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Caminhos cruzados: traje de cena e história da indumentária

Anna Theresa Kühl

Actas de Diseño - N° 36

Actas de Diseño - N° 36

ISSN Impresión 1850-2032
ISSN Online: 2591-3735
DOI: https://doi.org/

XVI Semana Internacional de Diseño en Palermo Foro de Escuelas de Diseño • Comunicaciones Académicas EDICIÓN ESPECIAL XI Congreso [Virtual] Latinoamericano de Enseñanza del Diseño 2020

Diciembre 2021 . Año 16 . Nº36 - Buenos Aires, Argentina | 414 páginas

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Resumo: A partir da elaboração de conteúdo para formação de figurinistas, surge uma investigação que questiona caminhos cronológicos e linearidade da história da indumentária. Para produzir trajes de cena, a autora dessa investigação, figurinista e docente, se embrenha por montanhas de roupa de segunda mão, algo que surge como questão orçamentária, para então se desenvolver como prática artística e de docência, desenvolvendo um questionamento histórico.

Palavras chave: indumentária - formação - traje de cena


Introdução

Uma imagem assola o século XXI, nos assombra com questões relacionadas à consumo, economia, recursos naturais, crises ambientais: a sufocante imagem da pilha de roupas descartadas. Nós, que lidamos com o design do traje de cena, nos deparamos, muitas vezes, com a questão do reaproveitamento de materiais têxteis e trajes de segunda mão. Como se o artista do traje de cena tivesse o dever de lidar com todo tipo de resíduo, transformando-o em arte. Sim, é possível, funciona e pode ser extraordinário. Mas a escolha faz parte do ofício da arte, como em qualquer ofício. Se todos os figurinistas do mundo escolhessem trabalhar com resíduo têxtil, ainda assim, tal questão estaria longe de ser solucionada por completo. Mas este não é um artigo sobre “moda sustentável”, oxímoro inventado como possibilidade de solução, ou ainda como podemos ver em outros termos: moda ética, limpa, responsável ou consciente. Este ensaio se propõe a outras questões. Sobretudo sobre quais narrativas podemos ler por meio dos trajes de cena, que vão se servir do traje de segunda mão, de acervos museológicos, e todo tipo de objeto que podemos considerar documentos históricos. No traje de cena, pode ocorrer uma mistura entre passado e futuro, um encontro onde a morbidez da roupa que sobrevive se encontra com a celebração da potência de vida de novas possibilidades narrativas.

Uma expressão que Rita Morais de Andrade (2008) usa em sua tese de doutorado, “a escuridão dos avessos” fez a ligação entre o traje de segunda mão, o documento histórico e o figurino. É nessa escuridão da pilha de roupas que se escondem devaneios sobre as narrativas construídas pela história e pela ficção. O traje, como objeto, conta uma narrativa contestadora de memórias ou supostas linearidades:

A roupa não tem as mesmas propriedades que suas representações imagéticas, como a fotografia, por exemplo. A roupa, elemento da cultura material, tem textura, cheiro, rasgos, manchas e vestígios de corpos que já a usaram como casa de sonhos, pele de inserção social, do pertencer aos tempos e espaços que contornam sua trajetória. (Andrade, 2008, p.27) Analisar um traje não é o mesmo que analisar sua representação imagética, seja um desenho ou fotografia. O objeto pode ser extremamente rico e potente para o ator e o performer, uma vez que o traje é extremamente importante na composição da cena, e vai trazer elementos temporais e espaciais. A questão que se configura como ponto de partida desta investigação é: o que os trajes de cena podem nos contar sobre nosso passado e sobre o nosso futuro?

Nesse ponto o termo “história da moda” fica pequeno, uma vez que vamos falar do traje, da indumentária que acompanha e identifica diferentes povos durante diferentes épocas, e como isso será traduzido por criadores do traje de cena. Como designers e pesquisadores do traje de cena lidam com documentos históricos, ou ainda, como formar designers e figurinistas que levem em conta os possíveis registros históricos de uma história do vestir; disponível em imagens e trajes?

A longevidade de uma peça de roupa é geralmente maior que uma vida humana, novamente concordamos com Andrade (2008), ao trazer a questão da sobrevivência de uma roupa, não apenas como objeto, mas também como ideia, imagem, memória. Uma ideia cara também a Stallybras (2012), bem como para a docente britânica Lou Taylor, do Departamento de Moda da Universidade de Brighton. Andrade (2008, p.16) também nos diz que Taylor escreveu Establishing Dress History (2004), obra onde defende o estudo de roupas e tecidos como fontes/documentos capazes de elucidar aspectos históricos, culturais e sociais, quando vistos em contexto. Diferente de outros materiais, o traje convive, molda e é moldado pelo corpo.

Em artigo publicado no site da Universidade de Brighton, Taylor (2002) comenta sobre como a bibliografia acerca do traje vai se diversificar desde a década de 1970, sendo alterada do que ela chama de uma “mente estreita, dominada pela masculinidade, antiquada, lugar comum” para algo que dialoga mais com o contemporâneo e o interesse atual dos alunos de design de moda. Textos de homens brancos sobre o vestir de mulheres brancas não são mais suficientes para dar conta da complexidade do mundo exposta em nossos trajes. Claro, não são nossas únicas fontes, porém, são mais comuns e acessíveis, principalmente aos alunos. Me lembro especificamente da surpresa de uma aluna, integrante da oficina “O Figurino e a Moda”; que quando foram oferecidas outras abordagens históricas, ficou especialmente interessada pelo que chamamos naquele momento de “aula povos”, onde foram abordados trajes de diversas culturas. Esta oficina ocorreu no ano de 2015, no espaço do Museu da Imagem e Som de Campinas SP, como parte da programação das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Esta autora foi responsável pela coordenação pedagógica de diversos projetos para artistas da cena e interessados no traje e na história da indumentária. Dentro do recorte temporal feito para encaixar-se didaticamente em um tempo pré-determinado destes projetos e oficinas; deparo- -me com diversas perspectivas de olhar para a história da moda e indumentária, sendo a mais comum, uma visão eurocêntrica, que nos parece antiquada e pouco reflete camadas e complexidades de um vestir e do traje de cena contemporâneo.

Esse conflito de registros acessíveis vai permear também a pesquisa e o design do traje de cena, e o contato com diversas bibliografias vai trazer o interesse em uma “roupa como território de criação”, onde podemos entender o traje como como suporte de ações poéticas e políticas, conforme definido por Andrade e Sequeira (2017): Buscar decifrar não o que são aqueles corpos vestidos, mas o que estão sendo. Um modo de pensar que acata o fluxo da vida, os modos de agir que revelam até o mais perturbador, porque não estão dados a priori e porque atacam a temporalidade linear da moda. Os gestos desencadeados pelas roupas encontram seu sentido na medida em que performam no espaço. Podem aderir às determinações mais cristalizadas de um campo social, mas também podem quebrar seus roteiros mais consolidados, instaurando outras realidades possíveis. (p. 12)

A partir de extratos como esse, me pergunto se existe uma temporalidade linear da história da indumentária. Essa discussão me parece urgente, tarefa para muito mais que um artigo, investigar que tipo de razões conduzem a essa escolha linear. Que tipo de razões pedagógicas ou metodológicas, ideologias, soft power permeiam esse senso comum de uma linha do tempo. Quando se dá em um contexto de produção artística, faz sentido essa linearidade?

Por que os figurinistas precisam de história da indumentária?

O traje de cena, a criação de um figurino, se encaixa em uma delicada rede que chamo de economia de bastidores, rede que vai conter todos os envolvidos: cenário, direção, elenco, produtores, custos com logística e materiais. Os recursos dentro desse contexto são escassos, bem como o tempo, geralmente ditados por editais de financiamento. O comum são 10 meses e R$100.000 reais para toda uma produção cênica – dados provenientes da experiência prática da autora deste artigo, contexto este que se encontra exposto nas convocatórias de editais, como o Proac Editais da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. A conta, geralmente, não vai fechar, elementos serão sacrificados – materiais ou humanos. Nesse contexto, produzir trajes de cena ressignificando roupas de segunda mão é mais comum do que reelaborar sofisticados trajes do século XVIII – não existe tempo ou dinheiro para isso, salvo contextos de produção específicos, que não povoam minha experiência, mas sim, existem, não são raros.

O figurino não-realista, barato, rápido, que não necessite camareira, que rapidamente vire outra coisa, que caiba num carro pequeno – todas frases realmente ouvidas durante 10 anos de prática, não é executado durante longo tempo com materiais sofisticados. Dessa maneira, a economia de bastidores se relaciona diretamente com o processo de criação de trajes, um diálogo onde se reflete o contexto que está inserido. Dessa demanda surge um necessário olhar para o imenso arquivo do passado, onde antigas soluções nos ajudam na difícil tarefa de ser genial em menos de um mês, com uma verba muito baixa, e ainda, engatar o próximo trabalho, rápido.

Dentro desses tipos de contexto, por que então figurinistas precisam de conhecimento em história da indumentária? Algo que consome horas de pesquisa e formação, mas pode ajudar a identificar que tempo aquele design de traje pode estar marcando. Nossas roupas criam barreiras, elas marcam tempo, algo caro dentro da montagem de peça de artes cênicas ou gravação audiovisual. Nem sempre esse tempo deve ser preciso, envolvido em uma reconstituição histórica muito realista, mas deve se aproximar de algo que Roland Barthes vai chamar de “uma certa escala de verdade” (Velloso e Viana, 2018 p. 54), para evitar uma hipertrofia da função histórica que pode se dar pela exatidão do detalhe, o que seria um possível problema, um perigo para o traje de cena: “Vê-se bem que é verdadeiro, no entanto, não se acredita nele” (Velloso e Viana, 2018, P.68). Um traje realista não necessariamente apresenta fidelidade histórica.

Ainda por cima, em qualquer ação pedagógica formal ou informal que tenha como intenção aprofundar-se em história da moda e indumentária, possivelmente veremos imagens de trajes de cena dos séculos XX e XXI, principalmente de contextos audiovisuais, cada vez mais presentes após invenção e popularização do cinema e agora com o streaming. Em aulas recentes sobre indumentária, em projetos, cursos técnicos ou universitários, a presença de imagens de figurino se faz constante, junto a imagens de moda e acervos de museus. Tais acervos museológicos vão considerar os trajes como objetos da cultura material, como documentos, que serão enquadrados em narrativas, que podem se opor ou não ao que a memória pode contar. Me parece que tais registros de história da indumentária contam com uma certa historicidade e estão fortemente contaminadas por um soft power ocidental, que vai tornar o acesso a outras fontes de cultura mais inviáveis.

Novas perspectivas

Pelo que vemos nos trajes de cena, uma certa visão historicista ainda permanece como se fosse a mais legítima (Sequeira e Andrade, 2017, p.16). No entanto, nossa indumentária atual é composta por cada vez mais camadas de complexidade, e cada vez menos sujeita a lógicas lineares de interpretação. Esse cenário então nos chama para uma diferente abordagem de aulas de história da indumentária. Um olhar cada vez mais cuidadoso para a indumentária de povos originários das Américas ou para o continente africano, um olhar em vias de decolonização. Um olhar fora de uma suposta linearidade, que leve em conta também invenções de futuro, discussões como o afrofuturismo. Que estude e crie fontes de uma história do traje descolonizada.

Finalmente, é também uma tarefa da cena do traje construir este tipo de criticismo em relação às narrativas tal como as conhecemos.

Referências Bibliográficas

Andrade, R. M. de. (2008). Boué Soeurs RG 7091: a biografia cultural de um vestido. Tese (Doutorado em História). São Paulo: Pontifícia Católica de São Paulo. Recurso eletrônico, disponível em:: < https://tede2.pucsp.br/handle/handle/13076

Souza, G.de M. (1987). O Espírito das roupas. São Paulo: Cia. das Letras.

Sequeira, R. P. e Andrade, R. M. de. (2017). A roupa em conexão com ações poéticas e políticas. Revista D’obras (ONLINE). Volume 10. Está indicando: v. 10, p. 6-20, 2017. Recurso eletrônico, disponível em: A roupa em conexão com ações poéticas e políticas>.

Stallybrass, P. (2012). O casaco de Marx: roupas, memória, dor. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Taylor, L. (2002). Fashion, textiles and dress history: a personal perspective by Lou Taylor. Site da Universidade de Brightom. Recurso eletrônico, disponível em: < http://arts.brighton.ac.uk/arts/alumni-and-associates/thehistory-of-arts-education-in-brighton/fashion,-textiles-and-dresshistory-a-personal-perspective-by-lou-taylor>.

Viana, F.; Velloso, I. M. (2018). Roland Barthes e o traje de cena. São Paulo: Eca- Usp. Recurso eletrônico, disponível em:: .

Viana, F. e Muniz, R. (org.). (2010). Diário de Pesquisadores: Traje de Cena. São Paulo: Estação das Letras e Cores.


Resumen: A partir de la elaboración de contenidos para la formación de los diseñadores de vestuario, surge una investigación que cuestiona los recorridos cronológicos y la linealidad de la historia de la ropa. Para producir los trajes de escena, el autor de esta investigación, diseñador de vestuario y profesor, deambula por montañas de ropa de segunda mano, algo que surge como una cuestión presupuestaria, para luego desarrollarse como una práctica artística y docente, desarrollando un cuestionamiento histórico.

Palabras clave: ropa - formación - escena de vestuario.

Abstract: From the elaboration of content for the formation of costume designers, an investigation arises that questions chronological paths and linearity of the history of clothing. In order to produce scene costumes, the author of this investigation, costume designer and teacher, wanders through mountains of second-hand clothing, something that arises as a budgetary question, to then develop as an artistic and teaching practice, developing a historical questioning.

Keywords: clothing - training - costume scene.


Anna Theresa Kühl: Pesquisadora de traje de cena e moda, figurinista, produtora cultural e docente de cursos e oficinas sobre figurino e economia criativa. Mestranda em Artes Cênicas como foco em traje de cena, na Universidade de São Paulo. Em 2016, foi coordenadora e docente nos projetos “Costurando Histórias” e “Memórias Vestidas”. Atuou como coordenadora de produção do Grupo Matula Teatro, responsável por diversos projetos culturais contemplados em editais públicos, além de orientar oficinas de produção e direção de arte.


Caminhos cruzados: traje de cena e história da indumentária fue publicado de la página 107 a página109 en Actas de Diseño - N° 36

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