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O livro na perspectiva do design social: Quatro exemplos práticos

do Amaral Moreira, Cíntia Mariza

Actas de Diseño Nº26

Actas de Diseño Nº26

ISSN: 1850-2032

XIV Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” X Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño

Año XIV, Vol. 26, Julio 2019, Buenos Aires, Argentina | 256 páginas

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Resumo: A comunicação apresenta o design social com foco no livro, na confluência com a arte e com a educação, realizado com educadores, crianças e jovens de baixa renda. São descritos livros projetados sobre o chão: o livrorolo e o livro-sanfona; e, livros projetados para uso sobre a mesa: o livro-cordel e o livro-fichário. As experiências de design de livro referidas se distinguem em função da estrutura, da encadernação e influenciam o modo de ler.

Considera-se a relação existente entre o design, o processo de confecção de livros artesanais e o delineamento de processos educativos.

Palavras-chave: Design social - Livro - Arte - Leitura - Encadernação - Educação.

[Resumos em espanhol e inglês e currículo em p. 47]

1. Inicial Não é de hoje que designers se dedicam a explorar a criação de livros a partir do contato direto com crianças. Este é o caso de Bruno Munari com seus pré-livros a partir da década de 1960. Também não é recente o entendimento que o design deva projetar para atender às necessidades sociais, inclusive através de produção de materiais de auxílio ao ensino de todos os tipos, como já indicava Papanek, a partir da década de 1970. Os livros de Munari e as indicações de Papanek de certo modo inspiraram a presente reflexão sobre a produção artesanal sistemática de livros, por mim criados conjuntamente com educadores e com alunos de baixa renda.

Os livros a que me refiro foram criados na perspectiva do design social. Em acepção de Margolin, design social constitui um modelo de design para necessidades sociais, em pólo complementar ao modelo de design voltado para o mercado (2004). Segundo este autor tem-se produzido pouca teoria sobre o modelo de design social. Tampouco tem sido aprimorada a compreensão de como este tipo de design pode ser comissionado, mantido e implementado.

Margolin relaciona a discussão de design de produtos ao processo de intervenção no campo do serviço social.

Ele se vale de um modelo de intervenção usado por assistentes sociais, mas encoraja sua aplicação a outras áreas, como à área da educação através de projetos com professores e administradores educacionais em estabelecimentos de ensino. Margolin propõe, ainda, que o objetivo primordial do design social seja a satisfação de necessidades humanas e que este tipo de design seja qualificado pela prioridade da encomenda, em lugar de caracterizar um método de produção ou distribuição (2004). É a partir desta moldura que minha reflexão prosseguirá.

2. A experiência com livros de design colaborativo Entre 1998 e 2008 tive oportunidade de participar como designer e educadora de inúmeras experiências no campo de confluência entre o design, a arte e a educação. Estas experiências voltaram-se para o design colaborativo de livros e o desenvolvimento de práticas de leitura e escrita com crianças e jovens de baixa renda. Meus clientes eram organizações não governamentais (ONGs), secretarias de educação municipais e universidades, para as quais projetei inúmeros livros.

Entre 2004 e 2008 coordenei a criação coletiva de mais de uma centena de livros colaborativos na SBS, Sociedade Brasileira para a Solidariedade, instituição que atende a crianças da rede pública no contra-turno escolar. Foram quatro anos e meio de trabalho intensivo com um mesmo grupo de professores e alunos numa mesma instituição.

Neste texto farei referência a experiências realizadas por duas ONGs atuantes na Zona Sul carioca, Estado do Rio de Janeiro, Brasil. As estas duas ONGs são conveniadas com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC / Rio), em projetos sociais parcialmente financiados pelo Ministério de Educação e Cultura (MINC) e pelo setor de responsabilidade social da empresa de vestimentas C&A. Refiro-me às instituições Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância, CIESPI, que realiza projetos sociais com apoio do Departamento de Serviço Social da PUC Rio; e à SBS, já mencionada, que realiza projetos sociais com a chancela da Cátedra da UNESCO, PUC Rio.

Pretendo assinalar linhas gerais do design colaborativo de livros a partir de quatro exemplos críticos. A opção de escolha destes exemplos teve em mente mostrar como diferentes variantes de estrutura e encadernação de livros podem viabilizar a execução de em um projeto editorial colaborativo com professores, crianças e jovens.

Em primeiro lugar faremos a descrição da oficina de criação dos dois livros, encomendados pelo CIESPI, a ser ministrada no salão comunitário de uma Igreja Batista que atuou como parceira do projeto, numa comunidade de baixa renda, o morro Santa Marta, uma favela localizada no bairro Botafogo: são eles o livro-rolo e o livro-sanfona, ambos realizados no chão.

Em segundo lugar faremos a descrição da oficina de criação dos dois outros livros, realizados na SBS, uma ONG que funciona num casarão tombado, localizado em Laranjeiras, onde, entre outras atividades, funciona um serviço de atendimento a crianças e jovens, com foco na leitura e no letramento: são eles o livro-cordel e o livrofichário, ambos realizados sobre a mesa.

3. Livros de criação coletiva no chão, no morro de Santa Marta O livro-rolo foi produzido por oito crianças, coletivamente, a partir de um suporte em papel craft, medindo 28 cm de altura por 400 cm de comprimento. Este suporte foi criado para ser apoiado ao chão. As crianças, de frente para o suporte, em linha, mantiveram-se sentadas em duplas de criação. O suporte de papel craft serviu de base para desenhos que contariam uma história criada coletivamente a partir de um detonador proposto: a bola.

Uma bola-personagem chutada do campo de futebol do pico do morro teria descido escada abaixo, passando por diferentes recantos da comunidade. Por onde ela passou? perguntei. Pela mina d’água, pela igreja, pela birosca da Margarida, pelo Cristo Redentor e, por fim, ficou presa na copa de uma árvore, contaram as crianças.

Cada dupla de criação ficou então responsável por criar uma cena. Estas cenas desenhadas em duplas, narravam passo a passo a historia criada pelo grupo. À narrativa visual em desenho livre com lápis colorido foi acrescido em momento seguinte um pequeno texto manuscrito em frases curtas com as quais as crianças legendavam os desenhos já executados por elas. As crianças apelidaram este suporte de Tapete de Bronze e a história por elas criada de A bola sapeca.

A leitura deste livro-rolo foi realizada de quatro diferentes maneiras: a primeira, numa mesa, segurando o início do papel com a mão direita e desenrolando o rolo gradualmente com a mão esquerda, de modo a permitir a apreensão de uma cena por vez (enquanto a mão direita ‘solta a próxima cena, a mão esquerda enrola a cena que acabou de ser visualizada); a segunda, no chão, com o rolo aberto a exemplo de um tapete; a terceira, prendendo o rolo aberto a um mural de avisos ou informações ou parede; a quarta, segurando o rolo nas duas pontas como se fosse uma faixa.

O livro-sanfona foi realizado por quinze crianças, coletivamente.

A parlenda Cadê-o-ratinho-que tava-aqui serviu de detonador para o trabalho. O suporte depois de pronto, quando aberto, media 21 cm de altura por 300 cm de comprimento.

Primeiro as crianças recriaram a parlenda em roda, adaptando o texto de modo que cada qual criasse uma frase.

Depois registraram o texto da fala de cada um em folhas soltas de formato A4 ‘paisagem’ sobre o chão. Em seguida cada qual ilustrou a fala por ele criada. Ao fim, as folhas já ilustradas foram colocadas em ordem e coladas em sequência, de modo a respeitar as dobras de uma sanfona.

A leitura deste livro-rolo foi realizada de três diferentes maneiras: seguindo a tradição oriental de folhear a sanfona sobre a mesa; abrindo a sanfona como uma faixa no chão; ou prendendo a sanfona aberta a um mural.

A leitura da sanfona e do rolo se deu de modo semelhante.

Era uma leitura brincada, intensiva, coletiva e oralizada.

Uma leitura significativa para todas as crianças escritoras, ilustradoras e editoras que tinham criado cada um dos livros: o livro-rolo e o livro-sanfona.

A estrutura dos livro-rolo e livro-sanfona embora estivesse de algum modo em diálogo com a tradição do códice, se valeu de suportes corrente antes da introdução do códice no Ocidente e no Oriente: o rolo e a sanfona. Ambos os suporte são adequados à leitura oralizada, como era a leitura na Grécia, em Roma ou na China, antes da introdução do códice.

Este tipo de leitura antiga no ocidente e oriente e medieval na China, parece ser adequada ao ensino e ao letramento. Tanto que os professores as praticam espontaneamente.

Uma leitura que se vale da página, mas que ainda não introjetou todas as limitações da página.

Especialmente no livro-rolo Tapete de Bronze, a leitura brincada realizada pelas crianças depois da confecção do suporte se valeu de páginas de tamanho variável, se tomarmos página como o campo de leitura de uma cena desenhada, acompanhada de texto. As várias cenas criadas pelas crianças no livro-rolo eram páginas que se seguiam em linha, sem o compromisso de se manterem no mesmo formato. Eram fiéis mais ao braço e mão que desenham e depois escrevem, que à mão e punho escreventes.

Enquadravam mais o resultado da mão que descobre o espaço do desenho, que a mão que segue a ordem mental da escrita. Embora pudesse, num segundo momento, acolher a escrita.

4. Livros de design colaborativo sobre a mesa, no casarão da SBS O livro-cordel de formato 12 cm x 15 cm foi realizado individualmente, um por cada uma das quinze crianças que acompanhou a atividade. Elas ilustraram poema de livre escolha delas do livro Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. O trabalho de editoração dos livros utilizou mesas para o desenho e o laboratório de informática para a digitação e paginação.

Foram realizados quinze livretos, um para cada poema do livro de literatura infantil mencionado. Cada criança criou um pequeno livro com páginas em formato A6 ‘retrato’, no qual o texto do poema escolhido havia sido impresso em folhas ímpares. As páginas com poema foram intercaladas com páginas ilustradas com motivos referentes ao poema. Os livros foram encadernados com amarração de barbante, a exemplo dos livros de cordel brasileiros.

A estrutura destes livros respeitou a tradição do códice e à experiência do conto das crianças com o livro de cordel.

Ao invés de intercalar texto impresso com xilogravura, como no caso do cordel, intercalou texto impresso com desenho infantil em páginas separadas.

O livro-fichário em dois tomos, de formato 33 cm de altura X 27 cm de largura, foi realizado coletivamente pelo conjunto de dezesseis crianças que acompanhou a atividade.

Constituiu uma edição artesanal do livro Viagem ao céu, de Monteiro Lobato, talvez o primeiro grande escritor de literatura infantil brasileiro. O trabalho de editoração do livro-fichário foi realizado sobre mesas e usou o laboratório de informática para digitação e paginação.

Foram criados dezesseis livretos, de formato 23 cm de altura x 16 cm de largura, um para cada capítulo do livro Viagem ao céu. Cada criança ficou responsável por produzir um dos livretos, a ser por ela digitado e ilustrado.

As folhas de cada livreto foram dobradas segundo a tradição oriental, em pinça, e depois de alceadas, receberam furação adequada para permitir o futuro encaixe no fichário. Cada livreto foi encadernado com barbante com costura japonesa.

A leitura do livro-fichário era feita livreto a livreto, pois cada um dos dezesseis capítulos constituía uma unidade física autônoma: um livreto em separado.

A estrutura do livro-cordel e do livro-fichário embora fosse fiel ao códice, utilizava um processo de produção que facilitava a ordenação e reordenação das páginas até o momento da encadernação. Ao adotar cadernos de quatro páginas, com apenas duas páginas em uso, se fugia à limitação da imposição de páginas em cadernos com quatro ou oito páginas, que complicariam a paginação final do livro.

5. Algumas considerações sobre o design colaborativo de livros Três observações sobre livros em linha no chão: As alternativas livro-rolo e livro-sanfona e o planejamento de estratégias de trabalho no chão mostraram-se oportunas para a criação de livros de design colaborativo em comunidades de baixa renda e em áreas abertas, nas quais a mesa está ausente.

A criação de livros com crianças com dificuldade de aprendizagem foi bem sucedida em trabalhos sobre longo suporte linear planejado e formatado previamente: a faixa de papel craft no caso do livro-rolo; e páginas soltas coladas que constituiriam uma superfície em forma de longa faixa, a ser dobrada em sanfona no caso do livro-sanfona.

Em ação com crianças que têm dificuldade para escrever, observou-se que o suporte linear no chão favoreceu a execução do desenho infantil para narrar visualmente histórias criadas pelas próprias crianças. Notou-se que a largura variável das páginas em livros-rolo proporcionou o desenho gestual livre, sem restrição de tamanho, bem como estimulou a redação de legenda manuscrita. Este tipo de livro além de favorecer a leitura, facilitou a guarda do suporte que teria sido inviável no formato códice, inapropriado para reunir páginas de formato variável.

6. Três observações sobre livros criados sobre a mesa Em situações de aprendizagem da leitura e da escrita, notou-se o valor da criação de livros artesanais do tipo códice, com número pequeno de páginas e constituindo um único caderno. Ao entremear ilustração com texto, houve sucesso ao se fazer uso preferencial das páginas ímpares, fosse para ilustração ou texto, ficando as páginas pares em branco.

O recurso da página dupla central ilustrada permitiu a criação de desenhos com maior liberdade do que o seria em página individual.

A encadernação japonesa para reunir páginas soltas, permitiu o pronto alceamento e ordenamento delas ao fim do processo de ilustração e confecção do texto, o que teria sido mais difícil e demorado no formato códice, pois este exige uma complexa imposição de páginas.

7. Algumas conclusões iniciais Na perspectiva do design social a criação de livros artesanais ofereceu referências físicas e materiais e delineou processos educativos.

Se o formato códice estimulou a leitura silenciosa, os formatos rolo e sanfona favoreceram a leitura oralizada no chão, na mesa e no mural, característicos de período de aprendizagem da escrita.

A criação colaborativa de livros reforçou a autoestima dos alunos, elevados ao lugar de editores, autores e ilustradores, o que facilitou o processo de aprendizagem da escrita e da leitura.

Referências Margolin, V. y Margolin, S. (2004). Um ‘modelo social’ de design: questões de prática e pesquisa Revista de Design em Foco, jul-dez, vol 1, n.1, 43-48. Salvador, Brasil: Universidade do Estado da Bahia.

Munari, B. (1998). Das coisas nascem coisas. São Paulo: Martins Fontes.

Papanek, V. (1992). Diseñar para El mundo real: ecología humana y cambio social. Madrid: H Blume Ediciones.

Abstract: This article presents the aspects of social design focusing on the book and it confluence with art and education, done by educators, children and young people of limited resources. It describes books designed to be used on the floor such as the rolled-up manuscript and the book-accordion; and books designed to be used on the table: the book-string and the book-file. This design experiences are distinguished by their structure, binding, and influence on the way of reading. It is consider the relationship between design, the hand-crafting process and the delineation of educational processes.

Keywords: Social design - book - art - reading - binding - education.

Resumen: Este artículo presenta al diseño social poniendo el foco en el libro, en la confluencia con el arte y la educación. Esto fue realizado por educadores, niños y jóvenes de escasos recursos. Se describen libros diseñados sobre el suelo: el manuscrito enrollado y el libro-acordeón; y libros diseñados para uso sobre la mesa: el librocordel y el libro-fichero. Las experiencias de diseño de libros a las que se hace referencia se distinguen en función de su estructura, de la encuadernación e influencia en el modo de leer. Se considera la relación existente entre el diseño, el proceso de confección artesanal de libros y el delineamiento de los procesos educativos.

Palabras clave: Diseño social - Libro - Arte - Lectura - Encuadernación - Educación.

(*) Cíntia Mariza do Amaral Moreira. Designer - ESDI / UERJ e Membro do Núcleo da Imagem em Movimento - NIM / EBA / UFRJ.

Professora da UNIGRANRIO, Doutora em Educação - Programa de Pós- Graduação em Educação FE / UFRJ. Doutoranda do PPGAV - Programa de Pós-Graduação em Artes-Visuais da EBA / UFRJ.


O livro na perspectiva do design social: Quatro exemplos práticos fue publicado de la página 44 a página47 en Actas de Diseño Nº26

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