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Um craft design no despertar das bordadeiras da Praia do Sono

Acar, Lucía

Actas de Diseño Nº26

Actas de Diseño Nº26

ISSN Impresión 1850-2032
ISSN Online: 2591-3735
DOI: https://doi.org/https://doi.org/10.18682/add.vi26

XIV Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” X Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño

Año XIV, Vol. 26, Julio 2019, Buenos Aires, Argentina | 256 páginas

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Resumo: A interseção entre os campos da Arte, do Artesanato e do Design pode ser nomeada como Craft Design, ou Design Artesanal. Desta união, resultam produtos com a inteligência criativa e sofisticada do design, a alta performance estética da arte e a delicadeza caseira do artesanato. A partir do conceito de um estilista artífice, foi desenvolvido um trabalho de conscientização e desenvolvimento de potencialidades com as bordadeiras da Praia do Sono em Paraty, no Rio de Janeiro, onde da experiência, na qual as mãos e as mentes estavam unidas, um sonho transformou-se em realidade.

Palavras chave: Artesanato - Identidade social - Cultura - Arte - Design.

[Resumos em espanhol e português e currículo em p. 87]

A função social do designer e do Design ativa um par dicotômico que se articula nos níveis estéticos e sociais.

Um par complexo porque põem em questão os processos de formalização com a questão da aparência por um lado, e os acordos com a ergonomia, a funcionalidade e o desempenho no mercado.

A modernidade histórica buscou resolver a polarização pondo uma em função da outra. O famoso aforismo de Sullivan “a forma segue a função”, foi o lema que se erigiu como um mito ante os processos de conformação dos objetos. O problema da modernidade radicava em sua visão simplificadora da função que podia ser resumida como a finalidade a que estava destinada o objeto.

A função era mostrada como uma condição afirmativa, positiva e o designer era aquele que possuía a téchne, o saber-fazer necessário para o sucesso do produto. Além disso, o século XX marcou definitivamente o “deslocamento da ênfase econômica para a distribuição” (Mills, 2009) isto é: colocou a arte e a ciência em condição de subordinação à produção de massa com influência das instituições dominantes da economia capitalista e do mercado consumidor.

Mas restringir a atividade do Design ao atendimento de gostos e soluções para consumidores ávidos por novidades seria reduzir seu potencial criativo e empobrecer sua natureza artística e sensível. Desde os primórdios, o homem cria objetos e imagens visando uma comunicação e interação com o ambiente que o cerca, codificando e transmitindo suas mensagens. A cerâmica grega, as artes rupestres e outras manifestações culturais e artísticas exemplificam a necessidade humana de uma produção formal de objetos cotidianos, equilibrando a arte e a tecnologia, a forma e a função.

O designer talvez seja o profissional que mais transita em uma zona conflituosa, que é a autonomia de sua produção e seu comprometimento com uma cultura comercial na qual as tendências econômicas se fazem a partir de uma mecânica de venda em massa de mercadorias que se tornam o “fetiche da vida humana, o eixo do trabalho e do lazer” (Mills, 2009). Neste sentido, a diferença que delimita o campo do design é, uma vez mais, a aplicação da capacidade criativa e o redimensionamento dos problemas, que são a sua essência: Todo design deve estar configurado para ser adequado ao uso que vai se fazer dele. (...) O designer não faz arte, desenha objeto bidimensionais ou tridimensionais que serão utilizados por usuários. Os usos variam segundo a classe ou tipologia dos objetos e as modalidades de uso estão determinadas pela finalidade que se quer conseguir com esses objetos. Um design não deve ser nunca um objeto em si mesmo, senão sempre um objeto para um fim (Zimmerman, 2010).

Como toda a palavra evoca uma imagem que nos ajuda a compreender o conceito que ali se expressa, a palavra Design também evoca, para além de seu lado funcional e ergonômico, a imagem do artista e do artesão. Aqueles que produzem com arte e pela arte, de cuja união pode apreender o conceito de artífice. Este cria seus produtos com um caráter prático, ligados ao trabalho artesanal e utilitário, mas seu ofício não é apenas um meio para alcançar outro fim, mas sim representa todo o seu engajamento no exercício de uma aptidão desenvolvida em alto grau, como um artista. Ele tem orgulho de seu trabalho e sua habilidade artesanal faz com que esteja sempre ligado as outras pessoas e a comunidade, através de uma realidade tangível. Seus produtos são sua expressão, como a produção do artista que não abre mão de suas individualidades estéticas.

A experiência da Praia do Sono O sugestivo nome Praia do Sono, para uma região belíssima em Paraty no Rio de janeiro, aonde somente se chega de barco ou por uma estreita trilha nas montanhas não é representativo do que exatamente acontece por lá...

“Sono” é o que menos se tem neste lugar paradisíaco, mas sim a realização de sonhos, não só para os frequentadores, mas principalmente para um grupo de mulheres que constituem uma comunidade de bordadeiras da Praia do Sono.

As Bordadeiras do Sono nasceram como um grupo de vinte mulheres, todas residentes na Praia do Sono. Das mãos desse grupo surgem bordados ricos em formas, cores e elementos do cotidiano caiçara. Com traços singulares e muita rusticidade os bordados são trabalhados de forma lenta e permitem uma profunda reflexão e espiritualidade às mulheres que participam dessa atividade.

Cada bordado é uma peça absolutamente única, representa as emoções e a percepção de quem o faz, sendo uma arte de forte expressão e identidade cultural.

A equipe de pesquisadoras e consultoras do Instituto Zuzu Angel, da qual eu fazia parte, foi encarregada de fazer um trabalho de conscientização com as bordadeiras, onde buscava-se valorizar a cultura local, criando algumas rotinas e práticas que ajudariam a construir um futuro mix de produtos, com um apelo mais comercial, que pudesse resultar em melhoria econômica para a localidade, além de solidificar o grupo como uma comunidade atuante e unida.

Este trabalho resultou em uma exposição, “Raízes do Brasil”, que aconteceu durante o evento Paraty Ecofashion 2012, bem como capacitou as bordadeiras para um melhor resultado do seu produto final, criando condições técnicas para que essas mulheres viessem a se constituir numa associação de artesãs de forma mais profissional.

A primeira dificuldade da equipe se deu com a constatação de que elas não tinham um produto original, isto é o que bordavam eram desenhos executados por um morador da região, que retratava o cotidiano do lugar com peixes, conchas e outras formas já desgastadas e por demais exploradas.

Quando se retiram os contextos, as situações são sempre as mesmas, universais! Desde a Idade Média, o artífice é aquele que se dedica a arte, mas com uma compreensão da necessidade de sua produção. Suas preocupações são com o resultado de sua experiência enquanto vivência poética. Era preciso despertar naquelas mulheres o sentido do artesanato, onde as mãos nunca estão separadas das mentes, as práticas são a própria vida e a alegria de criar constitui-se um crescimento que reforça a habilidade manual (Sennett, 2008, p. 37).

Nas ações do artífice não pode haver separação entre a mão e a cabeça, a técnica e a ciência, a arte e o artesanato, sob pena de prejuízo do entendimento e da expressão (Sennett, 2008).

À sempre solicitada autonomia da arte e do artista, que centralizam o processo e dominam a subjetividade de sua produção, tem rotas contrárias com o artesanato e o artesão, que historicamente sempre esteve vinculado a um mestre e mantinha uma produção coletiva e objetiva.

A arte é livre não tem compromisso com a utilidade. Seu único compromisso é com seu próprio fazer. Já o artesanato, é uma forma de fazer utilitário com componentes artísticos, e com isso promove um sentido de autonomia ao artesão.

Nem a arte, nem o artesanato aspiram à produção seriada, mas sim aos objetos exclusivos, únicos, que representam a linguagem mais íntima de seu criador. Seu senso de abrangência e acessibilidade ficam muitas vezes restritos a pequenos círculos de apreciadores. Aí reside uma grande diferença com o design, que tem em sua essência o fazer seriado, a produção de massa. Sempre pensado e projetado a partir de uma demanda onde os problemas são apresentados e as soluções são encontradas pelos designers, que visam sempre um produto esteticamente atraente, no qual o comum, o banal e o cotidiano podem ser transformados em um produto de alto nível e que busca um padrão de excelência. O “bom design”! Mas existe uma interseção entre os campos da Arte, do Artesanato e do Design que podemos chamar de Craft Design, isto é: aqueles produtos que possuem a inteligência criativa e sofisticada do design, a alta performance estética da arte e a delicadeza caseira do artesanato, um produto de artífices! E foi a partir do entendimento do craft design ou design artesanal, que as bordadeiras foram sensibilizadas com imagens de flores e frutos, mar e terra, luz e sombra; formas, objetos e dejetos tais como tampinhas, pedaços de madeira, flores e frutos colhidos no local e alguns nos próprios quintais de suas casas. A vivência que foi realizada entre as pesquisadoras e as bordadeiras foi recheada de surpresas e muito rica para o desenvolvimento e o desabrochar de potencialidades adormecidas.

Com o pouco tempo disponível foi sugerido uma forma padrão, quadrada, em tecido rústico, onde as bordadeiras iriam, a partir de suas possibilidades técnicas, bordar suas histórias, criando uma narrativa visual. E elas viram que era possível transformar sonhos em realidade. Que tinham capacidade de bordar a partir de suas experiências.

O resultado foi muito criativo e sensível, pois possuía a intimidade de vidas contadas pelos pontos dos bordados e a organização formal do design. Um trabalho de efeito emocional, social e cultural, onde as narrativas expressavam o cotidiano da cultura caiçara, que é o lugar de origem das bordadeiras da Praia do Sono.

A participação do grupo de Bordadeiras da Praia do Sono no Paraty Eco Fashion, com a exposição Raizes de Paraty na Casa da Cultura do SESC, foi um marco para o surgimento de um projeto de criação de uma associação que vem apoiada pela Associação Cairuçu e pelo Instituto Colibri, idealizador do evento.

Foi realmente uma experiência de despertar para a consciência de um trabalho produzido por artífices, que feito de maneira artesanal pode proporcionar a pequenas comunidades uma certa independência, com a interferência mínima na cultura local. Na FLIP 2013 - Feira Literária de Parati, as bordadeiras criaram almofadas, todas bordadas com rostos das artífices que bordavam e onde exibiam o orgulho por seu trabalho, seus auto-bordados, a exemplo dos grandes autorretratos da História da Arte.

Este tipo de relato sobre o trabalho das bordadeiras faz com que surja a imagem do estilista artífice. Um profissional que trabalha de maneira expressiva em busca de uma linguagem que lhe seja original, isto é: que fale de sí e que vá em direção ao outro. Que o seu ofício não seja apenas um meio para alcançar outro fim, mas represente todo o seu engajamento no exercício de uma aptidão desenvolvida em alto grau, que ao término de uma coleção, vê sua obra como um campo de realização concluído que abre-se em um campo de possibilidades para o outro.

As exigências do mundo contemporâneo no que diz respeito à sobrevivência econômica nos afastam de processos artesanais e nos põe em confronto com os processos industriais, dos quais nem sempre o estilista pode prescindir. Algumas atividades apresentam a particularidade de ser ao mesmo tempo indústria e arte como a Arquitetura, o Design, assim como também a Moda.

A divisão matéria-símbolo, isto é a materialidade do objeto e seu conteúdo simbólico, constitui campos de forças na moda, pois os profissionais de design têxtil e de vestuário precisam lidar com situações bastante objetivas como planilhas de custo, planilhas de vendas, contato com fornecedores, análise do desempenho de suas coleções, clientes, e todos os materiais como aviamentos, botões, tecidos etc.

O trabalho industrial, a partir de possibilidades disponibilizadas pelas máquinas, ocupou um lugar inferior na escala social talvez devido à separação entre atividades intelectuais versus atividades puramente técnicas. Um pouco como o que vemos hoje em relação ao estilista como um criador, e a costureira como aquela que somente copia e executa.

Mas alguns estilistas, mais especificamente aqueles em que podemos reconhecer as qualidades de artífices, devido a sua proximidade com o campo da arte, conseguem romper esta dicotomia desenvolvendo produtos a partir de demandas específicas que possuem um sentido utilitário, mas que essencialmente são portadoras de valores estéticos fortemente enraizados na cultura contemporânea.

Este profissional especial é o que neste trabalho é examinado. Um tipo de exercício que se coloca entre o novo e o tradicional, entre o artesanato e a indústria, o mercado e cultura, entre a comunidade e as altas classes, entre o artista e o artesão. A tradição do contemporâneo...

Veblen (1898) nos ajuda a entender a tradição em um tempo tão efêmero quanto nossa atualidade. Com seu estilo narrativo recheado de metáforas, analogias e outras figuras de linguagem, nos apresenta no texto “O instinto para o artesanato e a aversão ao trabalho em geral”, publicado no American Journal of Sociology, de setembro de 1898, uma análise da forma e relações de trabalho que contribuem para diferenciar o trabalho comercial e o trabalho artesanal hoje executados pelos estilistas artífices contemporâneos. No texto a expressão “instinto para o artesanato” é uma “propensão comportamental gerada por algum aspecto da cultura humana” (OIKOS.

Revista de economia heterodoxa nº 8 ano 6. Instituto de Economia: UFRJ, 2007) a que ele chama de instintos, devido a influência das teorias darwinianas de evolução da espécie, que muito contribuíram na sua visão econômica e para sua compreensão do comportamento humano, visto por ele com possibilidades evolutivas. O ser humano teria uma propensão a realizar de maneira bem feita as tarefas que possuíssem um propósito identificável, isto é que fossem motivadas por questões de provisão material necessária à sobrevivência da comunidade. É um instinto que tem em vista a cooperação industrial e causa repulsa pelo que não é bem feito ou é fútil. Uma preferência inata onde, nas produções em que fossem reconhecidos elementos utilitários, além de questões de natureza estéticas (que eram de suma importância), os objetos seriam aprovados pela comunidade e isso redundaria em consumo eficiente e nenhum desperdício. Além do instinto para o artesanato, Veblen enumera outros dois tipos de instintos humanos: “o instinto para o esporte”, que é individualista e cujas atividades motivadoras não são úteis ou necessárias à comunidade, mas daria vazão a características predatórias e competitivas que são características do comportamento humano, e se manifestam por exploração entre semelhantes, acumulação de recursos financeiros e o consumo conspícuo das classes mais abastadas como expressão destas tendências; e um terceiro instinto que seria a “propensão emulativa”, como resultado da natureza social do ser humano.

Estes dois instintos se apresentam como metáforas para definirmos os processos artesanais (coletivos, cooperativos e plenos), dos processos industriais que possuem características mais individuais, exploratórias e fragmentadas.

Estas distinções permitem traçar um paralelo e apontar diferenças entre estilistas que estão voltados para atender demandas mercadológicas e outros que pautam suas produções de forma artesanal, preocupados com questões ambientais, sociais e políticas.

Bibliografia Bomfim, G. (1998). Idéias e Formas na História do design: uma investigação estética. Ed. Universitária: João Pessoa.

Mills, C. (2009). Wright. Sobre o Artesanato Intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores Sennett, R. (2008). O Artífice. Rio de Janeiro: Ed. Record.

Veblen, T. (2001). O instinto para o artesanato e a aversão ao trabalho em geral.

American Journal of Sociology, (2001). V.4, nº2, set 1898, pp 187-201.

IN: Revista OIKOS-UFRJ, nº 8, ano VI.

Zimmermann. (2010). O design e sua função. Artigo publicado na revista Tipográfica, nº 33. Argentina.

Abstract: The intersection between the fields of art, craft and design can be called Craft Design. Products result from this union with the creative and sophisticated intelligence of the design, the high aesthetic performance of the art and the homemade delicacy of the crafts.

Based on the concept of an artisan stylist, a work of awareness and development of potentialities was developed with the embroiderers of the Praia do Sono in Paraty, in Rio de Janeiro, where experience, in which hands and minds were united, has transformed a dream into reality.

Keywords: Crafts - Social identity - Culture - Art - Design.

Resumen: La intersección entre los campos del arte, de la artesanía y del diseño puede ser llamada Craft Design, o Diseño Artesanal. De esta unión resultan productos con la inteligencia creativa y sofisticada del diseño, la alta performance estética del arte y la delicadeza casera de las artesanías. A partir del concepto de un estilista artífice, se desarrolló un trabajo de concientización y desarrollo de potencialidades con las bordadoras de la Praia do Sono en Paraty, en Rio de Janeiro, donde la experiencia, en la que las manos y las mentes estaban unidas, ha transformado un sueño en realidad.

Palabras clave: Artesanías - Identidad social - Cultura - Arte - Diseño.

(*) Lucia Acar. Doutora em Sociologia. Pesquisadora e Conselheira do Instituto Zuzu Angel de Moda.


Um craft design no despertar das bordadeiras da Praia do Sono fue publicado de la página 85 a página87 en Actas de Diseño Nº26

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