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Somos todos um

Ferrari, Débora Cristina; Pereira de Andrade, Ana Beatriz

Actas de Diseño Nº21

Actas de Diseño Nº21

ISSN Impresión 1850-2032
ISSN Online: 2591-3735
DOI: https://doi.org/https://doi.org/10.18682/add.vi21

XI Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” VII Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño Julio 2016, Buenos Aires, Argentina

Año XI, Vol. 21, Julio 2016, Buenos Aires, Argentina | 258 páginas

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Resumen:

Con el objetivo principal de llevar la buena energía a aquellos que tienen contacto con esta investigación, una forma simple y ligera, “Todos Somos Uno” se basa en estudios de los conceptos de la naturaleza, la sencillez y la espiritualidad. Fue desarrollado en conjunto con los niños de la Escuela Viver - Waldorf Bauru, São Paulo. Las herramientas metodológicas tuvieron por principios la posibilidad de educar con el Diseño, el Diseño Social y la Cartografía como método descriptivo. El amor, el afecto, la atención, el respeto, la Filosofía, la Sociología, Pedagogía, entre otros sabores y aromas, se mezclan y entrelazan en una rica red llena de intercambios, experiencias y evolución.

Palabras clave:

Diseño Social - Emoción - Educación - Diseño - Simplicidad - Espiritualidad - Naturaleza.

1. Introdução

No princípio, acreditava-se que fosse muito difícil desenvolver um estudo desvinculado de paixões e crenças.

Inevitavelmente, uma pesquisa que se pretende sincera reflete quem somos. Desta forma, as referências iniciais foram bastante pessoais.

Em um mergulho interior deveras profundo, e fazendo uma intensa reflexão, definiu-se três conceitos básicos: Natureza, Simplicidade e Espiritualidade.

A percepção foi a de que esses três conceitos estão intimamente interligados. Por exemplo, quando observa-se o Sol nascer, em meio à Natureza, no silêncio de um bosque, energias vitais são recarregadas e o espírito se fortalece.

Trata-se de um momento tão simples, mas tão valioso e rico, que faz o ser humano se sentir em Harmonia consigo mesmo, com todos os seres e com o Universo, transbordando Paz e Amor. São momentos como esse que fazem valer a vida. Momentos nos quais Natureza, Simplicidade e Espiritualidade se unem e se misturam, em uma única sensação de profunda Harmonia, Reverência e Gratidão.

A pesquisa pretendeu, principalmente, trazer boas energias aos que com ela tenham contato, de uma forma simples e leve, como deve ser com tudo o que é verdadeiro e essencial, contagiando as pessoas com a alegria e a ingenuidade que considero atitudes naturais das crianças.

Durante a pesquisa, em diversas visitas a campo, buscouse elementos e alimentos para somar e formar o presente estudo, em valiosas experiências.

No desenrolar do processo, tratou-se da Simplicidade.

Uma forma de crítica à sociedade materialista do consumo, evidenciando a importância do retorno ao Simples.

A ligação do ser humano com a Natureza também é objeto de pesquisa. Tratar-se-à o Respeito, termo aparentemente corriqueiro, mas que merece um olhar mais atencioso. Há reflexões sobre o Cuidado, conceito de suma importância, muito explorado por Leonardo Boff. Outra questão é a Espiritualidade, a importância de encontrar a Paz de Espírito e viver de fato uma vida feliz e harmoniosa, tornando-nos verdadeiramente Seres de Luz.

Expõe-se a Teoria do Ator-Rede, de autoria de Bruno Latour em interação com a Cartografia Sentimental, tal como proposta por Suely Rolnik, no sentido de que se trata de uma pesquisa teórica e prática no campo do Design Social com Emoção, que busca, entre outros objetivos, expressar a importância da Natureza, a beleza da Simplicidade, e a magnitude da Espiritualidade.

A grande conclusão foi a de que a mudança que queremos ver começa na raiz: as crianças. Conceitos de Paulo Freire e Rudolf Steiner são abordados para esclarecer alguns pontos e levantar novas reflexões.

Pode-se imaginar alguns desdobramentos possíveis, mesmo acreditando que nesta primeira etapa a primeira intenção tenha sido cumprida. Pretende-se que os resultados atingidos possam seguir desenrolando-se e evoluindo, tal qual as nossas vidas.

2. Desenvolvimento

2.1. Simplicidade

Refletindo sobre o mundo ao redor, considerando a sociedade, os valores e costumes, nota-se que muitos pontos importantes foram abandonados ou substituídos por outros. Preocupa-se tanto com status social, o ter sempre antes do ser, que o básico foi considerado ultrapassado.

Como por exemplo: Respeito, Ética, Simplicidade, Humildade, Amor.

A alegria ao ver um belo pôr-do-sol, o desabrochar de uma flor, o amadurecer de um fruto foi perdida. Em troca de que? Carros mais possantes, celulares que executam mais tarefas, e assim por diante. Trata-se de uma troca inteligente? Viver a mercê do capitalismo desenfreado pode resultar em tornar-se um escravo desse sistema.

Para amenizar esse avanço –que em alguns aspectos mais parece um retrocesso–, precisamos, antes de tudo, ser otimistas. Muitos são os grupos que já se organizam em função de refletir sobre questões como essas, discutir os rumos que o Planeta irá tomar se continuarmos produzindo tanto, consumindo tanto, sendo tão pouco gratos, e destruindo nosso maior bem: a Vida.

Inovações tecnológicas sem dúvida são importantes para a evolução da espécie humana, mas, somente são válid as se visarem o bem e a felicidade. Continuar criando necessidades ou mesmo objetos que só atrapalham a nossa vida é um atraso, não uma evolução.

De nada adianta evoluir deixando para trás o básico, o que já foi aprendido há muito tempo: simplificar as coisas. Pode ser o momento de revermos nossa forma de enxergar o mundo, em cada detalhe.

2.2. Natureza

Com o desenvolvimento e evolução da espécie humana, boa parte de sua ligação com a natureza foi deixada para trás. Nos tornamos “civilizados”, perdendo o grande contato que tínhamos com questões relacionadas à natureza.

Com o Pós-Guerra, houve a necessidade de desenvolver uma nova forma de sociedade, onde termos como lucro, desejo, consumo, dinheiro, ganância, começaram a prevalecer.

Questões como ser ou não civilizados são bastante subjetivas.

Talvez, sob um olhar tecnológico, o ser humano moderno possa ser mais civilizado que um indígena, por exemplo, ambos vivendo na mesma época. Porém, um ser humano que mata seu semelhante sem motivo, que, ingrato, destrói a natureza a sua volta, e visa sua própria comodidade, sem dúvida é mais “primitivo” que um indivíduo que, mesmo ao caçar, tem a consciência de tratar-se de um ato de sobrevivência, sempre com muito respeito e gratidão, com o sentimento do todo coletivo, do viver de fato em sociedade.

O índio não consegue imaginar-se como sendo parte isolada à Terra. Ele se vê como parte integrante ao planeta, juntamente com os outros homens, os animais, os vegetais, o vento, as montanhas, a natureza como um todo.

Uma grande e bela teia da vida, onde todos vivem em comunhão, conscientes de seu papel em um todo maior.

Falta ao ser humano um retorno as suas raízes, para, quem sabe, aprender com eles o que nunca deveria ter sido esquecido: somos um com a Natureza. Somos parte d´Ela. Somos seus filhos.

2.3. Somos Todos Um

Pensando sobre essas questões, e em como o ser humano torna-se um ser manipulador e manipulável, chega-se à conclusão de que o progresso material desenfreado e desequilibrado destrói a natureza e o caráter, gerando arrogância e ganância. Essa atitude leva o homem a se auto-afirmar dono do mundo, resultando em destruições e modificações ao nosso redor, conforme vontades próprias e visando sempre o lucro.

Valores são mutáveis, evoluem e se transformam de acordo com a época, mas alguns nunca poderão faltar. Frente a essas questões, todos sabemos: é hora de mudar. Hora de refletir com sabedoria para manter alguns valores e resgatar outros.

2.4. Respeito

A arrogância do ser humano moderno o leva a crer que a espécie humana é superior a todas as outras espécies.

Assim, destrói e devasta a natureza pelo seu próprio prazer e benefício, em um pensamento absurdo segundo o qual a natureza foi criada para o seu uso.

Viver em sociedade implica ser sociável. E tratar o próximo com respeito é o básico para se viver uma vida em harmonia. Sábio é aquele que consegue colocar-se no lugar do outro em qualquer situação; assim, jamais faria para o outro o que não gostaria que fizessem para si próprio.

Tratar com respeito todas as coisas é sentir-se parte integrada do Universo. Se todos vieram da mesma origem, não importa se somos animais, vegetais ou, até mesmo, minerais. Desrespeitar outro ser, humano ou não, é inadmissível.

Respeitar e ser respeitado é direito de todos.

2.5. Cuidado

O avanço tecnológico propõe-nos, cada vez mais, uma vida artificial e superficial, de modo que não mais temos contato com as formas sensoriais mais simples, como o toque, o cheiro, a sensação da cor. Com isso, observa-se uma desvalorização pelas coisas mais simples, pelos pequenos momentos mágicos da vida.

Observa-se cada vez mais descuido, descaso, abandono e desapego às coisas sagradas e importantes. É preciso fazer com que a humanidade volte a valorizar a Vida.

Para isso, o caminho deve ser baseado na Simplicidade e no Cuidado.

Leonardo Boff, em seu longo estudo sobre o cuidado, alerta:

O cuidado é tão fundamental que foi visto pelos gregos como uma divindade. Divindade que acompanha o ser humano por todo o tempo de sua peregrinação terrestre. Onde há cuidado, aí desabrocha a vida humana, autenticamente humana. Onde está ausente, aparece a rudeza, o descaso e toda sorte de ameaças à vida. (Boff, 2012)

É preciso, assim, recuperar o senso afetivo das coisas.

Uma vez que as máquinas foram construídas com o propósito de produzir, mudemos o paradigma para uma produção do que é efetivamente necessário. A principal matéria-prima da vida do ser humano deve ser o cuidado! Ser cuidadoso em tudo o que faz, para com todos os seres é pensar cautelosamente em tudo; é ter paciência, sabedoria e calma em cada ato, é pensar de forma sustentável.

Sustentabilidade não se trata simplesmente de não consumir, mas consumir com responsabilidade.

2.6. Espiritualidade

Quando o ser humano começa a distanciar-se dessa noção de Todo, preocupando-se excessivamente somente consigo mesmo e com o acúmulo de bens materiais, a sociedade torna-se cada vez mais superficial. As pessoas esquecem-se de aspectos importantes como, por exemplo, a espiritualidade.

Vale dizer que Espiritualidade é um conceito bastante diferente de religiosidade. A religião foi criada pelos homens como uma forma de manter a espiritualidade, tratando-se de algo puramente subjetivo e cultural. Já a Espiritualidade é um conceito bem mais abrangente. Se espiritualidade vem de espírito, sem ela, não existiríamos.

E, por outro lado, se existimos, temos Espirituali dade, mesmo que não acreditamos ou a pratiquemos.

É preciso desacelerar, fugir dos maus hábitos, abstrair.

Ver o mundo no qual vivemos de longe, em uma visão holística. Refletir e simplificar: o ser humano não precisa de tudo isso para viver.

Segundo Boff, em meio a tais situações, buscam-se novas alternativas e visões de mundo. Uma delas denomina-se Espiritualidade cósmica, segundo a qual todos pertencemos a um grande todo.

Não é mais o mundo fechado e mecânico da Cosmologia vinda de Newton e Galileu Galilei. Mas é uma visão dinâmica que vê todas as coisas emergindo a partir de um imenso processo de evolução, carregado de energias e informações e, principalmente, de propósito.

(Boff, 2009)

Este olhar interior é um hábito tão importante porque só ao voltar-se para dentro podemos sentir a Paz de sermos um com o Todo e tratar a todos os seres com Respeito e Amor.

2.7. Um pouco de metodologia

A fim de melhor organizar todas as ideias e reflexões do projeto, diversas referências foram consultadas. Dentre elas, Bruno Latour, um filósofo e sociólogo francês, fortemente influenciado por Michel Serres. Realizou estudos etnográficos na África e na América, e é o principal nome da Teoria do Ator-Rede (T.A.R.), do inglês, Actor Network Theory (A.N.T.).

Fazer um estudo baseado no Ator-Rede é ser como formiguinhas: ir pelos caminhos mais alternativos, buscando sempre novas descobertas. É olhar para baixo, para cima, para o pequeno, para o detalhe que poucos veem, mas que faz absolutamente toda a diferença.

A T.A.R. é considerada pelo próprio Latour bem mais como um método do que como uma teoria. Trata-se de uma forma de estudar as relações entre o ser humano e os acontecimentos, objetos e materiais com os quais interage, mantendo-se sempre aberto e em constante movimento e modificação.

Dentro da cartografia sentimental, Suely Rolnik nos ensina: “Não é possível definir seu método (nem no sentido de referência teórica, nem no de procedimento técnico), mas, apenas, sua sensibilidade” (Rolnik, 1989).

Assim, por mais que para tudo haja uma metodologia, ela pode ser sensível e afetiva. Acredito que tudo o que fizermos deve ser feito com cuidado e amor. Assim, pretende-se, sobretudo, que a metodologia do projeto seja uma viva demonstração de Amor, Cuidado e Delicadeza.

2.8. Então, o que deve mudar?

Parar para refletir sobre algo é sempre um exercício necessário. Enquanto estamos em ação, não nos damos conta de muitos aspectos.

Quando o ser humano se vê como dono de tudo, até mesmo do planeta e dos outros homens, começa a perceber que o seu dinheiro pode comprar tudo, numa visão extremamente materialista.

Viver uma vida baseada na Simplicidade, no Amor, no Cuidado e no Respeito. Esse pode ser o Caminho.

Gandhi nos ensinou que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Ela só será completa e verdadeira se for total e se começar por nós. Em uma sociedade cujos valores encontram-se bastante distorcidos, o que pode-se esperar das gerações futuras?

2.9. Libertar a mente

É preciso mudar a forma de percepção do mundo, parar e fazer uma longa e profunda reflexão. É chegada a hora de fazer uma revolução: a Revolução do Amor.

Libertar é um ato revolucionário e, para que toda e qualquer revolução aconteça, é preciso amor.

Depois de muita reflexão, conclui-se que a revolução deve começar na infância, nos primeiros anos de desenvolvimento do ser humano. Mas, para isso, não basta o governo investir mais em educação. É preciso haver uma mudança radical e profunda no modelo educacional em voga, uma mudança nos métodos pedagógicos e na forma de encarar a educação.

É preciso ensinar pelo exemplo, com amor, educando nossas crianças de forma a humanizá-las, tornando-as cidadãos pensantes de fato, e não meros cumpridores de ordens. Uma criança educada para refletir efetivamente sobre o que aprende, com uma Educação baseada no amor e no respeito, torna-se um adulto iluminado, que faz a diferença no mundo. É preciso que a educação seja vista como prática da liberdade, como nos ensina Paulo Freire.

Tornar uma população culta (desde a sua mais nova formação, no caso das crianças) é, para os dominantes e opressores –formas de governo totalitárias, professores, todo e qualquer tipo de sistema ditatorial–, uma espécie de ameaça ao poder dos mesmos.

Hoje, a educação já se apresenta mais acessível para alguns, mas ainda trata-se de uma realidade bastante distante para muitos outros, principalmente em países subdesenvolvidos, ou que ainda são regidos por políticas totalitárias.

Libertar o ser humano é, antes de qualquer coisa, libertar sua mente. Somente um ser humano livre para pensar e refletir é um ser humano verdadeiramente livre para agir.

2.10. A mudança está nas crianças!

Mais do que isso, está em uma mudança de paradigmas, de modo a voltar a enxergar o mundo de uma forma holística, segundo a qual, eu e o outro somos um. Isto, juntamente com a natureza e o Universo, feitos da mesma Energia, física e cosmologicamente falando.

Em um profundo sentimento de Comunhão, a educação deve-se fazer com as crianças, e não para elas. A prática pedagógica deve ter caráter humanizador, de forma que o diálogo seja constante e freqüente. Trabalhar com educação envolve pessoas, e não objetos. Cada ser é único, dotado de vontades, opiniões e sentimentos.

Em uma visão geral da prática pedagógica, também podemos denotar opressor e oprimidos. O professor (opressor) faz o papel de detentor de todo o conhecimento, enquanto os alunos (oprimidos), os que nada sabem, tudo aceitam e nada questionam. Trata-se de um método de ensinar para os alunos, e nunca com eles.

O resultado de uma educação distorcida, onde um fala mais alto e os outros obedecem, reflete na sociedade. As crianças que foram educadas a sempre obedecer em pouco tempo tornar-se-ão adultos: oprimidos ou opressores.

Criadas para sempre obedecer a regras impostas por outrem, crescem tendo uma visão mecanicista, materialista, utilitarista –e bastante ilusória– do mundo, que os leva a tratar as pessoas como coisas, pensando-se donos das mesmas e da natureza, podendo utilizar e beneficiar-se de seus recursos infinitamente, em um processo denominado coisificação do mundo.

Quando os alunos são verdadeiramente chamados a participar e dar a sua própria opinião sobre o assunto tratado, estabelecendo-se um diálogo professor-aluno, aí sim o aluno torna-se também um investigador crítico, interessando-se efetivamente pelo assunto e dando também sua contribuição em relação ao mesmo. Trata-se de um método pedagógico verdadeiramente reflexivo, pois, problematizando-se o mundo, os alunos se sentem desafiados a saber cada vez mais, o que desenvolve um senso crítico que os tira da alienação e os torna cada vez mais engajados.

Uma criança bem educada torna-se um adulto iluminado, que leva também Luz para as outras pessoas, criando um bonito ciclo de Amor.

2.11. Em busca do grupo social e a pedagodia Waldorf

Depois de muita pesquisa, principalmente a partir de autores como Leonardo Boff e Fritjof Capra, chega-se à conclusão de que as questões de desrespeito, falta de cuidado e amor tratam-se de algo muito mais profundo, que começa nos primeiros anos do desenvolvimento do ser humano, tendo a criança uma capacidade muito ampla em aprender e apreender. Assim, fui buscar métodos pedagógicos.

Fritjof Capra fala em Ecoalfabetização, ou seja, criar ambientes sustentáveis com uma nova forma de alfabetização.

Paulo Freire, com suas teorias de humanização e libertação do ser humano muito interessou e fez querer aprender mais. Foi então que tomei conhecimento da Pedagodia Waldorf, cuja metodologia apresenta diversos aspectos abordados na pesquisa para o presente projeto, em questões que tratam da criança em sua relação com a arte e a natureza.

Em 1919, Rudolf Steiner (1861-1925) foi o responsável pela criação dessa metodologia pedagógica, em Stuttgart, na Alemanha.

Para Steiner, a constituição humana seria composta por três formas de expressão: o corpo, as emoções e a mente, correspondendo às funções de querer, sentir e pensar, respectivamente. Assim, o método Waldorf propõe atividades para desenvolver igualmente todas essas funções, acabando por promover que o ser humano torne-se equilibrado e coerente.

A pedagogia, bastante livre e revolucionária até para os dias de hoje, preza pelo desenvolvimento da criança no seu tempo correto, respeitando o processo de aprendizagem.

Assim, tudo é feito com calma, amor e respeito.

Além das disciplinas convencionais, como matemática e geografia, as escolas que adotam a metodologia em questão contam ainda com aulas de música, jardinagem, trabalhos manuais, culinária, teatro, entre outras. O objetivo da escola é o de preparar o aluno para a vida, não apenas para o mercado de trabalho ou para o vestibular.

O currículo Waldorf tem se mostrado mais rico e completo que os utilizados pelos métodos convencionais de ensino, por incentivar a arte, os valores morais e a espiritualidade. Em resumo, o educando aprende que o mundo é bom, belo e verdadeiro, em um profundo sentimento de gratidão, amor e respeito pela natureza e tudo o que o cerca.

2.12 Diário de bordo: experiências de campo e 

vivências

Tão importante quanto a conclusão do projeto foi o processo do mesmo, bastante rico e que me trouxe uma enorme evolução. Diversos caminhos foram percorridos, em várias tentativas de “dar forma” ao projeto, nessas fases ainda bem abstrato e teórico.

Com o caderninho sempre à mão, nenhuma anotação se perdeu.

2.12.1 Assentamento de Aymorés, Bauru/SP

O primeiro lugar visitado, a fim de consolidar o projeto, foi o Horto Aymorés, um assentamento sem-terra na divisa de Bauru com Pederneiras/ SP.

O contato inicial se deu em 23 de março de 2013, cujo objetivo era o de encontrar uma comunidade que colocasse em prática o que havia sido pesquisado teoricamente: questões de simplicidade, respeito pela natureza, sempre levando em conta a espiritualidade.

No grupo, houve o contato com o Seu Toninho, agricultor familiar, com aproximadamente 70 anos de vida, acostumado desde sempre a trabalhar com a terra, embora morasse na cidade. Envolveu-se com o Movimento Sindical, sempre voltado à agricultura, buscando, junto com seus companheiros, organizar uma reforma agrária e conseguir um pedaço de terra para produzir e sustentar a família.

Filiou-se à CUT (Central Única dos Trabalhadores), mais precisamente à FAF (Federação da Agricultura Familiar), e, durante quatro anos, juntamente com outros amigos, lutaram para serem definitivamente assentados. Em 2007, para alegria e alívio de todos, finalmente conseguiram seu pedacinho de terra, localizado no interior de São Paulo, mais precisamente entre Bauru e Pederneiras, onde diversos grileiros exploravam ilegalmente a terra.

O assentamento, nomeado Horto Aymorés, foi dividido entre mais de cento e oitenta famílias.

Depois desse contato inicial, diversas outras visitas foram feitas ao Seu Toninho e inúmeros foram os ensinamentos aprendidos com ele: o amor que ele tem para com a terra, o cuidado com o qual o mesmo lida com tudo ao seu redor, o respeito e a gratidão às dádivas da mãe natureza, e sempre a sabedoria para usar seus recursos com a devida atenção.

O mundo precisa de mais pessoas como Seu Toninho: mãos sujas de terra e coração purificado pela natureza.

2.12.2. Tribo Guarani - Nimuendaju, Avaí/SP

Na manhã de 27 de Julho de 2013, houve visita a uma tribo indígena guarani em Avaí, SP, chamada Nimuendaju.

Nos encontramos com um dos moradores, professor bilíngue de português e guarani, o Tiago, bem como com o Cacique, Claudino.

A ideia inicial era, a partir de referências bibliográficas, ter uma vivência prática com os indígenas, pois poderiam ser uma forte representação dos conceitos que abordo – Natureza, Simplicidade e Espiritualidade, nos melhores sentidos dessas palavras.

A visita foi bastante interessante para conhecer um pouco mais de sua cultura e da região na qual habitam, e para somar a presente pesquisa.

2.12.3 Escola Viver Waldorf, Bauru - São Paulo

A primeira visita à Escola Viver aconteceu no dia 28 de junho, uma sexta-feira pela manhã. Lá, houve o primeiro contato com a professora Elaine Facchim, responsável pelas aulas de música, que discorreu sobre muitos conceitos da metodologia Waldorf e da Antroposofia, bem como apresentou as instalações da escola. Foi paixão a primeira vista.

A escola conta com ensino infantil, fundamental e médio, e atende cerca de 334 alunos.

Depois de vários contatos por e-mail, foram marcadas datas para efetivamente começar a parte prática da pesquisa que incluía registros fotográficos. No total, foram 1067 fotografias, acompanhando as atividades de alunos do maternal ao 3º ano (1 a 9 anos, aproximadamente), em aulas de agricultura, artes, euritimia, música, jogos, culinária, formas e o simples ato do brincar livre.

3. A escolha final - Ensaio fotográfico

Entre aldeia indígena e assentamento sem-terra, diversas outras experiências foram vividas. Quando se está dentro de uma pesquisa, mergulhado nela, tudo vira inspiração e, de alguma forma, em muito contribui. Todas as visitas e momentos foram de suma importância para levar a pesquisa ao rumo que a mesma tomou.

Depois de tanta pesquisa e muito aprendizado, chegouse à conclusão de que a Escola Viver Waldorf seria a comunidade que melhor expressaria os conceitos que a pesquisa pretendia abordar. Essa conclusão, porém, não seria alcançada se todo esse caminho de vivências não tivesse sido percorrido.

Dessa forma, deu-se início à parte prática: foi realizado um ensaio fotográfico na Escola Viver Waldorf, captando momentos de crianças de 1 a 9 anos durante as aulas, atividades e brincadeiras.

A fotografia é uma paixão que é acompanhada há tempos, mas que a cada ano se afirma e evolui. Acabou sendo uma forte aliada para retratar com precisão todos os sentimentos bons que as crianças nos transmitem.

As imagens captadas retratam a simplicidade, leveza e ingenuidade próprias da infância, bem como o cuidado e o amor que as crianças têm para com a natureza.

Os momentos de troca com as crianças foram deveras prazerosos e de grande aprimoramento espiritual.

Trabalhar com crianças é algo muito gratificante e que me encheu de alegria e Luz.

4. Conclusão

Depois de tantas reflexões teóricas e inúmeras vivências práticas, surge uma questão: qual a contribuição que podemos, como designers, dar ao mundo? O Planeta Terra passa por momentos difíceis, e, como somos filhos da Terra, os enfrentamos também.

Leonardo Boff nos ensina que ser sustentável não é somente falar sobre sustentabilidade. É preciso viver de forma coerente, de modo que a sustentabilidade seja tratada como filosofia de vida. Tratar a natureza, o outro, o planeta, tudo de forma sustentável. Ou seja, com amor, carinho, respeito, cuidado, afeto.

Não só os designers ou outros profissionais das mais diversas áreas, mas todos os seres humanos devem adotar o sentimento do Todo. É preciso adotar, de uma vez por todas, a visão holística de que todos somos feitos dos mesmos elementos químicos; viemos e retornaremos para o mesmo lugar, seja ele qual for.

Na presente pesquisa, especificamente, o grupo social escolhido foram as crianças, porque acreditou-se que seja mais correto educar logo nos primeiros anos de vida, de forma que os próximos passos como adulto sejam naturais.

Desse modo, a função do designer agora é projetar novas formas de pensar, formas de educar. Acredito que o caminho seja o do afeto e do amor. É aí que entra o Design and Emotion, uma forma de projetar buscando emocionar as pessoas, com afeto, alegria e sentimentos positivos.

Tudo o que você faz, fala e pensa volta para você de alguma forma. Por isso, é importante que tenhamos somente pensamentos e fisionomia alegres, ajamos de forma bondosa e falemos apenas de coisas boas.

Assim, compreendeu-se que de nada adianta apenas criticar sem trazer contribuições positivas. Paralelamente, em Somos Todos Um, diversas questões negativas são apontadas, principalmente no modelo de sociedade, mas essas servem apenas para que haja reflexão e vontade de mudança. Os pontos positivos também são mostrados, principalmente retratados na docilidade e ternura da infância.

A pesquisa teve como principal objetivo levar alegria para as pessoas que com ele tenham contato, acima de tudo com um sentimento de simplicidade e leveza, criando uma atmosfera de energia positiva.

Pretende-se também que haja profunda reflexão, e que passemos a nos questionar mais, principalmente sobre as nossas atitudes.

Quando vivemos algo de fato, o sentimos e, assim, internalizamos aquilo em nós. O sentimento com que concluo o projeto é o de mais profunda gratidão: pelas oportunidades, pelo imenso aprendizado, pelas pessoas que conheci, pelos momentos que passei, principalmente no contato com as crianças, gratificante e intenso.

Sem as pessoas que trilharam esse caminho ao meu lado, mais ou menos presentes, o projeto jamais ganharia forma.

Eterna Gratidão.

Sigo concluindo que nada tem começo ou fim, mas, coexisitindo, evoluímos juntamente com todos os processos que nos cercam na bela e fascinante Teia da Vida.

Somos Todos Um!

Referências

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Boff, L. (2012). A Águia e a Galinha: uma metáfora da condição humana. (49. ed.). Petrópolis: Vozes.

Boff, L. (2009). Meditação da Luz: o caminho da simplicidade. Petrópolis: Vozes.

Boff, L. (2006). Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. (18. ed.). Petrópolis: Vozes.

Capra, F. (2006). A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix.

Capra, F. (2207). Alfabetização Ecológica: A educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix.

Capra, F. (1982). O Ponto de Mutação: A ciência, a sociedade e a cultura emergente. (25. Ed.). São Paulo: Cultrix.

Freire, P. (2005). Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Lanz, R. (1998). A Pedagogia Waldorf: Caminho para um Ensino mais Humano. (6a. ed.). São Paulo: Antroposófica.

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Latour, B. (2001). A esperança de Pandora. Bauru: EDUSC.

Latour, B. (2004). Políticas da Natureza: Como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC.

Maturana, H. (1998). Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG.

Rolnik, S. (1989). Cartografia Sentimental: Transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade.

Sennett, R. (2004). Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual. Rio de Janeiro: Record Sociedade Antroposófica No Brasil. Pedagogia Waldorf. Disponível em: http://www.sab.org.br. Acesso em: 05 de junho de 2013.

Steiner, R. (1923). A Prática Pedagógica. São Paulo: Antroposófica.

Abstract:

With the main goal of bringing good vibrations, in a simple and light way, to the ones who get in touch with this research, “We Are All One” is based on studies over the concepts of Nature, Simplicity and Spirituality. It was developed together with children who study at Escola Viver - Waldorf, in Bauru, countryside of São Paulo. The methodological tools have their principles on Social Design and Cartography as descriptive methods. Love, Affection, Care, Respect, Philosophy, Sociology, Pedagogy, among other learnings and tastes, are mingled and interconnected into a rich web full of exchanges, experiences, and evolution.

Key words:

Social Design - Emotion - Education - Design - Simplicity - Spirituality - Nature.

Resumo:

Com o objetivo principal de trazer boas energias aos que tenham contato com esta pesquisa, de uma forma simples e leve, “Somos Todos Um” tem base em estudos a partir dos conceitos de natureza, simplicidade e espiritualidade. Foi desenvolvida junto com crianças da Escola Viver - Waldorf de Bauru, interior de São Paulo. As ferramentas metodológicas tiveram por princípios a possibilidade de educar com o Design, o Design Social e a Cartografia como método descritivo. Amor, Afeto, Cuidado, Respeito, Filosofia, Sociologia, Pedagogia, dentre outros saberes e sabores, misturam-se e interligam-se em uma rica teia repleta de trocas, experiências e evolução.

Palavras-chave:

Design Social - Emoção - Educação - Design - Simplicidade - Espiritualidade - Natureza.

(*) Débora Cristina Ferrari

.

Graduada em Design Gráfico - FAAC/ UNESP - Bauru/SP - Brasil. Ana Beatriz Pereira de Andrade

.

PHD - Professora do Departamento de Design - FAAC/UNESP - Bauru/SP - Brasil.


Somos todos um fue publicado de la página 220 a página225 en Actas de Diseño Nº21

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