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Cerâmica e ensino de modelos físicos como ferramenta de projeto

Aun Bertoldi, Cristiane

Actas de Diseño Nº17

Actas de Diseño Nº17

ISSN Impresión 1850-2032
ISSN Online: 2591-3735
DOI: https://doi.org/https://doi.org/10.18682/add.vi17

IX Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” V Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño Comunicaciones Académicas

Año IX, Vol. 17, Julio 2014, Buenos Aires, Argentina | 256 páginas

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Introdução

Os cursos de Design apresentam em seu currículo disciplinas que abordam o uso e a construção de modelos físicos. Estas disciplinas são ministradas nos primeiros anos do Curso, pois contemplam conhecimentos básicosnecessários para as demais disciplinas de Projeto de Produto. Na maioria das instituições de ensino, principalmente no Estado de São Paulo, elas são de caráter instrumental e dão ênfase no ensino de técnicas para aobtenção do modelo tridimensional. Estão apoiadas em exercícios ou atividades desenvolvidas em oficinas de modelagem, moldagem, marcenaria, entre outras. Nelas, os alunos entram em contato com materiais, equipamentos e ferramentas com a finalidade de executar tarefas determinadas, visando uma boa desenvoltura nestestrabalhos. Trata-se de uma mesma tarefa que todos os alunos desenvolverão, seguindo os procedimentos demonstrados pelo professor e/ ou técnico de oficina/ laboratório. O produto resultante é o mesmo e pode servir para a avaliação de sua qualidade, por comparação entretodos os modelos e valoração dos atributos. Na FAU USP, tanto o Curso de Arquitetura e Urbanismo, quanto o de Design oferecem disciplinas que tratam deste tema, mas são estruturadas com a finalidade de fornecerao aluno conhecimentos acerca de teorias e tipologias de modelos físicos aplicadas ao projeto de produto e de elementos que envolvem a prática de principais métodos de construção de modelos físicos e a necessidade de desenvolvimento de habilidades perceptivas e operacionais para sua execução. O contato com materiais e processos construtivos não é a centralidade destas disciplinas. O modelo é entendido como parte das atividades de projeto, estando presente em diferentes etapas, cumprindofunções específicas. Em função disto, os fundamentos teóricos ensinados são importantes para reforçar a compreensão de que modelos não servem apenas para a apresentação final de uma proposta de projeto. Na verdade,neste momento, as alterações cabíveis são inversamente proporcionais aos problemas evidenciados, que seriam facilmente detectados em etapas anteriores.

Segundo Bezerra (2008):

(...) os alunos dos primeiros anos apresentem uma certa resistência à criação de alternativas de solução e à conseqüente confecção dos modelos para que possa compará-las. Reforçando esta resistência está o fato dos modelos, durante o processo de projeto, servir exatamente para mostrar as falhas deste, permitindo as suas correções e o aprimoramento das soluções. Além do que, fazer modelos dá trabalho, e muito.

Apesar do advento das técnicas de produção de modelos por meio de equipamentos comandados por meios computacionais, genericamente nomeadas como Prototipagem Rápida, em inúmeros países, a confecção dos modelos tridimensionais, dentro da indústria, está intimamente ligada à capacitação profissional artesanal, sendo os modelistas verdadeirosescultores. Se entendermos o projeto como uma seqüência de tomadas de decisão, onde informações se transformam em soluções formais, podemos entender o modelo como um efetivo instrumento de decisão, representando, testando e aperfeiçoando as soluçõesem cada um dos momentos do projeto Sem nenhuma pretensão de formar modelistas, nem exímios operadores de equipamentos de prototipagem rápida, a execução de modelos, por parte dos alunos, deveser enfatizada como uma necessidade do processo de construção da solução do produto e da própria formação do aluno. Assim, os modelos devem estar presentes, no curso e nos projetos, desde as fases iniciaisaté a realização do seu resultado final, tanto do curso quanto do projeto. (p. 1)

Uma estratégia adotada para estas disciplinas é a proposição de um exercício de redesign de um produto e dependendo da complexidade do objeto, propõe-se a ampliação da linha ou a criação de um kit de produtos.

Outra estratégia é o estímulo para especificação de um produto em cerâmica, que pode ser tanto para o objeto que será redesenhado, como para aqueles que comporão o kit ou a família. Incentivar o desenvolvimento de projetos de produtos feitos em materiais como madeira, papel ou cerâmica, auxilia o processo de aprendizagem em projeto, principalmente quando ocorre nos primeiros anos do Curso, devido à facilidade de obtenção, de transformação e de conformação, além de baixa complexidade tecnológica destes produtos e baixos custos na aquisição.

(Andrade, comunicação pessoal, 7 de março de 2011).

Muitos destes produtos são feitos de um único material, podendo conter poucos elementos conectores, para união ou fixação de partes e não possuem componentes mecânicos ou eletrônicos. O contato direto com o material especificado em projeto e a possibilidade de seu emprego na conformação do objeto concebido favorecem a percepção e avaliação das suas qualidades e a compreensão de seu comportamento, condição propiciada pela vivência em tempo real e não pela simples coleta de dados técnicos sobre propriedades e desempenho. A tentativa de aproximação do projeto e produto final por meio de protótipos, oferece meios para que o aluno realize testes de desempenho, de simulações de uso e fazcom que se defronte com limitações reais do processo de fabricação e se aproxime da capacidade de verificação e de validação do projeto em todas as suas instâncias, podendo ser considerada proveitosa para o processo de ensino e aprendizagem em design.

Materiais e métodos

Os procedimentos didáticos utilizados para o desenvolvimento das disciplinas de modelos tridimensionais foram: apresentação de aulas teóricas expositivas em sala de aula, utilizando-se recursos áudio-visuais, aulas práticas para desenvolvimento de desenhos e modelos físicospara verificação, testes e apresentação nos laboratórios, utilizando-se meios manuais e digitais e seminários para apresentação do levantamento e análise de dados e de alternativas propostas.

As aulas teóricas abordaram os seguintes tópicos: teoria de modelos e o uso de modelos físicos como procedimentos de métodos de projeto; a relação entre as etapas de projeto de produto e seleção e uso de diferentes tipologias de modelos físicos; classificação de modelosfísicos em função da finalidade, capacidade de promover a geração de alternativas projetuais, o levantamento de informações/ questões, a verificação de soluções, as escalas adotadas, os materiais utilizados, o grau de fidelidade com o produto; princípios de configuração e a leitura daforma; a obtenção  o modelo a partir de processos manuaisou mecânicos, envolvendo técnicas de usinagem, modelagem, construção, fundição, moldagem e tornearia e a obtenção de modelos físicos a partir de processos digitais, obtidas com o auxílio do computador, envolvendotécnicas de corte de chapas e posterior montagem, retirada de material por fresas (CNC), obtenção de modelos por prototipagem rápida aditiva (adição de camadas), ou formativa (extrusão diferencial), além de emprego de recursos da engenharia reversa (scanner 3D); o materialcerâmico e seus processos de fabricação –propriedades, limitações e potencialidades para aplicação em projeto. As aulas práticas ministradas na disciplina promovem o desenvolvimento de modelos físicos com a finalidade de apoiar etapas de projeto. Para que a ênfase seja dada nasua construção e uso solicita-se o redesign de um produto, garantindo a viabilização da carga horária disponível com os objetivos pretendidos pela disciplina. A seleção do produto que será redesenhado exige um primeiroexercício de leitura e compreensão da forma de objetos reais, quanto aos requisitos funcionais, ergonômicos, estéticos, técnicos e de fabricação a partir do seu contato direto. Posteriormente estimula-se o desenvolvimento da capacidade de representação de informações relevantes sobre seus atributos físicos - formato, proporção, concordâncias e contrastes entre formas, passagens entre superfícies distintas em decorrência de limitações de fabricação (desmoldagem), e de uso de materiais distintos,identificação de conectores, fixação partes e articulações. Para este exercício de redesign são geradas alternativas por meio de desenhos e modelos físicos de diferentes categorias, visando à comunicação de aspectos distintos do objeto, com maior ou menor grau de fidelidade e decodificação. Segue-se para a etapa de análise e de comparação de propostas, realizada de maneira sistemática, para a seleção da melhor alternativa, a partir de critérios estabelecidos e da atribuição de valor para cada um destes critérios. Parte-se então para o desenvolvimento da melhoralternativa. Esta não é uma atividade que ocorre em seqüência linear, pois apresenta a necessidade de verificação, de revalidação ou de readequação dos conceitos ou critérios preestabelecidos, em função de problemas que surgem durante o processo, característica esta inerenteà atividade projetiva.

São realizados seminários no decorrer do curso, em que os grupos de trabalho apresentam o levantamento e análise de dados, a geração de alternativas, a seleção, desenvolvimento e verificação e validação das propostas.

Estes seminários podem apresentar um caráter mais formal, com a exposição de uma aula preparada pelos alunos empregando-se recursos áudios-visuais, ou mais livre a partir de debates coletivos entre grupos de alunos na busca de soluções que surgem durante o enfrentamentodo problema de princípios formais, ergonômicos ou de funcionamento.

Resultados e discussão

Para se compreender o foco das disciplinas de modelos físicos ministradas na FAU USP, primeiramente serão mostradas definições utilizadas no decorrer deste trabalho e que também são algumas das apresentadas aos alunos para o desenvolvimento de atividades. Osmodelos são representações simplificadas e inteligíveis da realidade, que representam parcialmente as propriedades e características do objeto e servem para verificar determinados aspectos do objeto, para a sua simulação e análise de desempenhos e qualidades em situações préestabelecidas.

Eles são utilizados em diferentes fases do projeto de um produto e servem para analisar e selecionar as alternativas propostas, dar respostas a problemas que vão surgindo através de testes e simulações e devem seradequados às questões e informações que se pretende recolher deles em cada fase. Sua construção consome tempo e recursos, portanto, precisa ser compatível com as informações que se pretende obter, não representando mal um objeto por feitio desajeitado, com qualquer material,nem consumindo recursos desnecessários, com construções mais elaboradas e materiais mais sofisticados do que as informações desejadas solicitam. (Bezerra, 2008) Entendidos como parte integrante das atividades de projeto, os modelos físicos podem ser classificados segundo sua finalidade. Desta maneira, chamamos de modelos preliminares aqueles que podem ser considerados esboçostridimensionais, apresentando as primeiras explorações formais. São modelos volumétricos que servem para o estudo de volume e da configuração geral, construídos geralmente em escala natural 1:1. São realizados sem detalhes formais e sem cores, confeccionados numaúnica cor neutra e sem brilho, preferivelmente em cinza, ou branco para favorecer a percepção formal do objeto. Os materiais empregados costumam ser diferentes dos especificados em projeto e são simples e baratos, para permitir todas as alterações necessárias, tais como PU,papelão, argila, plastilina, gesso e madeira.

Os modelos de aparência são modelos realizados em escala natural –1:1 que representam fielmente o produto. Podem ser utilizados para a aprovação do projeto pelo cliente, em feiras, para a verificação de sua aceitação por parte de possíveis consumidores. Eles apresentamtodos os detalhes formais do produto: cores, texturas, acabamentos, superficiais, transparência, inscrições, grafismos, etc. Os materiais empregados são diferentes dos especificados em projeto, mas devem representar fielmente as características formais do objeto. Já os modelosfuncionais podem representar o produto em sua totalidade ou em partes e podem ser construídos em escala natural, reduzida ou ampliada. Este tipo de modelo é utilizado para simulação de princípios funcionais, comoarticulações, encaixes, fechamento, ordem de montagem. Eles podem apresentar maior ou menor fidelidade com a aparência do produto e podem conter componentes elétricos, mecânicos e eletrônicos.

Os modelos operacionais servem para a verificação de como o produto será operado pelos usuários e permitem a simulação de seqüências operacionais, de condições ambientais e de interfaces com usuários. Eles e podem apresentar maior ou menor fidelidade com a aparênciado produto, assim como os modelos de ergonomia. Estes servem para testar soluções em simulações de uso, ou para levantar dados antropométricos e antropomorfos relacionados a uma tarefa para a construção de soluções de uso. Os protótipos são os modelos físicos mais próximos do produto final. Neles, são usados os materiais especificadosno projeto. Eles devem conter todos os componentes elétricos, mecânicos e eletrônicos do produto. Em sua construção são empregados os mesmos processos ou processos similares aos do produto final. Sua finalidade é avaliar a solução final, no que se refere aos desempenhos técnico,ergonômico e estético, em uma fase anterior da produção. Os modelos chamados de cabeça-de-série são conhecidos como modelos de pré-série ou de pré-produção construídos para a simulação de processos produtivos, para a análise de problemas de fabricação e ajustes na linha deprodução, como ângulos de canais de injeção, simplificação nos procedimentos de montagem, para garantir a melhor eficiência produtiva. (Bezerra, 2008)Na disciplina Modelos Tridimensionais ministrada no início do curso de Design ou na Modelos Físicos para Desenho Industrial, ministrada no Curso de Arquitetura e Urbanismo da FAU USP são experimentados quase todas as tipologias de modelos descritas acima, sendoque as duas últimas são aplicadas apenas para produtos de cerâmica, madeira e papel.A confecção dos modelos envolve principalmente oemprego de meios manuais e mecânicos com o uso de técnicas de modelagem, moldagem, construção, usinagem, fundição, e tornearia. Nestes processos, são utilizadas ferramentas como, formões, goivas, grosas, facas, estiletes, esquadros, raspadores, graminhos, esquadros,etc., além de equipamentos como: lixadeira, furadeira, fresadora, serra tico-tico, tupia, serra de fita, guilhotina, soldadores, etc. Os materiais são os mais variados: papel cartão, ondulado, pluma, madeiras maciças, MDF e compensados, placas ou blocos de isopor, PU, gesso, argila,plastilina, plásticos em lâminas (acetato, acrílico, PVC, PS), silicone, fibra de vidro, resinas poliéster, acrílicas, chapas metálicas de aço, latão, zinco, etc. (Lizandra, 2005). Estas atividades são desenvolvidas no LAME- Laboratório de Ensaios e Modelos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Como mencionado, procurou-se incentivar o desenvolvimentode projetos de produtos cerâmicos, visando àpossibilidade de se chegar à obtenção de protótipos ou até mesmo de modelos cabeça de série, que levam em consideração dados relevantes para a produção seriada.

Os produtos cerâmicos confeccionados por processos tradicionais apresentam baixa complexidade tecnológica. São produtos simples, compostos por poucos elementos. As partes são unidas logo após a conformação, antes da queima. Alguns produtos possuem tampas feitas do mesmo material e que são montadas para exposição no pontode venda ou quando são colocados em uso. Maior ênfase pode ser dada na compreensão da geometria das peças, no volume desejado, nos atributos estéticos, manifestados na forma tridimensional, no acabamento superficial, no uso de cores e nos recursos de decoração.

Os equipamentos necessários para a sua produção são, de certa maneira, bem acessíveis para as instituições de ensino superior, compreendendo: fornos cerâmicos, tornos de oleiro, bancada para colagem, laminadoras, extrusora,  bancada para gesso, balanças, misturadores, vidraria delaboratório, peneiras, aerógrafos, cabines de pintura, além de recipientes para armazenamento e para elaboração de misturas. A conformação das peças por colagem e até por tornearia exige a confecção de moldes de gesso, que são produzidos segundo conhecimentos e práticas bastantedifundidas e acessíveis. Os alunos contam com o apoio de técnicos e de roteiros detalhados dos procedimentos para garantir autonomia no trabalho. Ao propor o uso de materiais cerâmicos possibilita-seque o aluno organize o pensamento projetivo em função do comportamento do material na fase de conformação, como é apontado por Quinn (2007):

The type of clay you use affects the visual quality of the design. Each type of clay has its own qualities, and these should be taken into consideration during the design process. For example, earthenware is a stableclay, so it will be very faithful to your design after firing; alternatively porcelain contracts and shrinks a lot during the firing, so this needs to be taken intoaccount in the original design. (p. 68) As qualidades superficiais do material são levadas em consideração, tais como a coloração do corpo, sua aspereza, e densificação percebida, resultando na escolha de determinado tipo de massa cerâmica. A partir desta escolha, é necessário o levantamento de especificações e de informações sobre a porcentagem de retração total da massa cerâmica, assim como o grau de sinterização do

corpo obtido após a queima. Estes dados influenciarão no processo de execução de matrizes e moldes de gesso, compostos geralmente por várias partes ou tacelos para desenformar. A retração total de uma massa cerâmica refere-se à retração de secagem e de queima, devendoser compensada na confecção do modelo ampliado para obtenção do molde de gesso. A confecção da peça com volume maior resultará naquela de tamanho desejado no final do processo produtivo. As massas podem apresentar retração total variando de 10 a 25% em virtude do grau de sinterização, ou densificação. Estes valores são bastante elevados e seu desconhecimento resultará em objetos sem controle dimensional. A retração é passível de ser prevista como dado de projeto, mas a deformação só pode ser resolvida efetivamente na fase de testescom protótipos. Massas com alta porcentagem de fase vítrea provocam deformação da peça, ou seja, formas em balanço e com espessura fina tendem a baixar ou abrir. Também a forma idealizada pode interferir no grau de deformação da peça, pois formatos abertos e lisos tendema desabar ou apresentar maior deformação que aqueles contendo vincos e até mesmo estrias e relevos, que atuam como elementos estruturais, garantindo a manutenção da forma. (Aun, 2000)Todos estes conhecimentos são considerados durante o projeto. Os desenhos para produção consideram a retração e a possível deformação da peça. As matrizes de gesso são realizadas a partir destes desenhos. Com os desenhos e as matrizes é feito o planejamento para a construçãodo molde de gesso, em número de partes necessário para garantir a retirada da peça, evitando forçar a saída e provocar deformações que, mesmo quando corrigidas na peça crua, revelam o ocorrido após a queima, inutilizando-a. (Chavarria, 2006)Obtidos os moldes de gesso, é confeccionada a primeira série de protótipo, empregando-se processos de conformação por colagem de barbotina e/ou por tornearia de massa cerâmica plástica. Conformadas, as peças são secas, é dado acabamento e são submetidas à queima dobiscoito. A queima é realizada em forno elétrico, com atmosfera oxidante. Depois é feita a vidração e a queima do vidrado, para obtenção da impermeabilização da peça, assim como das qualidades de desempenho referentes à dureza, resistência mecânica e ao risco e das qualidadesestéticas de coloração, textura, propriedades ópticas e superficiais. (Aun, 2000)Foram utilizados a massa de faiança feldspática preparada na forma de barbotina e o vidrado opaco e brilhante em suspensão fornecidos pela Escola Senai Mario Amato. Esta escola forma técnicos para a indústria cerâmica no Brasil e realiza prestação de serviços para a comunidadeexterna. Assim, na aquisição dos materiais, foram fornecidas informações completas sobre características, propriedades e recomendações de uso, evitando a realização de ensaios prévios no laboratório da faculdade.

Em alguns casos a primeira série de protótipos produzida resulta satisfatória e o processo se encerra, mas em outros, são necessários ajustes nos desenho, matrizes e moldes, para garantir a não deformação, a facilidade de reprodução e a manutenção do formato e volume especificado. (Aun, 2000)Este processo parece penoso e fatigante para os alunos, mas ao fim do ciclo, passam a compreender as implicações dos materiais e processos produtivos no desenho de produtos, auxiliando a tomada de decisões durante o desenvolvimento do projeto. A compreensão do comportamentode uma categoria de material pode perfeitamente ser extrapolada e utilizada no projeto de outros produtos conformados na forma líquida ou plástica, como o vidro e o plástico.

A disciplina Modelos Físicos para o Desenho Industrial também conta com a proposição de um tema para motivação de reflexões quanto ao uso de determinados produtos e sobre costumes e comportamentos sociais nodesenrolar de atividades cotidianas. A temática trabalhada na disciplina envolveu o desenvolvimento de um kit de alimentação para viajem de uso individual, abordando questões sobre a necessidade de se comer fora de casa, o tempo exíguo disponível que desincentiva o preparo dealimentos no ambiente doméstico, a disponibilidade de produtos alimentícios para suprir esta falta e mudanças de hábitos e ritos relacionados ao comer. De acordo com Wild e Reble (2006) “takeaway food is symptomatic of our fast and furious modern lifestyle, with all its advantages and disadvantages –as necessity or absolute convenience,as an excuse for vulgar displays of public eating, as a socioenvironmental and aesthetic phenomenon” (p. 4). Este tema proposto está alinhado à familiaridade dos alunos com o problema enunciado em razão das necessidades de estudo e/ou trabalho que eles vivenciam oupresenciam, favorecendo a análise e a crítica acerca de produtos similares de que fazem, aumentando a capacidade de percepção de falhas ou demandas para projetação de melhorias. Sobre aspectos de design ligados a esta realidade Wild e Reble (2006) apontam que:

Fast food and takeaway, and their close relatives chain catering and convenience food, have always stood for efficiency and convenience. What we eat has no doubt changed and developed, but even more so, how, where, and with what we eat. In combination these factors determine the appearance and function of a whole world of objects, the contents of whichhave long ceased to be merely stop-gap solutions. Paradoxically, as our functional and aesthetic expectations of the equipment continue to grow, so too does our tolerance of what´s acceptable when it comes to eating: anything goes- anywhere and anytime. (p. 5)

Foi apresentado o briefing para os alunos contendo informações sobre o que este kit deveria conter: recipiente raso e/ou fundo para alimento, recipiente para bebida, talheres e invólucro, sendo que um dos objetos deveria ser de cerâmica. Deveria ser considerada a capacidadede compactação das peças, a possibilidade de formação de família de produtos ou de composição de elementos recorrendo-se a princípios de configuração e de coerência formal, assim como preocupações com a segurança e o transporte. Manter todas as peças do kit agrupadastambém era uma das premissas. Wake (2000) apresenta razões para inserção de objetos dentro de outros e a partir daí dispõe de cinco modalidades de princípios de organizações formais.

One motivation for placing objects within objects is protection. (…) Other motivations include convenience, minimizing space requirements, and avoiding loss of small parts. These benefits are evident in such applications as a nested screwdriver set that can be handled as a single unit by nesting the smaller screwdriver inside the larger. (p. 223)

Conclusões

Disciplinas que abordam a temática de Modelos Tridimensionais são fundamentais para o processo de aprendizagem da atividade projetual em Cursos de Design, pois estes modelos fazem parte do desenvolvimento deprojeto do produto, são representações simplificadas do produto a ser produzido e têm como função comunicar uma proposta para solucionar um problema de projeto e gerar alternativas que serão verificadas e selecionadas, até resultar na sua fabricação. É importante que os alunosse acostumem a construir variados tipos de modelos para a verificação e validação das soluções geradas. A solicitação de desenvolvimento de projetos de produtos feitos de cerâmica é uma oportunidade de fazer com que o aluno passe por todas as etapas do processo de projeto, findando com a produção dos protótipos, que pode exigir a confecção de algumas séries, até a sua aprovação. Este é processo que parece ser penoso e frustrante para eles, principalmente quando o protótipo é rejeitado,mas no final, é entendido que não se trata de falha, mas é característica inerente a esta atividade. Em debates realizados com alunos, percebeu-se que a estratégia de especificação de material cerâmico para o produto a ser  projetado favorece a compreensão das implicações dosmateriais e processos produtivos no seu desenho, e que tais conhecimentos adquiridos nesta experiência podem ser extrapolados e utilizados em projeto de produtos feitos com outros materiais. Já, segundo eles, a realização de modelos de aparência por processos de construção edesbaste propiciam a maior facilidade de planejamento e ordenação de ações empregadas na modelagem virtual 3D em programas como Rhinoceros. No final do curso, os alunos lamentaram não saber antes algumas coisas que poderiam ter ajudado no desenvolvimento do projeto edos modelos, mas afirmaram que a experiência foi válida, servindo de referência para outros projetos. A partir deste tipo de afirmação, foi possível esclarecer a eles que esta percepção geral evidencia e valida o processo de ensino e aprendizagem empregado, já que ocorreu mudançaqualitativa na compreensão da complexidade da atividade projetual, ao facilitar o planejamento de ações e estimular o emprego de procedimentos sistemáticos de geração e avaliação de alternativas. Apesar de estas disciplinas exigirem muita dedicação e trabalho, o resultado foi satisfatório para os alunos, havendo manifestação de desejo de dar continuidade a estas atividades de projeto em outras disciplinas ou em iniciação científica.

Referências

Aun, C R. (2000) Proposta de uma metodologia de projeto para louça utilitária de uso doméstico. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo. 

Chavarria, J. (2006) Moldes. Barcelona: Parramon Ediciones S.A.

Lizandra, J L N. (2005) Maquetas, modelos y moldes: materials y técnicas para dar forma a lãs ideas. Castelló de La Plana: Publicacions de La Universitat Jaume.

Menezes. J. B. (org.) (2008) O uso de modelos tridimensionais em projeto de produto. Apostila organizada para o Curso de Design, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Quinn. A. (2007) The ceramics design course. Principles, practices, techniques. London: Thames & Hudson.

Wake, W. K. (2000) Design paradigms: a sourcebook for creative visualization. New York: John Wiley & Sons.

Wild, N., & Reble, C. (Coord.) (2006) Take away. Design for eating on the move. Zürich: Museum für Gestaltung Zürich.

Abstract:

This work refers to the teaching strategy adopted for Physical Models in Industrial Design career, Studied at FAU USP. For information and make decisions during the working process, the models are understood as tools of the project, constructed for concept generation, analysis and selection of alternatives. Ceramic material was used due to the low technological complexity, ease of production and the specificities of the production process, allowing students to contact with various types of models, from the preliminaries to prototyping, favoring the learning process of the project.

Key words:

Models - Ceramic - Teaching - Project - Industrial Design.

Resumo:

Este trabalho refere-se à estratégia de ensino adotada na disciplina Modelos Físicos para Desenho Industrial, ministrada na FAU USP. Para a obtenção de informações e tomada de decisões durante o processo de trabalho, os modelos são entendidos como ferramentas de projeto, construídos para a geração de conceitos, análise e seleção de alternativas. Foi utilizado o material cerâmico devido à baixa complexidade tecnológica, facilidade de obtenção e às especificidades do processo produtivo, permitindo aos alunos o contato com várias tipologias de modelos, desde os preliminares, até os protótipos, favorecendo o processo de aprendizagem de projeto.

Palavras chave:

Modelos - Cerâmica - Ensino - Projeto - Desenho Industrial.

(*) Cristiane Aun Bertoldi.

Doutorado em Arquitetura e Urbanismo na área de Design e Arquitetura pela Universidade de São Paulo, FAU USP, Brasil. Mestrado em Arquitetura e Urbanismo - Universidade de São Paulo, USP. Graduação em Licenciatura em Artes Plásticas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA USP, Brasil.

(**) El presente escrito fue presentado como conferencia dentro del Tercer Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño (2012). Facultad de Diseño y Comunicación, Universidad de Palermo, Buenos Aires, Argentina.


Cerâmica e ensino de modelos físicos como ferramenta de projeto fue publicado de la página 45 a página50 en Actas de Diseño Nº17

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