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A cidade como objeto de estudo para o design: experiências de aulas de campo

do Nascimento, Maria Evany

Actas de Diseño Nº26

Actas de Diseño Nº26

ISSN: 1850-2032

XIV Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” X Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño

Año XIV, Vol. 26, Julio 2019, Buenos Aires, Argentina | 256 páginas

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Resumo: Este texto se propõe a apresentar a experiência de aula de campo realizada com alunos do curso de Design, da Faculdade Martha Falcão em Manaus-AM, em visitas ao Centro Histórico de Manaus, como parte do conteúdo da disciplina de Estética e História da Arte e Semiótica. Tais atividades cumpriam, além do conteúdo programático relacionado ao estudo dos estilos artísticos do final do século XIX e início do século XX, a influência de Paris na construção do espaço público e do gosto em Manaus, o estudo simbólico das obras artísticas e dos elementos que compõem a arquitetura que se preservou da época, bem como compreender as mudanças estéticas que se materializam no espaço urbano.

Palavras chave: Cidade - História da Arte - Design - Aulas de Campo - Semiótica.

[Resumos em espanhol e português e currículo em p. 118]

Introdução A cidade de Manaus, capital do Amazonas, traz em sua história mudanças urbanísticas relacionadas diretamente ao ciclo econômico da borracha (1890-1910), fenômeno que só ocorreu em algumas cidades da região norte do país. Esta economia pautada no extrativismo favoreceu a inserção de uma cultura inspirada na Europa, que se traduziu com a adoção de modelos europeus para a arquitetura, traçado urbano, e para o cotidiano de uma elite que vivia o “fausto da borracha” (Dias, 2007). Este período de maior arrecadação econômica do Estado reflete também o período de maior modificação no traçado urbano da cidade. Desta arquitetura e deste traçado boa parte se tem preservado como Centro Histórico, Centro Antigo e Sítio Histórico de Manaus, protegidos por leis municipais, estaduais e federais. Embora se constate que as leis não impedem a degradação dos casarões e as modificações que continuam sendo realizadas nos espaços públicos.

Com o declínio da economia da borracha, a realidade que se tinha começou a mudar e a cidade ficou mergulhada em outro tempo histórico. Para alguns historiadores é o momento da crise, pois os empresários que fizeram riqueza na cidade, passaram a abandoná-la; para outros, como o geógrafo José Aldemir de Oliveira (2003) é o momento de viver a cidade, o momento em que as pessoas que não participaram dos lucros da borracha, puderam participar dos espaços que esses lucros deixaram construídos. Essa fase é assinalada por Oliveira (2003) no período de 1920 a 1967.

A partir daí a cidade começou um novo momento econômico com a implantação da Zona Franca. A área de livre comércio que trouxe empresas de vários lugares do mundo transformando a cidade em um “pólo industrial”.

Neste período o Centro da cidade passou por transformações, muitos palacetes antigos cederam lugar a estacionamentos e prédios (Oliveira, 2011). É também o começo da implementação de políticas voltadas à preservação do patrimônio, constituído pela arquitetura e monumentos da Belle Époque.

No final dos anos 1990 e início de 2000, nova fase de projetos voltados à preservação do patrimônio arquitetônico e artístico desta época começou a ser executada no Centro Histórico. Desta vez, a preocupação foi ampliada ao traçado urbano e não apenas aos monumentos isolados.

Foi o momento da retomada do traçado das praças que se tinha no início do século XX e que foram remodeladas a partir da implantação da Zona Franca.

Caminhar pelas ruas e praças do Centro Histórico de Manaus é uma experiência rica em que é possível identificar a presença materializada desses vários tempos históricos, estilos arquitetônicos, estéticos e artísticos. Mais que uma viagem no tempo, é uma viagem na cidade como produto cultural de todas as transformações vivenciadas e implementadas pelo homem. Nesse aspecto, como produto, a cidade se abre como objeto de estudo para todas as áreas do conhecimento, especialmente o design.

A partir de um projeto já realizado com estudantes do Ensino Médio, foi possível traçar atividades que buscassem levar alunos de Design a conhecer mais a história da cidade a partir dos seus espaços públicos. E com esta experiência vivenciar outro tipo de aprendizado de história da arte e semiótica, a partir de uma vivência sinestésica, que oportunizasse o toque, a visão a partir de vários ângulos, a observação do entorno e da relação de outras pessoas com os objetos, as interferências sonoras e olfativas, a vida que pulsa nos espaços públicos e que as imagens não conseguem captar.

Inicialmente apenas como parte integrante das disciplinas de Estética e História da Arte e Semiótica, a visita ao Centro Histórico é uma atividade que pode ser explorada de forma interdisciplinar. Como aspectos mais técnicos do Design é possível observar o mobiliário urbano, a sinalização, a relação com os objetos, a ergonomia. E ainda ampliar para o conceito de Design Urbano, com o estudo da imagem da cidade a partir dos desenhos de seus espaços. Do ponto de vista da Semiótica, analisam-se os aspectos simbólicos das obras e sua condição de ícones, índices e símbolos. Também a parte do material das obras, seus aspectos de objetos físicos, cores, marcas, etc.

Um olhar antropológico poderia identificar mais detalhadamente a relação das pessoas com o espaço, como os espaços e objetos influenciam no comportamento das pessoas. Que grupos frequentam estes mesmos espaços, como um mesmo logradouro pode abrigar grupos distintos e quais os horários de maior concentração. Observar que tipo de público frequenta e como utiliza o espaço é importante para pensar melhorias para a cidade.

Para a Geografia Humana a atenção ficaria no estudo da relação cotidiana das pessoas com o espaço, sua rotina de uso. Para a História poderia ser citado o espaço como materialização de tempos históricos. Que já foi mencionado anteriormente. É possível perceber em uma mesma praça construções e monumentos de tempos distintos. Para a História da Arte, o detalhamento dos estilos, significado histórico e artístico dos monumentos, e a própria cidade como museu a céu aberto. E para o Patrimônio, além do que já foi colocado, poderia se pensar na legislação que rege os usos dos espaços patrimonializados, a força dessas leis e as políticas efetivas de cuidado com o patrimônio construído no Centro Histórico. Esta é uma visão abrangente sobre o poder de alcance de uma atividade guiada nos espaços públicos de um Centro Histórico e como o Design, bem como a atividade, assume um caráter interdisciplinar.

Como estratégia metodológica foram seguidos os seguintes passos: 1) Apresentação do projeto à turma para ajustes finais quanto a horários, ponto de encontro, material necessário para levar; 2) Conteúdo em sala de aula, com explicação sobre a história da cidade de Manaus no final do século XIX e início do século XX, para entender como Manaus entra no roteiro da modernidade europeia desse período, quais os estilos artísticos que estavam em vigor e quem se apresentava como modelo de modernidade para o mundo; 3) Visita à seis praças com registro fotográfico, anotações e explicações sobre a história e a estética do período presente nos prédios e monumentos e reconhecimento dos estilos presentes na arquitetura; 4) Produção de relatório de visita.

Segue abaixo a descrição do roteiro realizado nas visitas e as principais observações dos alunos no percurso.

O roteiro e aspectos observados A ideia inicial do percurso é começar em um “ponto alto” do Centro Histórico e ir descendo até o “ponto mais antigo”, até o nascedouro da cidade. Por isso a atividade começa na Praça da Saudade e termina na Rua Bernardo Ramos. No meio percurso passamos e paramos na Praça do Congresso, Praça São Sebastião e entorno do Teatro Amazonas, Praça da Polícia e Palacete Provincial, Praça da Matriz e Igreja da Matriz e a Praça Dom Pedro II e suas adjacências como a Rua Bernardo Ramos. No início da caminhada os alunos recebem um mapa do Centro Histórico para irem marcando o trajeto e (re) conhecendo o nome das ruas e praças, que também fazem parte da história da cidade por se referirem a autoridades ou outras pessoas ilustres do cenário político da região.

O que é observado no percurso são as fachadas dos prédios, para compreender as diferentes estéticas de diferentes períodos; a diferença entre as casas de esquina e as casas que compõem o restante da rua (na Belle Époque, as casas de esquinas tinham mais pavimentos e possuíam sacadas); os brasões de família que eram colocados em lugar de destaque nas fachadas; a combinação de estilos presentes nas janelas, varandas, grades, escadas, e outros elementos arquitetônicos, o que confere à esse trecho da cidade o ecletismo visual; a composição do espaço que privilegiava a praça e o entorno com prédios suntuosos; os objetos decorativos das praças como esculturas, fontes e monumentos, em sua maioria trazidos da Europa; a diferença de estilo e riqueza de materiais entre as obras datadas do período da borracha e outras de períodos posteriores.

Na primeira parada, Praça da Saudade, uma das surpresas é observar a assinatura do artista no Monumento à Tenreiro Aranha, que comemora a elevação do Amazonas à categoria de Província. O monumento foi feito na Itália e trazido para Manaus em 1907, nas grandes embarcações que aportavam no Porto de Manaus. Assim como outros monumentos veio dividido em partes para ser montado na cidade. E ainda carrega a marca de um raio que o atingiu em meados dos anos 1930. Tem características formais que remetem ao clássico, comum às figuras militares do período. A observação in loco confere ao visitante esse aproximar-se com sua própria história. Identificar de perto um estilo artístico e suas características mais marcantes.

Quanto ao desenho da praça, foi remodelado para retomar a visualidade que se tinha até os anos 1960 (herança da Belle Époque). Para isso, duas esculturas foram removidas da praça, além de serem modificados também os usos do espaço. Nesta praça observamos especialmente como a mudança no traçado influencia e determina a presença de determinados grupos e de práticas sociais.

O desenho anterior favorecia realização de eventos com certa concentração de pessoas. O desenho atual, circular e com caminhos que levam ao monumento (que fica no centro da praça), favorece caminhadas e pouco espaço para concentração de pessoas. Tecnicamente esta praça constitui-se como um espaço de circulação e de passagem.

Antes também era caracterizada como um espaço de permanência, pois haviam mais bancos e sombra para que as pessoas ficassem mais tempo ali.

Na segunda parada, Praça do Congresso, o que se destaca é a percepção da ideia de projeto urbanístico inspirado em Paris, com a abertura de uma larga avenida, tendo ao topo uma construção para abrigar um prédio público e na sequência da avenida, um conjunto de casarões com fachadas semelhantes em ambos os lados. A escadaria da escola que é uma das mais antigas da cidade constitui o ponto mais alto da avenida. Nessa perspectiva pode-se ver o rio, marcando os limites da cidade. Uma percepção que não se tem ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, uma vez que estas estão hoje ladeadas de prédios altos que impedem a visão para a área fluvial que circunda esta parte da cidade. Na praça encontra-se o Monumento a Nossa Senhora da Conceição, datado de 1943 e u busto de Eduardo Ribeiro, o governador responsável pelas grandes construções na cidade, no período de 1892 a 1896 (também considerado o período de maior arrecadação econômica com a borracha). Nesta praça, mais uma vez, com o apoio de fotografias e postais de outros períodos, é possível discutir com os alunos a influência da mudança de traçado. Seguindo aqui o mesmo que aconteceu na Praça da Saudade, vista anterioremente. 

Na terceira parada, Praça São Sebastião, o destaque é sempre o Teatro Amazonas, ícone da cultura urbana em Manaus e inaugurado em 1896. E também a compreensão dos significados simbólicos do Monumento à Abertura dos Portos, trazido da Itália, em 1900. Ao rodear o monumento e suas barcas, os alunos identificam ícones que associam diretamente aos quatro continentes representados pelas barcas. Uma aula para compreender melhor o efeito do ícone. Com a figura que encima o monumento, passamos à refletir sobre os aspectos simbólicos que podem ser considerados na construção de um monumento: uma figura feminina que estaria representando a Amazônia aberta para o mundo; a figura do Hermes, representando a presença do comércio na região; e as figuras de crianças, como a anunciar a potência de tal evento. Mas certamente uma das questões que mais conquista os estudantes, é saber que o calçadão da Praça, que é feito com pedras portuguesas brancas e pretas, foi inspirado em calçadas existentes em Lisboa - Portugal. No Brasil, um dos cartões postais é o calçadão de Copacabana, que tem o mesmo desenho. No entanto, historicamente, Manaus estava à frente nos seus processos urbanísticas na época, em decorrência da economia da borracha. Esta praça é circular com o monumento ao centro e não sofreu modificação no seu traçado. O que modificou foi o entorno, revitalizado em 2004, dando origem ao Centro Cultural Largo de São Sebastião, com atividades culturais, casas de cultura, restaurantes, sorveteria, galeria, biblioteca e outros equipamentos.

É o principal cartão postal da cidade.

Na quarta parada, Praça da Polícia, o contato é com um modelo de espaço público mais agradável para o clima da cidade de Manaus. Diferente dos outros espaços, este é mais dotado de árvores e bancos. As descobertas se dão no âmbito da mitologia, onde é possível dar uma aula sobre as histórias gregas envolvendo a Diana Caçadora, o Hermes e as Ninfas. Pois a praça tem um grupo escultórico de peças produzidas na França, em ferro, que representam estas divindades. Além de outras figuras relativas à literatura regional, representadas em bustos e cabeça e máscara. Quanto ao desenho da praça, é triangular e cheio de canteiros, com fontes, lagos artificiais, áreas baixas e altas, dando a ideia de bosque. É o espaço público com maior número de obras escultóricas em Manaus.

Na quinta parada, Praça da Matriz, um momento de tristeza, pela situação em que se encontra um dos espaços mais antigos da cidade e onde está localizada a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. As leituras são voltadas para aspectos da degradação do espaço e do entorno. Mas do ponto de vista do Design, é algo bom para pensar soluções para o espaço e os problemas que este apresenta.

E finalizando a atividade, na Praça Dom Pedro II, historicamente o espaço com os objetos mais antigos dispostos em espaço público de Manaus. A história da praça envolve os estudantes, pois embaixo dela existia um cemitério indígena, coisa comum em várias áreas da cidade de Manaus. Um momento para refletir sobre as camadas de história e memória que a cidade guarda. Sobre o que vemos e o que não vemos, mas que existe sob o solo por onde passamos. A história da arte é revisitada desde sua pré-história, para pensar as cerâmicas indígenas que foram encontradas em escavações na praça. E há espaço ainda para pensar os aspectos simbólicos do lugar e como a cidade vai acumulando diferentes significados em um mesmo espaço.

A atividade encerra na Rua Bernardo Ramos, onde podemos encontrar as duas casas mais antigas da cidade.

Uma rua que foi restaurada e que difere de outras paisagens arquitetônicas do Centro por manter quase todos as fachadas. A rua encerra em uma fortaleza, hoje prédio da Marinha, de onde se guardava a entrada da cidade.

Atividades interdisciplinares Como trabalhos que resultam das visitas, é solicitado ao estudante um relatório com imagens para a disciplina de Estética e História da Arte e a análise de aspectos simbólicos destas obras para a disciplina de Semiótica. Junto a essa tarefa, a descrição do espaço e uma breve contextualização sobre o período da Belle Époque e o período da Zona Franca, que imprimiram mudanças significativas no espaço público. Para outras disciplinas como Fotografia, o ensaio fotográfico feito durante o percurso é uma oportunidade para o exercício das técnicas aprendidas.

Os trabalhos apresentados sempre trazem o caminhar e o olhar de descoberta dentro de sua própria cidade.

Os depoimentos também trazem essa surpresa. Como podemos morar em uma cidade, transitar por ela sem nos darmos conta de tanta coisa que ela contém?! Esta é uma pergunta constante.

Conclusões Para os estudantes de Design, conhecer mais sobre a cidade a partir de experiências práticas, pode auxiliar em situações de trabalho futura. Os acadêmicos formados em Manaus são absorvidos em grande parte por empresas ligadas à marketing e comunicação. Estão sempre desenvolvendo campanhas sobre a cidade, sobre eventos, e utilizam imagens relacionadas à cidade para produzir as campanhas e reforçar ícones e simbologias urbanas, que já vêm construídos de muito tempo.

Entende-se que a importância deste trabalho vai além da percepção estética do espaço. Chega à compreensão de aspectos da própria história e identidade. Trata-se de uma ação de Educação Patrimonial, pelo aspecto didático e que desperta uma valorização cultural pelo conhecimento. Como habilidades desenvolvidas, pode-se citar a acuidade visual, cujo trajeto comum ao Centro não permite desenvolver pela pressa que os compromissos exigem. Esse olhar para dentro da cidade é uma atitude de autoconhecimento e para o campo profissional pode permitir pensar soluções para a cidade. Dentro dessas soluções é possível compreender a necessidade de se pensar em Design Urbano, essa área tão interdisciplinar quanto o próprio campo do Design.

Bibliografia

Argan, G. C. (1998). História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes.