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Design em defesa das racionalidades periféricas: uma questão de interpretação

Corrêa Paiva, Caio Henrique

Actas de Diseño Nº 32

Actas de Diseño Nº 32

ISSN Impresión 1850-2032
ISSN Online: 2591-3735
DOI: https://doi.org/https://doi.org/10.18682/add.vi32

XIV Encuentro Latinoamericano de Diseño “Diseño en Palermo” X Congreso Latinoamericano de Enseñanza del Diseño Comunicaciones Académicas

Marzo 2020, Año 14, Vol. 32, Buenos Aires, Argentina | 260 páginas

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Design em defesa das racionalidades periféricas: uma questão de interpretação

Caio Henrique Corrêa Paiva (*)

Resumo: Este artigo é uma reflexão teórica relacionada aos temas design e cultura que teve como base a análise dos objetivos da pesquisa publicada por Alexandre Santos de Oliveira (2014) intitulada “Design e Cultura na região norte do Brasil: Ideias para fertilizar o debate”. Tal reflexão propiciou diversas perspectivas sobre os temas abordados por meio de interpretações relacionando autores ligados ao campo do ensino do design e aos estudos sobre a cultura e os processos sociais. Quanto à reflexão, destacam-se o questionamento sobre a necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos para se justificar a defesa das racionalidades periféricas no campo do design, como também a constatação da importância de se tecer opiniões como ato simbólico para fertilizar debates, conhecimentos críveis e posições político-ideológicas sobre os processos sociais atrelados ao design. Em síntese, este artigo é uma reflexão teórica que sintetiza opiniões para apontar perspectivas possíveis sobre a relação entre design e cultura na região norte do Brasil.

Palavras chave: Design - cultura - ideologia - processos sociais - racionalidades. [Resumos em espanhol e inglês e currículo em pp. 173-174]

Introdução

Este artigo é uma reflexão teórica relacionada aos temas design e cultura que teve como base a análise dos objetivos do artigo “Design e Cultura na região norte do Brasil: Ideias para fertilizar o debate” (Oliveira, 2014) publicado no livro “Pesquisa em Design no Amazonas: Ideias, desafios e perspectivas” (Oliveira et al, 2014), tendo como objetivo propor outras perspectivas sobre os questionamentos levantados.

Em princípio, esta reflexão priorizou os alicerces teóricos que influenciaram os objetivos propostos por Oliveira (2014), porém abrangeu diversos conceitos, percepções e concepções que foram sintetizados pelo autor, proporcionando uma reflexão mais profunda sobre o posicionamento político-ideológico que motivou a investigação analisada, além de também servir como introdução à uma outra perspectiva possível sobre design e cultura. Dessa maneira, o presente artigo foi realizado através de um processo dividido nas seguintes etapas: No primeiro momento, fiz uma leitura analítica do artigo utilizado como base para refletir sobre as nuances contidas em suas propostas. Em seguida, fiz uma leitura exploratória em obras de outros autores que tratavam de temas relacionados com intuito de fazer conjecturas entre diversas interpretações. Por fim, fiz uma leitura interpretativa do conteúdo analisado e explorado, possibilitando que eu organizasse a reflexão teórica em três partes.

Na primeira parte, tendo como princípio os alicerces teóricos que influenciaram os objetivos da pesquisa de Oliveira (2014), analisei os objetivos e os questionamentos propostos sobre a questão da fertilização do debate entre design e cultura na região norte do Brasil. Entretanto, a amplitude de conceitos sintetizados me permitiu sinalizar outros aspectos contidos que não se referissem apenas aos objetivos propostos, mas à algumas percepções e concepções de Oliveira (2014) que foram fundamentais para a construção dos argumentos da segunda etapa.

Na segunda parte, a partir da análise feita anteriormente, pude compreender os contextos nos quais Oliveira (2014) desenvolveu sua investigação. Assim, tendo como base obras e artigos publicados por outros autores, dei sequência à reflexão teórica ao questionar sobre a necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos como justificativa à defesa das racionalidades periféricas no campo do design. Na tentativa de compreender este questionamento, refleti sobre diversas interpretações referentes à influência do posicionamento político-ideológico que assenta os conceitos relacionados a esta questão, conduzindo-me à outra perspectiva relacionada ao design e a cultura e ao ensino do design na região norte do Brasil. Por fim, expus minhas considerações finais sobre a reflexão teórica feita com base na investigação de Oliveira (2014), além de sinalizar outras perspectivas que servirão como futuros questionamentos, tanto para fertilizar o debate entre design e cultura na região norte do Brasil como para apontar os desdobramentos que poderão continuar a partir desta publicação.

Fertilizando o debate sobre design e cultura na região norte do Brasil

Guiado pela investigação de Oliveira (2014) referente às concepções sobre design e cultura presentes nos textos publicados por pesquisadores da região norte do Brasil nos anais dos principais eventos de design do país, tomo como princípio uma análise sobre os objetivos de sua pesquisa para dar continuidade a proposta de um diálogo que fertilize o debate sobre os temas abordados. Tendo em vista que os alicerces de sua pesquisa foram uma “provocação” e uma “hipótese”, ambas influenciadas pelos estudos de André Villas-Boas e Boaventura de Sousa Santos citados por Oliveira (2014, p. 11), retratarei alguns conceitos abordados na argumentação de sua pesquisa, com o intuito de demonstrar de que forma tais conceitos o influenciaram.

No caso, a “provocação” viria da posição de André Villas-Boas sobre a possibilidade de encararmos a efetividade de uma teoria do design a partir das sociedades periféricas, pois, tal posição indicaria para Oliveira (2014) a necessidade de termos esta provocação como ponto de partida para compreender o campo do design, bem como seus processos de investigação, suas ideias, teorias e reflexões.

De fato, torna-se perceptível como a visão de André Villas-Boas sobre o design e a cultura é uma das grandes influências no posicionamento de Oliveira (2014, p. 11) em relação aos mesmos conceitos, justamente porque a provocação da qual Villas-Boas traz atenção às sociedades periféricas é defendida por Oliveira (2014) como uma necessidade. Assim, é interessante destacar como Oliveira (2014) compreende os estudos de André Villas-Boas, com o intuito de entendermos um dos motivos pelos quais a “provocação” deste autor tenha se tornado um alicerce teórico para sua pesquisa. Neste caso, é interessante refletir sobre o que diz Oliveira (2011) ao refletir sobre os estudos de André Villas-Boas na busca por compreender as perspectivas dos conceitos de cultura e identidade cultural no campo do design. Segundo Oliveira (2011, p. 9), constata-se que André Villas-Boas se utiliza do design para entender a dinâmica da cultura, assim como também faz o processo inverso para investigar o campo do design, combinando posicionamentos histórico, social e crítico. Desta forma, entende-se que André Villas-Boas adotaria uma posição onde as duas instâncias são complementares, porém sem desconsiderar suas diferenças, seus elementos e seus poderes reguladores.

Nesse contexto, Oliveira (2011) busca entender André Villas-Boas ao estruturar seu aprofundamento teórico- -conceitual sobre o design e a cultura, demonstrando através desta estrutura a existência de uma tradição canônica funcionalista e internacional no design instituída por uma alta cultura, ou seja, uma espécie de instância de poder que homogeneizaria e aculturaria o design por meio de um projeto de modernidade que se provaria distante da realidade brasileira. Ao mesmo tempo, Oliveira (2011) esclarece que André Villas-Boas também acredita em uma posição contra- -hegemônica do design, sustentada por uma tradição não-canônica que antecederia esta alta cultura e que seria parte intrínseca à natureza do design, constituindo-se de uma herança de ruptura com os modelos funcionalistas impostos pela estética da vanguarda modernista hegemônica.

Enfim, através desta dicotomia hegemônica/contra- -hegemônica do campo do design apresentada por André Villas-Boas, Oliveira discursa provisoriamente sobre a cultura da seguinte forma: Em síntese, posso ler, a partir de Villas-Boas, mesmo que provisoriamente, a presença de dois conceitos de cultura, qual seja: um hegemônico enquanto comprometido com os cânones da alta cultura e com uma ação homogeneizadora e outro balizado num conceito de cultura como resistência, contra hegemônica, não- -canônica, que tem origem nas periferias híbridas e mestiças, tais como o Brasil (Oliveira, 2011, p. 9). Isto implica compreender que a periferia é um lugar híbrido e mestiço capaz de gerar uma cultura de resistência que não seguiria os cânones tradicionais e que se posicionaria de forma contra-hegemônica. Logo, intui-se que este conceito de periferia advindo da obra de André Villas-Boas é um dos motivos que incentivaram Oliveira (2014) a sintetizar as pesquisas acadêmicas do campo do design na região norte.

Além disso, visto que o Brasil é entendido por André Villas-Boas como periferia do mundo, cabe fazer uma analogia onde a região norte poderia ser encarada como a periferia da periferia, já que Oliveira (2014, p. 61) acredita que fomentar o diálogo regional no campo do design é um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade para transpor a condição de insularidade da região. Ademais, Oliveira (2014) demonstra que, além desta provocação que atenta às sociedades periféricas, deve-se encarar esta investigação como um chamamento e uma oportunidade de pensar coletivamente, pois ao se provocar, chamar atenção e problematizar caminhos, clarificar- -se-ia os contextos pelos quais as ideias emergiriam no campo do design na região norte do Brasil. Portanto, ao investigar o design e a cultura dentro das pesquisas acadêmicas da região norte, Oliveira (2014) investe em uma possível ruptura aos imperativos culturais hegemônicos, tanto internacionais quanto nacionais, reforçando a necessidade provocativa de partir das sociedades periféricas para compreender o design em diversas instâncias.

Em suma, o objetivo principal de Oliveira (2014) com esta pesquisa é promover o diálogo entre os interessados em design e cultura na região norte, alicerçados não só por esta “provocação” analisada até agora, mas também por sua “hipótese” baseada nos estudos de Boaventura de Sousa Santos, como dito no início do presente artigo. No tocante a “hipótese” que alicerça sua pesquisa, Oliveira (2014, p. 12) pressupõe que há um desaproveitamento de um conjunto de conhecimentos produzidos na região por conta de uma homogeneização de teorias e práticas concentradas em poucos centros de decisão. Com isso, estes centros de decisão desfavoreceriam o desenvolvimento do design na região norte do Brasil, porque dificultariam a emergência de alternativas e soluções guiadas por outras racionalidades diferentes das suas. Para discorrer sobre este embate entre racionalidades, Oliveira (2014) se utiliza desta ideia de desaproveitamento tanto de conhecimentos quanto de experiências, atrelada a uma crítica à razão metonímica, conceito usado por Boaventura de Sousa Santos e citado por Oliveira (2014, p. 15) para discutir a existência de uma forma de racionalidade soberana na sociedade, obcecada pelas ideias de ordem e de totalidade, que impediria outras formas de racionalidade, impondo-se como referência para as demais formas de pensamento.

Com isso, Oliveira (2014, p. 34) entende que há um impedimento a se pensar as dimensões estéticas, éticas, mítico-mágicas e socioambientais em relação ao valor do design, já que as racionalidades soberanas tendem a priorizar a dimensão econômica, além de impor uma monocultura amparada em um pensamento cientificista e totalitário que acredita que a técnica deve ser vista como solução inquestionável.

Em resumo, a crítica à razão metonímica é utilizada por Oliveira (2014) para ressaltar a necessidade de uma defesa contra o impedimento a outras racionalidades que estariam sendo desperdiçadas, fazendo-se presente a ideia de que haja uma riqueza de conhecimentos pouco explorada no âmbito das produções científicas do design na região norte do país que poderia evidenciar novos caminhos para a efetividade de um Design Amazônico. Vale destacar que Design Amazônico é entendido por Oliveira (2014) como um ato de se fazer/pensar design comprometido com as particularidades políticas, culturais, sociais e econômicas da região amazônica, principalmente no que tange à sua função social. Por isso, Oliveira (2014) considera relevante o discurso do design socialmente responsável, pois seria um posicionamento político que não estaria centrado somente na dimensão econômica, mas teria como primeiro plano as pessoas, suas necessidades individuais e coletivas. Sendo assim, compreende-se através de Oliveira (2014) que o Design Amazônico é uma maneira de se fazer/ pensar design atrelada a um ato político ideológico socialmente responsável, que apontaria as necessidades humanas como pontos de partida para se pensar os avanços sociais, bem como as questões de infraestrutura e os desafios culturais capazes de melhorar os índices de qualidade de vida das populações da região.

A partir desses alicerces provocativos, hipotéticos, políticos e ideológicos analisados, pode-se afirmar que Oliveira (2014) questiona e amplia a discussão sobre o design na região norte do Brasil, dividindo sua pesquisa em duas vertentes: uma teórica, onde sintetiza as produções acadêmicas de design oriundas da região norte por meio dos artigos científicos publicados nos anais dos maiores eventos de design no cenário nacional (Oliveira, 2014, p.16); e outra prática, reconhecendo que tais produções acadêmicas são produtos de investigação e de observações empíricas. Seguindo essa vertente teórico-prática, Oliveira (2014) divide a sua pesquisa em três blocos. No primeiro bloco, a recorrência dos temas de investigação e seus métodos de leitura é identificada por meio da localização dos pesquisadores da região norte e de suas respectivas instituições de vínculo. No segundo bloco, concepções e percepções são expostas sobre a relação entre design e cultura por meio de categorias que se destacaram nos artigos pesquisados. No terceiro bloco, as categorias de destaque do bloco anterior são sintetizadas em um tópico que reflete sobre uma possível fertilização do campo do design na região norte do Brasil.

Em última análise, nota-se principalmente a proposta de desafio que perpassa pelos objetivos desta pesquisa, onde o discurso de se “trazer à luz o que está oculto, ir em busca daquilo que está velado” (Oliveira, 2014, p. 14) é movido pela esperança de contribuir para a emergência de novas alternativas no campo do design, propondo ao design uma percepção de tradução cultural. Assim, Oliveira (2014) propõe se pensar quais seriam as finalidades, necessidades e expectativas do campo do design em se aproximar de determinados fenômenos culturais, grupos, saberes e conhecimentos, afim de fertilizar um possível debate. Consequentemente, ao assumir o compromisso de identificar conhecimentos que estariam sendo desaproveitados, bem como o compromisso de priorizar grupos sociais e culturas que estariam em situação de desvantagem, a proposta de Oliveira (2014) pode ser interpretada como uma defesa às racionalidades periféricas, ou seja, uma alternativa para se posicionar em meio ao embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos relacionado aos processos sociais e simbólicos atrelados ao design.

Após este breve resumo sobre os alicerces teóricos desta pesquisa, assim como o desenvolvimento de um retrato da influência de determinados conceitos para a escolha desses alicerces e uma tentativa de explicação dos mesmos conceitos com base nos escritos de Oliveira (2014), conclui-se que os objetivos desta investigação de concepções sobre design e cultura –presentes nos textos publicados por pesquisadores da região norte do país Brasil– proporcionam diálogos em diversas perspectivas, como também fertilizam um debate referente aos temas abordados.

A necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos como justificativa à defesa das racionalidades periféricas no campo do design

Retomando ao início onde indiquei que tomaria como guia os objetivos da pesquisa de Oliveira (2014) para continuar o diálogo proposto por sua investigação. Seguirei no contexto relacionado ao design, porém sob outro viés. Neste caso, refletirei –com base em outros autores– sobre a constatação da necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos como justificativa à defesa das racionalidades periféricas no campo do design.

Em primeiro lugar, referente a ideia de necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra- -hegemônicos atrelada ao design, há que se questionar as premissas desta proposta devido ao caráter ideológico- -histórico desta ideia, pois implica pensar o design dentro de uma cronologia linear onde posicionamentos se sucedem e se afastam do que comporia uma suposta “natureza” do design, subentendo que haveria um princípio histórico que pudesse ser tomado como referência. Neste contexto, Quintavalle (1993), demonstra que a própria indefinição do design é o que proporciona torna-lo um recurso político de defesa de discurso com base em sua história. Por isso, Quintavalle (1993) explica que a história do design possui um falso problema de definição de suas origens, mascarando a dificuldade em clarificar e examinar as motivações e fundamentos que ditam quando a história do design se inicia, em quais discursos estas definições se fundamentam, ou em quais ideologias se assentam esses discursos.

Sendo assim, Quintavalle (1993) diz que mesmo que escolhamos aparentemente um único modelo para traçarmos a história do design –por exemplo, a partir da Revolução Industrial ou de outro período que a anteceda; ou de uma determinada escola de pensamento, movimento artístico ou cultura– este modelo estará sujeito a aceitar uma série de variantes, tornando as cronologias diferentes. Logo, devido a esta variação de modelos para se interpretar o design, entende-se que a história do design é relativa à interpretação que satisfaça o discurso de quem a interpreta, impossibilitando assim a escolha de apenas uma cronologia, a menos que haja uma intenção que satisfaça um discurso pré-determinado. Por outro lado, mesmo que a intenção de se utilizar da dicotomia hegemônica/contra-hegemônica seja para favorecer uma definição do design por uma perspectiva mais ampla, ainda assim, a prerrogativa que induz ao embate entre posicionamentos como uma necessidade só pode ser sustentada mediante uma interpretação ideológica. Na tentativa de entender esta interpretação, considero, com base nos estudos de Žižek (2011), que essa dicotomia hegemônica/contra-hegemônica pode ser encontrada no marxismo por conta da universalidade desta teoria. Consequentemente, com a intenção de esclarecimento desta interpretação, destaca-se a análise de Žižek (2011) sobre a universalidade do marxismo como princípio que propicia a utilização desta teoria em outros contextos. De acordo com Žižek (2011), há duas subversões no marxismo que precisam ser endossadas antes de qualquer análise: o deslocamento histórico de Marx à Lenin e em seguida o de Lenin à Mao, onde em cada caso há particularidades que a diferenciaram das concepções originais de Marx.

No caso, Marx pensara sua teoria onde operários de um país mais avançado seriam os agentes revolucionários, entretanto Lenin teria encenado a primeira revolução marxista em um país relativamente atrasado onde os agentes revolucionários eram camponeses pobres. Para Žižek (2011), esta subversão foi fundamental à universalidade da teoria, pois submeteu o contexto original marxista a sobreviver e se reinventar em outros contextos. Consequentemente, Žižek (2011) esclarece que a própria universalidade do marxismo possibilitou o deslocamento de Lenin à Mao, como também favoreceu a aceitação de que a metáfora da luta de classes poderia ser expandida por Mao para uma luta de nações proletárias contra nações burguesas, tendo seu nome como uma representação para uma mobilização política das camadas anônimas do Terceiro Mundo contra a hegemonia do Primeiro Mundo. Ademais, Žižek (2011) diz que mesmo que Mao mascarasse a inadequação e o retrocesso em relação ao pensamento original - já que faltariam as características da classe proletária defendida por Marx a estas camadas anônimas do Terceiro Mundo defendidas por Mao – ainda assim a reelaboração de Mao deve ser vista como marxismo, por conta da universalidade da teoria.

Logo, entende-se que, de Marx à Mao e assim por diante, o marxismo se reinventa e se adapta aos contextos em um movimento entendido por Žižek (2011) como “universalidade concreta”, onde uma teoria só é efetivamente universal se for capaz de sobreviver a estes transplantes do contexto original para a reelaboração da mesma. Em conformidade com Žižek (2011), Quintavalle (1993) diz que, por trás da origem do design que se explica a partir da Revolução Industrial está a convicção marxista de que existe uma diferença estrutural entre as revoluções industriais anteriores às dos séculos XVIII e XIX, colaborando para a afirmação de que as características próprias do design surgem das transformações econômicas deste período, pois estariam ligadas a um modelo de classe que a explicariam.

Entretanto, Quintavalle (1993) assinala que a historiografia do design deveria decidir sobre o ponto de partida da sua história usando outros critérios, para que não haja mais declarações parciais justificadas por uma cronologia que tente explicar o design, já que não há um só modelo, nem apenas uma só cultura de projeto, tradição ou ideologia que envolva essa questão. Sendo assim, ao se saber que a defesa de uma necessidade de posicionamento em um embate entre racionalidades hegemônicas/contra-hegemônicas atreladas ao design poderia ser um transplante da metáfora de luta de classes do marxismo reelaborado dentro de outro contexto, defender racionalidades periféricas através do design só poderia ser justificado mediante um posicionamento que carregasse seus paradoxos ideológicos como uma espécie de efeito colateral para satisfazer seus interesses. Resumindo, se os critérios históricos são contraditórios para definir o contexto original do design, um posicionamento ideológico historicista em relação ao design só pode ser mantido caso os paradoxos da ideologia que se assentam sejam perpetuados sob circunstâncias que satisfaçam os interesses dos respectivos posicionamentos. Não obstante, ao considerar que uma necessidade é uma força capaz de intervir nos processos sociais e pode gerar resultados previstos anteriormente, ignora-se a condição de impossibilidade da constatação de que a necessidade somente surge do processo social radicalmente contingente. Através da reflexão de Baudrillard (1985) sobre as “massas silenciosas”, é possível compreender como estas condições de impossibilidade configuram a interpretação do processo social por serem resultantes de um processo simbólico contingente. Assim, segundo Baudrillard (1985), se desconsiderarmos todas as interpretações sobre a sociedade, restará apenas a massa –um fenômeno irredutível a qualquer prática ou teoria, ao mesmo tempo base de todos os sistemas de significação e ininteligível em todos os significados por não ter referências ou predicados, por não refletir o social, nem se refletir no mesmo, mas apenas ser a resultante do esquecimento do social–. Logo, os próprios conceitos de “classe”, “relação social”, “poder”, “status” não são mais do que noções confusas onde determinados códigos de análise se conciliam.

De fato, através de Baudrillard (1985), entende-se que as massas reduziriam todos os discursos articulados à uma condição irracional onde fundamentos não se sustentam, onde os signos perderiam seu sentido, onde restaria apenas a fascinação. Ou seja, a verdadeira prática das massas seria a indiferença, e todos os sentidos seriam conduzidos à uma condição de espetáculo.

Todavia, se interpretarmos os processos sociais através de suas contradições e de suas estruturas, talvez somente através do “silêncio” de seus processos simbólicos, em suas lacunas menos racionais, encontrar-se-ia explicação para a fascinação espetacular das massas. Resumindo, para Baudrillard (1985), não haveria maneiras de clarificar o processo social, justamente porque um posicionamento não é construído por questões sociais facilmente interpretáveis, mas sempre será resultante de um processo simbólico contingente.

Enfim, a reflexão de Baudrillard (1985) sobre o fenômeno das “massas silenciosas” é interessante para atentarmos sobre a condições de impossibilidade e contingencia das quais o processo social se configura, assim como a conclusão de que o processo social não é um gerador de desafios dialéticos baseados em necessidades defendidas por posicionamentos ideológicos historicistas, mas sim um gerador de possibilidades simbólicas capazes de desafiar as instâncias do sentido.

Por outro lado, Žižek (1996) também constata esta condição contingente do real simbolizada e carente de sentido, além de concordar que as ideologias poderiam certamente ser vistas como um processo inverso a esta condição. Contudo, mesmo que se defina uma ideologia como um processo que ignora necessidades para transformá-las em contingências, um posicionamento crítico à ideologia baseado nesta interpretação não deixa de ser outra ideologia: [...] a crítica da ideologia não implica um lugar privilegiado, como que isento das perturbações da vida social [...] Ideologia pode significar qualquer coisa, desde uma atitude contemplativa que desconhece sua dependência em relação à realidade social, até um conjunto de crenças voltado para a ação; desde o meio essencial em que os indivíduos vivenciam suas relações com uma estrutura social até as ideias falsas que legitimam um poder político dominante (Žižek, 1996, p. 9). Neste sentido, Žižek (1996) defende que um ponto de vista político pode estar correto, mesmo que completamente guiado por uma ideologia, da mesma forma que visões políticas são capazes de distorcer processos sociais, mesmo que não tenham cunho ideológico algum. Portanto, o favorecimento das racionalidades periféricas no campo do design frente às racionalidades homogeneizantes não é só um posicionamento político ideológico, mas é um ato de escolha.

Sobre esta questão, ao discorrer sobre a “pedagogia da escolha”, Almeida (2013) diz que o ato de escolher presume um ato de reconhecer que a totalidade é inatingível e só pode ser construída imaginariamente devido a estarmos atados a pontos de vista, pois todo conhecimento surge por meio de fragmentos que se sucedem e se relacionam: Conhecido um objeto, não sem ajuda do contexto, podemos reconhece-lo na relação das partes com o todo, mas também desaprende-lo, seja na diferença de suas partes, seja no todo. O conhecimento é formado por sucessões de olhares, aproximações e distanciamentos, continuidades e rupturas, aprendizagens e desaprendizagens. É a continuidade dos reconhecimentos e a intensidade das emoções que possibilitarão a adesão da crença. O primeiro movimento em direção ao conhecimento é sempre acompanhado da descrença. Não cremos ou não queremos crer de imediato. O objeto visto pela primeira vez causa desconfiança. No entanto, não passamos a crer porque ele se repete, mas porque conquista as opiniões de modo que a crença não é efeito de uma decisão do sujeito, mas partilhada de opiniões (Almeida, 2013, p. 7).

Assim, a partir da citação acima, entende-se que o favorecimento das racionalidades periféricas como alternativa ao embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos em relação aos processos sociais e simbólicos atrelados ao design só pode ser considerado um conhecimento crível se caso conquiste opiniões ou se o entendimento desta proposta seja partilhado. Por fim, é necessário que a opinião que defenda a existência de polos dicotômicos e desiguais conquiste adeptos; que a opinião que critique a imposição nociva de uma racionalidade soberana perante as outras de riquezas culturais desaproveitadas seja crível à mais pessoas; bem como a ideia que valoriza a função social como uma questão de responsabilidade acima das contingências simbólicas seja também partilhada para, enfim, o design em defesa das racionalidades periféricas seja reconhecido por mais pessoas que compartilhem das mesmas opiniões. Concluindo, ao se refletir sobre a necessidade de embate entre posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos como justificativa ao favorecimento das racionalidades periféricas no campo do design, compreende-se que o paradoxo que alimenta a causa primeira e que se encontra atrelado a qualquer posicionamento que liga o design a uma necessidade é a constatação de que qualquer ato político que propõe um pensar/fazer design não pode ser desconsiderado, mas também não deixa de ser uma das formas de interpretar as condições contingentes dos processos sociais simbólicos.

Considerações finais e outras perspectivas sobre o design e cultura na região norte do Brasil

Em resumo, pode-se usar como exemplo o presente artigo para elucidar de alguma forma a relação entre interpretação, necessidade e contingência, já que o interesse em dar continuidade ao diálogo sobre os temas abordados foi uma das necessidades satisfeitas pelas interpretações argumentadas, mas mesmo assim não deixaram de ser contingências interpretadas para satisfazer um dos interesses do artigo: compreender que design é uma questão de interpretação e articulação entre processos simbólicos. Quanto a pesquisa de Oliveira (2014), tendo em vista que não se pode apontar um contexto original sobre o design que não seja simbólico, acredito que os objetivos de Oliveira (2014) não se tratam somente de motivações necessárias para reelaborações teóricas, nem somente para uma investigação sobre novas concepções possíveis, ou muito menos para desbravamentos coletivos entre pesquisadores da região norte do Brasil. Antes do que foi pressuposto, os objetivos da pesquisa de Oliveira (2014) são necessários para justificar o seu posicionamento político-ideológico dentro do campo do design, bem como assentam as suas investigações sobre as áreas que abrangem seu campo de atuação como pesquisador influente.

Portanto, caso se considere que o posicionamento político-ideológico-crítico de Oliveira (2014) é, antes de tudo, um ato simbólico de ressignificação da realidade em qual suas concepções e percepções estão inseridas, este posicionamento sempre dará sentido ao seu discurso, bem como satisfará seus objetivos em relação às suas pesquisas. Porém, acredito que as ideias defendidas por Oliveira (2014) são fundamentais para fertilizar o debate no campo do design na região norte do Brasil, além de fomentar o surgimento de outras perspectivas. A partir destas considerações, sinalizo outras perspectivas que servem de questionamentos para fertilizar o debate entre design e cultura na região norte do Brasil, além de apontar desdobramentos do presente artigo:

1. Tendo como base as teorias que estudam os processos simbólicos, como compreender o design e a cultura na região amazônica como processos de articulação simbólica para se abrir novas interpretações aos processos sociais?

2. Em quais circunstâncias poderia se pensar/fazer design direcionado aos grupos sociais periféricos na região norte do Brasil sem necessariamente estar atrelado à uma ideologia de cunho marxista ou ter como referência tradições funcionalistas modernistas?

3. Como a pedagogia da escolha propiciaria outras perspectivas sobre design e cultura na região norte do Brasil?

Referências

Almeida, R. (2013). Aprendizagem de desaprender: Machado de Assis e a pedagogia da escolha. Educação E Pesquisa, 39(4), pp. 1001-1016.

Baudrillard, Jean. (1985). À sombra das maiorias silenciosas. São Paulo: Brasiliense.

Oliveira, A. (2014). Design e Cultura na região norte do Brasil. In A. S. Oliveira (Org). Pesquisa em Design no Amazonas: Ideias, desafios e perspectivas, 1(1), pp 11-78. Manaus: Valer.

Oliveira, A. (2011). Cultura e Identidade cultural no campo do Design. In D. O. Pastori (Org). Anais do 1º Congresso Nacional de Design P&D Design: Habitat, cultura e design. Caxias do Sul: Educs.

Quintavalle, A. (1993). Design: O falso problema das origens. Design em aberto: uma antologia. Lisboa: Centro Português de Design.

Žižek, S. (2011). Em defesa das causas impossíveis. São Paulo: Boitempo.

Žižek, S. (1996). Um mapa das ideologias. Rio de Janeiro: Contraponto.

Resumen: Este artículo es una reflexión teórica relacionada a los temas de diseño y cultura que tiene como base el análisis de los objetivos de la investigación publicada por Alexandre Santos de Oliveira (2014) titulada Diseño y Cultura en la región norte de Brasil: ideas para abonar al debate. Tal reflexión propicia diversas perspectivas sobre los temas abordados por medio de interpretaciones relacionando autores ligados al campo de la enseñanza del diseño y a los estudios sobre la cultura y los procesos sociales. En cuanto a la reflexión se destaca el cuestionamiento sobre la necesidad de presentar oposición entre posicionamientos hegemónicos y contra-hegemónicos para justificar la defensa de las racionalidades periféricas en el campo del diseño, como también la constatación de la importancia de tener opiniones como acto simbólico para abonar debates, conocimientos creativos y posiciones político-ideológicas sobre los procesos sociales vinculados al diseño. En síntesis, este artículo es una reflexión teórica que sintetiza opiniones para apuntar perspectivas posibles sobre la relación entre diseño y cultura en la región norte de Brasil.

Palabras clave: Diseño - cultura - ideología - procesos sociales - racionalidades.

Abstract: This article is a theoretical reflection related to the themes of design and culture based on the analysis of the objectives of the research published by Alexandre Santos de Oliveira (2014) entitled “Design and Culture in the northern region of Brazil: ideas for debate”. This reflection promotes diverse perspectives on the subjects addressed by means of interpretations relating authors linked to the field of the teaching of the design and to the studies on the culture and the social processes. As for the reflection, the questioning of the need to present opposition between hegemonic and counterhegemonic positions to justify the defense of peripheral rationalities in the field of design, as well as the observation of the importance of having opinions as a symbolic act to debate, creative knowledge and political-ideological positions on social processes linked to design. In summary, this article is a theoretical reflection that synthesizes opinions to point out possible perspectives on the relationship between design and culture in the northern region of Brazil.

Keywords: Design - culture - ideology - social processes - rationalities.

(*) Caio Henrique Corrêa Paiva. Bacharel em design, professor e pesquisador do Gepdam (Grupo de Estudos e Pesquisas em Design na Amazônia). Possui experiência como designer gráfico nas áreas de comunicação e desenvolvimento de aplicações interativas. Suas pesquisas são relacionadas aos temas design, comunicação, cultura, sociedade e tecnologia.


Design em defesa das racionalidades periféricas: uma questão de interpretação fue publicado de la página 168 a página174 en Actas de Diseño Nº 32

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