeira, com prática específica da Capoeira Regional.

Em seguida, apresenta-se o interlocutor e o processo de produção da primeira edição contemplando a multidisciplinaridade e o envolvimento do grupo social. As opções metodológicas, além de teoricamente abordadas, faz-se presente na estrutura do texto.

As considerações finais incluem desafios vividos, resultados e desdobramentos em processo e possibilidades futuras.

3. Casa da Capoeira: gênese historiográfica

Em Bauru o ápice da capoeira ocorre em 1998, com alguns grupos com grande quantidade de praticantes, projetos sociais em andamento nas cidades da região dinamizados pelos vários grupos e com apoio das municipalidades e grandes eventos de graduação e batizados.

Ao lado cresce também a rivalidade, cada grupo desejando ser o melhor, repercutindo no “mundo capoeira” o mesmo movimento que ocorre nessa sociedade competitiva.

A competição é característica intrínseca dos jogos, Capoeira inclusive. Contudo esta arte-luta se funda em outras intenções que não o esporte, inclusive em face das motivações que lhe deram origem: a luta contra a escravidão, discriminação e preconceito.

Depois do “boom”, a depressão com várias causas. E as crises exigem soluções. Nesse contexto, alguns capoeiras oriundos de um mesmo grupo perceberam uma ampliação do segmento da Capoeira Angola, com um viés “fundamentalista” nos seu discurso, onde afirmavam “Capoeira só Angola” ou “Mestre Bimba traiu a Capoeira”.

Importantíssima a Capoeira Angola, no sentido de desejar suceder a capoeira primitiva e firmar pé na tradição, e o quanto esse aspecto é importante para as manifestações populares. Contudo, esse “fundamentalismo” aliado ao desconhecimento do que é de fato a Capoeira Regional, a percepção de que suas inovações ocorreram dentro da tradição e, especialmente que historicamente, não fosse o Mestre Bimba e a sua Capoeira Regional essa manifestação cultural e arte-luta teria morrido.

Conforme Luiz Renato Vieira e Matthias Röhrig Assunção: “a integração de elementos do batuque na capoeira Regional pelo mestre Bimba pode ser vista não como a ‘primeira alteração’ da capoeira, mas como a última antes da sua definitiva formalização e institucionalização” (Vieira E Assunção, 1998).

A crise tornou-se oportunidade.

No período das “vacas gordas” houve a tentativa de organizar uma Liga Esportiva Regional da Capoeira. Intenção inviabilizada pelas circunstâncias e competição entre as várias agremiações e mestres, e em especial pela cultura própria do meio.

A redução do número de praticantes e a crise tornaram-se argumento para a união e a unidade daqueles que diziam praticar a Capoeira Regional, através de uma organização institucionalizada que pudesse dinamizar projetos, cursos, intercâmbios, dentre outras iniciativas. A intenção era a de propiciar e disseminar a prática e aprofundar a formação cultural e técnica. Uma espécie de buscar “beber água da fonte”.

Em paralelo, as privatizações e fusões de bancos e reorganização do sistema financeiro resultaram na demissão do Prof. Alberto Pereira, que já tinha um terreno próprio.

Com a indenização trabalhista aplicou o valor necessário para a construção do prédio da Casa da Capoeira.

Tendo então os motivos e a possibilidade, iniciou a construção do prédio.

3.1. As relações com a comunidade bauruense

Iniciada a construção, o grupo foi convidado a participar de uma reunião da Associação de Moradores da Vila Engler, na residência da sua presidente.

No entanto, Mas a intenção daqueles que lá estavam era de fazê-los desistir, sob a argumentação de que o bairro era “exclusivamente residencial” e a de que não iriam permitir a construção de um barracão.

Ao final veio a fala: “olha, você pode até erguer o seu ‘barracão’ e instalar lá a sua escola de capoeira. Mas se isso acontecer, nós vamos transformar a sua vida num inferno” (Palavras de Alberto Pereira).

O preconceito contra a arte-luta nunca tinha se apresentado com cores tão fortes assim. Longe de causar desânimo, aumentou ainda mais a vontade.

Enquanto a construção subia, os que alimentavam o sonho da Casa da Capoeira de Bauru treinavam as técnicas coletivamente, três vezes por semana na garagem das casas. E articulavam a forma de construir a instituição.

Construção quase pronta, julho de 2006, foi convocada a Assembleia de Fundação para o 1º de agosto, que contou com a presença de mais dois grupos de capoeira, além dos mentores da Casa.

Uma confusão mental, entre o que era a construção física e o que era a instituição se estabeleceu, mas não ficou clara desde o início. A forma “clássica” de organização dos capoeiras em grupo tem o seu peso cultural sobre o significado de “associação”, “clube” ou quaisquer outros signos que denominem formas de organização do coletivo.

Mesmo assim tiveram o estatuto aprovado e a direção da Casa foi eleita, contemplando os três grupos presentes.

Contudo, na hora de levantar os dados civis dos membros da direção, números e cópias de documentos e toda essa burocracia necessária para o registro do estatuto e outras formalidades, criaram-se dificuldades: pessoas não encontradas, recados não dados, ligações não atendidas, dentre outras.

Essas dificuldades deixaram claro que a malandragem dos capoeiras se apresentou. Outros mestres não desejavam de fato ver uma fundação privada se apresentando como a voz da capoeira na cidade, de ter uma entidade institucional e formalmente organizada a falar em nome de todos. Não desejavam, mas não falavam abertamente desta forma.

Com o espaço pronto, inauguração, abertura de inscrições para as aulas e, junto dos os novos alunos nova assembleia e nova votação de diretoria, a Casa apresentou-se com plenas possibilidades de registro e demais providências.

Passaram-se dois anos e em 2009 tomou posse Rodrigo Agostinho, prefeito eleito de Bauru, e foi indicada para a Secretaria de Educação Majô Jandreice. A Lei 10639/2003, que incluía a história da África e a cultura afrodescendente no currículo das escolas de ensino fundamental e médio era letra morta.

A Casa da Capoeira apresentou à Secretaria Municipal de Educação projeto de ensino da capoeira como núcleo central de dar cumprimento à Lei para dezesseis escolas de ensino fundamental, mais de 12 mil alunos em potencial.

Os docentes da Casa não podiam dar conta dessa tarefa sozinhos. Era necessário agregar outros grupos. Mas pelos próprios objetivos da escola, não poderia simplesmente levar a capoeira das academias para a escola, mas construir a capoeira da escola.

Rusgas e diferenças impediram a implementação do projeto piloto em três escolas, inviabilizando o projeto de conjunto, pela falta de docentes que ao lado da Capoeira compreendessem também o papel da Escola como instituição.

Outro projeto foi encaminhado junto ao poder público municipal: nomeação de praça pública de Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba 1899-1974 - criador da capoeira regional).

Houve mobilização da comunidade local, levantamento dos interesses e construção do projeto com o apoio de capoeirista e estudante de arquitetura, cujo projeto tornouse seu trabalho de formatura. Foi doado à municipalidade e a praça construída. Percebeu-se que ao longo do tempo, a comunidade do entorno modificou o pensamento em relação ao que era anteriormente considerado um barracão.

E, atualmente, é a principal aliada da Casa.

Logo no início da pesquisa, um dos pontos importantes foi o reconhecimento da importância do Design na marca Casa da Capoeira. A marca foi projetada em 2010 por alunos do Curso de Design da UNESP, com orientação voltada para o Design Social. Ainda, segundo os autores da marca, o projeto foi desenvolvido de forma multidisciplinar, contando com a integração de habilidades desenvolvidas em disciplinas diversas. E, foi aferido o impacto de um resultado em Design relacionado à identidade visual.

As batalhas continuam. E, os objetivos permanecem vivos, sejam: ampliar a disseminação da prática da Capoeira dentro do fundamento, respeitando a memória, história e tradições, sem “fundamentalismo”. Compreende-se a Capoeira como uma grande brincadeira com muita seriedade, onde a roda de capoeira imita a vida e ensina a viver.

3.2. Alberto Pereira: a cara da capoeira em Bauru

O principal interlocutor da pesquisa, fundador da Casa da Capoeira, é Alberto de Carvalho Pereira Sobrinho de 48 anos. Sua personalidade, altivez e bom caráter foram capazes de construir a Casa da Capoeira.

Na cidade, um local com características arquitetônicas contemporâneas e coerentes com a proposta da prática da Capoeira. No centro do salão, o chão com formato circular. Espaço para aprendizado e estudo.

Quando bancário, Alberto Pereira vivia sem percalços na estrutura de um banco. Com a privatização do mesmo, fez acordo e edificou um sonho.

Investiu tudo o que recebeu em termos financeiros, algo somente possível para idealistas e pessoas movidas pela emoção e pelo afeto. Alberto Pereira afirma não buscar ganhos financeiros com a Casa da Capoeira. Busca a felicidade, o exercício de fazer o que gosta no cotidiano.

O espaço da Casa da Capoeira é simples. Um local de congraçamento coletivo. E, diariamente passa ali a maior parte do seu tempo. Vê-lo rodeado dos alunos, jogando Capoeira, na praça por cuja construção batalhou, batizada de Mestre Bimba, é um dos momentos que expressa realização de objetivos e de felicidade.

Alberto parece ser uma pessoa realizada, mas em constante busca. Afirma que os percalços ocorrem a todo instante, mas nada que o faça esmorecer. Trata igualmente o filho do industrial e o menino de rua, os que espiam suas aulas através das janelas e podem ser convidados a participar.

Sofre pela perda de valiosos garotos, bem formados nos princípios da Capoeira, se afastando por alguma influência religiosa. São orientados a compreenderem o batuque e uma possível relação com religiões afro-brasileiras elos de diabólicas influências. Alberto não é de reclamar. É dos que vão à luta! Visível a percepção de que o Poder Público poderia contribuir de forma mais efetiva. Inclusive, em momentos que o país recebe eventos esportivos mundiais. No entanto, segue fazendo de sua vida uma bela lição de dedicação e apreço a um ideal. É a Capoeira na cidade de Bauru.

3.3. Extra, extra! A Voz da Capoeira primeira 

edição

“Encontrar e achar, é capturar, é roubar, mas não há método para achar” (Deleuze e Parnet, 2007).

Tendo encontrado o grupo social, espaço, interlocutores, e verificado o interesse de projetar junto com, deu vida ao início do processo do jornal A Voz da Capoeira.

“E assim o que, em princípio, buscava ser uma antologia de textos transformou-se num exercício artesão de cartografia” (Martin-Barbero, 2004).

O cartógrafo tem por tarefa dar língua aos afetos que pedem passagem, mergulhar nas intensidades e estar atento as linguagens que encontra. A prática diz respeito, fundamentalmente, as estratégias das formações do desejo no campo social.

Como nos ensina Suely Rolnik: “Por isso o cartógrafo serve-se de fontes as mais variadas, incluindo fontes não só escritas e nem só teóricas” (Rolnik, 1989).

Assim, houve vivências intensas nas atividades da Casa da Capoeira. Grande parte dos alunos e docentes integrouse ao desenvolvimento da primeira edição.

Definiu-se como pauta: esclarecer questões acerca da Capoeira Regional, apresentar a filosofia da Casa a partir da trajetória do Alberto, e descrever uma das atividades desenvolvida com crianças.

A primeira edição do jornal foi impressa em policromia, formato tabloide. O projeto gráfico-editorial teve previsão para espaço de patrocinadores, o que viabilizou a produção. A tiragem inicial foi de 5000 exemplares, e a distribuição tem sido coletiva em vários pontos da cidade, incluindo eventos públicos.

4. Conclusão

Projetar em Design Social e com cartografia implica em desafios. Porém, a entrega à pesquisa, dentre outros princípios compreendidos com a prática destes dois princípios metodológicos, leva a aberturas de pensamentos e reflexões possíveis e permitidas em cada momento.

É fato que os alunos jogam a capoeira com paixão e entusiasmo. A maioria dos frequentadores é composta por homens e meninos. E, mesmo a presença de mulheres ser minoritária, não foi notada nenhuma atitude diferenciada quanto a elas, além de alguma timidez. Por exemplo, quando tem apenas uma menina entre outros quinze rapazes.

Despertou curiosidade, ainda não resolvida, saber o que essas mulheres pensam ou como elas se sentem em relação a isso e como lidam com a timidez de serem, às vezes, a única do grupo. É intimidador? É desafiador? É acanhador? É divertido? Faz diferença ter mais mulheres ou mais homens na roda? Tanto faz? Tudo isto ainda em processo de busca de respostas.

A Casa da Capoeira é um coletivo, por isto é imprescindível vivenciar, trocar e ouvir o que todos têm a dizer.

Considerando fundamental a relação com o mundo da Capoeira, sendo esse um universo que acontece dentro da roda. Como a Capoeira estabelece relações entre este as macro e micropolíticas? Mais uma questão que se apresenta.

Como a pesquisa está em movimento, ainda não foi possível esclarecer e abordar todas as questões que se apresentam.

Até o presente momento, com a primeira edição de A Voz da Capoeira, e estando em fase inicial da segunda edição, foi possível verificar o alcançar de alguns dos objetivos relacionados à visibilidade desejada pelos interlocutores.

O processo ainda é longo. Até porque em sendo a Casa uma referência na cidade de Bauru quando se trata de Capoeira Regional e sua aplicabilidade no cotidiano, subentende-se como um dos objetivos tentar extinguir as rivalidades com a Capoeira Angola. É uma proposta árdua! Portanto, o jornal também tem este propósito quanto a valorizar a prática do jogo, esporte, luta, atitude. Pretendese apresentar a cada edição as atividades, pensamentos, reflexões e possibilidades que a Capoeira oferece para a vida e para a sociedade.

Claro que não há pretensão de achar que o jornal seja solução para tudo, mas acredita-se que já é um forte aliado para transmitir informação acerca da Capoeira, tão plena de cultura, informação e brasilidade.

Referências

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Bonsiepe, G. (2012). Design como prática de projeto. São Paulo: Edgard Blücher.

Deleuze, G. e Parnet, C. (2007). Dialogues. NY: Columbia University Press.

De Moraes, A. e Santa Rosa, J. G. (2012). Design Participativo. Rio de Janeiro: Riobooks.

Dougherty, B. (2011). Design Gráfico Sustentável. São Paulo: Rosari.

Lupton, E. (2008). A Produção de Um Livro Independente. São Paulo: Rosari.

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Matin-Barbero, J. (2004). Ofício de Cartógrafo. São Paulo: Ed. Loyola.

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Sodré, N. W. (1986). A História da Imprensa no Brasil. São Paulo: José Olympio Editora.

Sodré, M. (2001). Objeto da Comunicação é a Vinculação Social. Entrevista de Muniz Sodré de Araújo Cabral (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) a Desirée Rabelo (Universidade Metodista de São Paulo, Brasil). Disponível em: http://www2.

metodista.br/unesco/PCLA/revista9/entrevista%209-1.htm. Acesso em 16/04/2013.

Abstract:

The research deals with the process and outcome of the community newspaper A Voz da Capoeira. The project is being developed along with the Centro Cultural Casa da Capoeira, located in the city of Bauru, State of Sao Paulo. We chose the principles of Social Design, considering how interlocutors: founder, teachers and students. To date, two editions have been made and the third is in production. This already allows some evaluation results. The social group was involved at all stages of the process and indicated the methodological mapping option to describe the project, emphasizing an attempt to relate design and emotion.

Key words:

Social Design - Community Press - Design - Graphic Design - Editorial - Capoeira - Newspaper.

Resumo:

A pesquisa trata do processo e dos resultados do jornal comunitário A Voz da Capoeira. O projeto vem sendo elaborado junto com o Centro Cultural Casa da Capoeira, localizado na cidade de Bauru, interior do estado de São Paulo. Optou-se pelos princípios do Design Social, considerando como interlocutores: fundador, professores e alunos. Até a presente data, duas edições foram feitas e o terceiro está em produção. Isso já permite alguns resultados de avaliação. O grupo social foi envolvido em todas as fases do processo e indicaram a opção metodológica de mapeamento para descrever o projeto, enfatizando uma tentativa de relacionar design e emoção.

Palavras chave:

Design Social - Imprensa Comunitária - Design - Design Gráfico - Editorial - Capoeira - Jornal.

(*) Manoela Cazzoni Gonçalves

. Designer Gráfica - Universidade Estadual Paulista - FAAC/UNESP. Pesquisadora em Iniciação Científica de tema “Jornal Comunitário: Uma possibilidade de transformação social com a intervenção do design gráfico” Bolsa Reitoria UNESP. Membro voluntário do Projeto de Extensão Agência Propagação - agência experimental de publicidade e propaganda social - FAAC/ UNESP. Participou do XXVI Congresso de Iniciação Científica da UNESP e das edições do Interdesigners. Foi monitora da segunda edição do Evento de Publicidade e Propaganda UNESP, organizado pela Agência Propagação. Ana Beatriz Pereira de Andrade

. Doctora en Psicología Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Máster en Comunicación y Cultura - Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Licenciada en Comunicación Visual - Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Maestra en el Departamento de Diseño de la Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação de la Universidade Estadual Paulista - FAAC/UNESP.

Coordinador del Grupo de Investigación en Diseño Contemporáneo: sistemas, los objetos y la cultura (CNPq / UNESP ). Miembro del Conselho Editorial de Estudos em Design (Brasil), Actas de Diseño (Argentina) y de otros comités editoriales y revisión de revistas científicas y congresos en el ámbito del diseño. Miembro del Foro de Escuelas, Observatorio de Marcas, Red Latino Americana, Associacion de Emprendedores Creativos, del Comité de Posgrado, del Comité Científico del Congreso de Enseñanza en Diseño y del Comité de Honor Latinoamericano de Diseño. Representa FAAC/UNESP en Universidad de Palermo - Congreso y Encuentro Latinoamericano de Diseño y también en el Encuentro Latinoamericano de Moda. Miembro de Sociedade Brasileira de Design da Informação. Pesquisadora en Diseño Social y Comunitário, Fotografía, Tipografía, Metodología de Proyeto, Género y Diseño Grafico.


A voz da Capoeira: design social aplicada em jornal comunitário fue publicado de la página 204 a página208 en Actas de Diseño Nº21

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