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Diario de un viage (1746): um estudo comparativo sobre o discurso narrativo de José Cardiel, S.J. e Pedro Lozano, S.J e suas aportações para a memoria

Gabriele, Rodrigues de Moura

Cuadernos del Centro de Estudios en Diseño y Comunicación Nº92

Cuadernos del Centro de Estudios en Diseño y Comunicación Nº92

ISSN Impresión 1668-0227
ISSN Online: 1853-3523
DOI: https://doi.org/

Arte y Comunicación: Arte, Historia y Memoria

Año XXII, Vol.92, Junio 2021, Buenos Aires, Argentina | 304 páginas

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O presente artigo pretende fazer um estudo comparativo entre o discurso de José Cardiel, S.J. e Pedro Lozano, S.J. sobre a expedição feita ao Estreito de Magalhães (1745/1746), como forma de mostrar e refletir de que modo um discurso direto (de quem participou do evento e foi testemunha dos fatos) passa por uma filtragem ao ser refeito por outra pessoa. Equitativamente, buscamos analisar a questão da viagem por meio da escrita como uma forma de conhecimento pessoal e de deslocamento em uma geografia estranha.

Entretanto, será esta geografia desconhecida, que faz com que haja a auto-reflexão que leva o autor a recolocar tais fatos sob a perspectiva de uma ausência desta estranheza anterior. A viagem e a sua descrição são importantes, nesta perspectiva pois pode ser analisada como uma arte da memória e como um recurso narrativo da história, como um gênero discursivo que pode passar por alterações mesmo que sejam duas viagens (a de autoconhecimento que se relaciona com o ato de viajar para outros lugares fisicamente; a literária, que é a viagem através da leitura e da imaginação). Tal reflexão nos permite pensar a respeito do quanto à inserção de um novo viés narrativo a um texto específico pode alterar o seu significado original, como ocorreu no Diario de un viage (1746), através de imprecisões ou o acréscimo de temas que não eram abordados na carta redigida por Cardiel, no mesmo ano. Para tanto, utilizamos como conceito teórico-metodológico de discurso narrativo (Genette), para guiar a nossa análise, em que é considerada a reescrita de um texto uma narrativa de segunda mão, em que o relato original é modificado, transformado e distanciado do que foi proposto por seu autor que vivenciou o que relatava.

Palavras chave: Historiografia Jesuítica - Discurso Narrativo - Diario de un viage - Pedro Lozano - José Cardiel.

[Resumos em espanhol e inglês em nas páginas 219-220] (*) Doutoranda em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2015-atual). Mestra em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2011-2013). Bacharel e Licenciada em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2004-2009).

Introdução: Algumas instruções que norteiam o discurso jesuítico A Companhia de Jesus, desde a sua fundação, demonstrou nas instruções do seu fundador, Ignacio de Loyola, e seu secretário, Juan de Polanco, a preocupação com a preservação da história da Ordem e a construção da mesma pela escrita e a circulação de notícias a respeito das missões que estavam sendo desenvolvidas pelos seus membros por diversas partes do mundo. Este discurso que estruturou uma imagem de grupo unido, coeso e homogêneo, veio da divulgação da representação de que a Companhia era uma Ordem de homens incansáveis que destinavam à vida aos trabalhos voltados ao apostolado e a educação dos povos. Deste modo, os textos produzidos pelos jesuítas eram pensados, formulados e construídos seguindo as orientações, divididas em 20 pontos, das chamadas letras contínuas (MI, Epp. I, pp. 537-540), que posteriormente serviram de base para a elaboração do texto das Constituições referente às notícias que deveriam ser dadas, periodicamente variando entre informes anuais e bianuais, pelos jesuítas que estavam ocupados nas missões –evangelizadoras e/ou educacionais–, na Ásia, África, América e Europa (Meios de unir com a cabeça e entre si aqueles que estão dispersos), (Const., §§ 655-676).

À medida que se expandiam o número de jesuítas e de regiões missionadas, a frequência da escrita e de envio dessas correspondências dentro da Companhia de Jesus, foi alterada.

Os requisitos iniciais deram lugar a uma prática descrita na Instrução do Padre Geral Everardo Mercuriano, chamada Formula Scribendi ou Ratio Scribendi. A Formula foi incluída na Regulae Societatis Iesu (1580), que regulava desde a vida dos padres até as formas de escrita que melhor atenderiam as estratégias de governo, divulgação e representação da imagem da Ordem de Santo Ignacio. A indicação de como deveria ser disposto os assuntos no texto foi sendo alterada em suas edições posteriores e reformulado por Claudio Acquaviva, que aperfeiçoou e reestruturou estas orientações iniciais. As Instruções do Prepósito Geral Claudio Acquaviva (1598) foram divididas em oito temas principais que deviam ser abordados para a composição íntegra e contínua de uma História da Companhia de Jesus desde as suas origens, que definiriam e afiançariam o chamado nuestromodo de proceder dos jesuítas. Tais temas se dividiam em: 1º Fundaciones de colegios y casas, excepto si hasta ahora han sido enviadas, con los nombres de los fundadores, sus progresos y su crecimiento; 2º Aprobaciones y consensos de las ciudades en el recibimiento de los nuestros; 3º Insignes benefactores y fautores [favorecedores]; 4º Eventos prósperos y adversos a la Compañía; 5º Algunas virtudes y acciones especiales de aquellos que murieron dentro de la Compañía: santidad de vida, muerte preclara, enlistados los nombres y demás circunstancias; 6º Insignes y extraordinarias vocaciones de los nuestros; 7º Insignes cambios de ánimos: conversiones de herejes y de infieles; 8º Insignes calamidades de aquellos que abandonaron la Compañía (Alcantara Bojorge, 2009, pp. 68-69).

Sendo este último tópico de acesso restrito ao público leitor das histórias oficiais.

Conforme Norbert Elias, estas estruturações textuais, permitiriam à história a formação de agrupamentos extracientíficos que acabariam dando ao escritor à identidade necessária para que o mesmo se representasse dentro da sociedade à qual pertence. Isto se deve aos temas previamente escolhidos e como são trazidos à luz pelas fontes históricas e a maneira com a qual quem escreve se relaciona com elas. Na prática, o arquitexto e o método que este traz para a fundamentação de como o texto deve ser redigido, precede à história que será contada como também a construção do objeto, ou seja, os fatos e as consequências dos mesmos, acabam sendo relacionados pelo o que a estruturação textual previamente especificou sobre como a intriga escolhida para a narrativa deve ser fabricada atendendo às expectativas do público leitor e dos pares de quem está escrevendo (Elias, 1996, p. 17).

Para Lozano, estes feitos não existiriam isoladamente, no sentido de que a história se constrói através de uma ação ou trama, ou de uma pergunta relativa à pertinência ou não de um evento específico, alcançando assim a sua solução e significação quando é organizada e fundamentada na construção do relato (Lozano, 1987, p. 62).

Assim como outros textos produzidos por membros da Ordem, os conteúdos obedeciam uma estrutura criada para dar a “realidade narrativa” necessária à “organização funcional e sequencial do texto” (Genette, 1995, p. 12), que fazem com que os livros de Lozano sejam uma narrativa enquanto discurso, ou seja, que seguem o tempo da narrativa e a ordem do texto, enquanto escrita da históriada Companhia de Jesus; e não enquanto história, que seria o tempo cronológico dos acontecimentos circundam o autor no momento em que redige o texto, pois os temas que lhe foram contemporâneos no momento da escrita, não necessariamente foram contemplados na formulação de uma história oficialda Ordem Jesuítica, no que concerne a estrutura e o tempo em si. Além disso, seguindo esta ideia proposta por Genette e, que anteriormente foi proposta por Kristeva, a questão narrativa- -discurso/discurso-história, gira em torno da conjuntura de produção de um texto –ainda visto como um grupo de palavras, princípios, convicções, códigos, etc.–, só terá um significado quando cercado de significantes que o justifiquem –motivações, relações sociais, discussões teórico-metodológicas de uma época, a descrição de tradições e hábitos, conhecimento do idioma em que foi escrito, etc.–, e consequentemente, transforme este discurso em história de uma sociedade, uma Ordem religiosa, um país ou um acontecimento específico -uma guerra ou uma variação climática sem precedentes, por exemplo-. A coerência do fato está correlacionada à transparência e a desambiguação do texto narrativo -no caso de narrativas em línguas estranhas, a tradução serviria como agente facilitador para a acessibilidade e decodificação do que está sendo dito-. Ainda sobre este ponto, em conformidade com Chartier: La narración no podía tener una condición propia pues, según los casos, estaba sometida a las disposiciones y a las figuras del arte retórico, es decir, era considerada como el lugar donde se desplegaba el sentido de los hechos mismo, o era percibida como un obstáculo importante para un conocimiento verdadero.

Sólo el cuestionamiento de esa epistemología de la coincidencia y la toma de conciencia sobre la brecha existente entre el pasado y su representación, entre lo que fue y lo que no es más, y las construcciones narrativas que se proponen ocupar el lugar de ese pasado, permitieron el desarrollo de una reflexión sobre la história entendida como una escritura siempre construída a partir de figuras retóricas y de estructuras narrativas que también son las de la ficción (Chartier, 2007, pp. 21-22).

Em outras palavras, existe o discurso que é pretendido, cujos temas guiam e estruturam o texto, enquanto signo linguístico, sem se importar com o que ele conta, mas sim, como foi disposto e concebido pelo autor. De modo que a linguagem, enquanto “sistema de signos cuyas relaciones producen por sí mismas significados múltiples e inestables”, construiu uma realidade que não pode ser observada como uma “referencia objetiva, externa al discurso, sino que siempre es construida en y por el lenguaje” (Chartier, 2007, p. 67).

Questão que possibilitou a criação de uma realidade simbólica que se manteve nos textos posteriores.

Como também há o discurso como narrativa, em que a redação, mesmo seguindo uma forma pré-estabelecida de escrita, se torna história ao apresentar e trazer particularidades que estão além da arquitetura do texto, dando humanidade ao relato. Ao que diz Lozano a este respeito que se “podría decir que la virtual elaboracion ideológica que supone la construcción de un discurso histórico se establece en la significación de tal discurso.

Conformado así, el discurso histórico, […] es el responsable de la “creación” del hecho histórico en el propio discurso” (Lozano, 1987, p. 135). O que, neste caso, como salienta o autor, faz o acontecimento, quando tomado em si, não apresente a inteligibilidade necessária para que possa ser visto no momento em que o mesmo é colocado em meio a uma rede de outros fatos que o circundam e o atestam. Isto só é possível através da narrativa e do emaranhado de relações factuais estabelecidas que transformam o acontecimento em história. Ainda de acordo com Lozano: En suma, la historia-relato [...] como la reconstrucción de una experiencia vivida sobre el eje del tiempo [pode ser vista como a] reconstrucción inseparable de un mínimum de conceptualización, aunque, se reconoce, dicha conceptualización jamás se explicitó. Se oculta, […] en el interior de la finalidad temporal que estructura todo relato como su sentido mismo (Lozano, 1987, p. 139).

Deste modo, a narração ao se desprender do texto em si –como método, discurso e arquitexto–, e se tornar uma estrutura histórica, pode ser vista como uma maneira de expor as ideias de seu autor de forma que o seu relato seja inteligível ao leitor. Essa busca por um texto acessível e compreensível a todos é um dos fatores fundamentais que afeta a produção de um texto histórico como também a sua recepção. O que faz com que nesse modelo de discurso, as ideias que o mesmo defende e as representações que traz consigo sejam mantidas por longos anos ou séculos, em uma clara percepção de que a história era uma composição narrativa vívida, que dava de si durante todo o processo de escrita, por se tratar de um recurso retórico, situação esta que permite um leitor do século XXI consiga entender textos dos séculos XV, XVI, XVII ou XVIII, com algumas dificuldades de leitura em relação à grafia, estrutura gramatical do texto ou, até mesmo, o sentido de algumas palavras. Além das tentativas, nem sempre exitosas, de decifrar às reais intenções do autor ou a quem foi destinado, mas compreensíveis no que concerne o relato, a linguagem e a narratividade em si. Pois, este leitor moderno não possui as chaves explicativas, que aqueles leram nos séculos anteriores, portavam para a compreensão e decodificação rápida de quais eram os jogos de poder, insinuações, afirmações e ausências circundavam a textualidade do texto (Darton, 2016, p. 49).

Tais representações são responsáveis pela união que as transformam e legitimam como modo de explicação válida em diferentes contextos. Neste tipo de organização e disposição da linguagem e manifestação escrita, podemos encontrar múltiplas manifestações que constituem e caracterizam o arsenal argumentativo de um determinado grupo e a conjuntura histórica a qual pertence, apresentando algumas variações, mudanças, rupturas e continuidades, diante de situações específicas (Baptista, 2004, pp. 21-30). Pois, o discurso “enquanto narrativo, vive da sua relação com a história que conta; enquanto discurso, vive da sua relação com a narração que profere” (Genette, 1995, p. 12) e a inteligibilidade que gera ao ser finalizado. Deste modo, o discurso narrativo pode ser analisado de duas formas: enquanto escrita, que reforça e renova os textos próprios e se fundamenta em outros, anteriores ou contemporâneos, que fundamentam a redação, a narrativa se traduz enquanto discurso e não como história. O que, em outras palavras, significaria que quando se analisa a relação intertextual, a disposição dos textos independe da ordenação cronológica de quando foram escritos, mas é relevante pelo assunto que apresenta.

O que se evidenciava pela reiteração de enunciados, citações como um ato discursivo, enunciações recorrentes, que ligariam os textos uns aos outros, e estabeleciam mecanismos e fórmulas de repetição que interpretariam as relações metatextuais como um exercício de erudição, invocação de autoridade, função ornamental e de amplificação (Compagnon, 1996, p. 67). O trabalho, depois de escrito e estruturado dispondo os seus conteúdos de uma determinada forma, deixa de ser uma diegese –enquanto realidade arquitextual da própria narrativa), e se torna história (o real e o discurso–, como expressão escrita e, do mesmo modo, uma explicitação do saber (Chartier, 2007, p. 25). Esta reunião de textos, escritas, tempos e opiniões distintas tem como significado a incorporação da base necessária para a escrita de um livro de história. Ao mesmo tempo: Esta característica, y la posibilidad de comparar los datos de un libro con los publicados en otros, convirtió el relato histórico en un testimonio sujeto a la confrontación crítica y la verificación. El texto, junto con el mapa, las tablas, las figuras y los diagramas que le acompañaron se convertieron en testimonios fuertes, en puebras que sólo podían ser refutadas por documentos similares (Florescano, 2012, p. 223).

Esta história, de um grupo ou lugar, se traduzia no corpo de texto, ao apresentar os avanços dos trabalhos e ações apostólicas que edificassem e fornecessem informações aos padres, irmãos e noviços nos Colegios Máximos da Companhia de Jesus. O que possibilita reconhecer as dimensões retóricas ou narrativas históricas, sem que estas impliquem na sua capacidade de relatar ou na competência de formular um texto voltado para o conhecimento dos fatos, a partir de provas e de controles feitos, primeiramente por parte de quem escreve, através do uso da documentação (Chartier, 2007, p. 23). Assim como fizeram os jesuítas que o precederam e aqueles que ele referenciava, Pedro Lozano escrevia se valendo de relatos sérios e verídicos, de pessoas que foram testemunhas dos acontecie de documentos oficiais,para que fosse lido. Pois, “uma obra de história é necessariamente formada de outras obras [dado que] o importante é saber se as informações que compõe a narrativa histórica são verdadeiras ou não” (Santos, 2013, p. 50).

O relato de José Cardiel e a narrativa de Pedro Lozano: a arte de memória e o recurso narrativo da história Antes de iniciarmos a discussão do tema, consideramos importante compartilhar a compreensão de texto que adotamos neste artigo. Na definição de Julia Kristeva, texto é um aparelho transliguístico, que objetiva o compartilhamento de informações diretas com diversos enunciados anteriores e sincrônicos a ele. Como está duplamente orientado para o sistema de significante no qual é produzido, enquanto representação da língua e da linguagem de uma sociedade e de uma época determinada busca e pretende traduzir este contexto para um provável leitor. Ao mesmo tempo, como parte constituinte, necessária, mas não indispensável, é influenciado pelo processo social do qual participa enquanto discurso (Kristeva, 2005, p. 83). A autora prossegue, defendendo a ideia de que o texto não se constitui apenas de um conjunto de enunciados gramaticais ou agramaticais, pois, o resultado de qualquer escrita é aquilo que se deixa e é possível ler através das particularidades apresentadas por esta conjunção feita por diferentes estratos de significância presentes em uma mesma língua –ou variantes de um mesmo idioma–, cuja memória é despertada durante a leitura –a história ou a estória–, (Kristeva, 2005, p. 20). Já o texto, enquanto narrativa, este traduz e designa o sentido do seu enunciado, seja ele voltado ao discurso oral ou ao relato escrito, que assume uma correlação direta com um acontecimento ou uma série de fatos desencadeados no momento em que é contado ou recitado por alguém (Genette, 1995, pp. 23-24). Existe, ainda, a possibilidade de que isto aponte para a conexão necessária entre o relato impresso e a oralidade, a despeito das intervenções no texto, no formato do papel, dos caracteres, da presença ou não de ilustrações, orientadas para uma maneira de destinar o texto a um público específico (Chartier, 2002, pp. 67-68).

Nestes relatos, os olhos substituíam os ouvidos, tornando a visão o sentido privilegiado e tido como o mais confiável para a composição, reflexão e elaboração de um discurso sobre o Novo Mundo. A escrita dos olhos acabaria sendo a responsável por uma história imediata, que se distingue da história reflexiva e da história filosófica, como salienta Lozano, ao referir-se à concepção de história elaborada por Hegel (Lozano, 1987, p. 18).

Nesta história imediata, são incluídos Heródoto –viajante– e Tucídides –observador–, por apresentarem relatos de cunho semelhante e por serem vistos como aqueles que escreveram os acontecimentos que testemunharam, mostrando o espírito destes autores, a sua cultura e como o espírito da ação faz com que narrativa e autor sejam um e o mesmo. Já Hartog coloca que a questão da fiabilidade dos textos estava garantida no momento em que o narrador se apresentasse e fosse testemunha, fazendo com que toda a organização textual se bastasse no “eu vi” e na intervenção direta da visão do autor no relato. O mesmo pode ser observado na questão de que o testemunho de algo dá ao agente que viu o status de autoridade e o que for dito por ele terá peso de verdade garantido por quem vier a ler ou ouvir o que por ele foi contado. O eu vi se transforma, consequentemente, no eu digo porque eu sei e empresta ao autor, em livros ou textos posteriores, a posição do argumento da autoridade –argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit–, pois, saber historicamente é ver e ser capaz de descrever os fatos (Hartog, 1999, p. 273)1.

Outro silogismo que dava autoridade àquele que escrevia era o “eu ouvi”, embora este o colocasse em uma situação de segunda categoria na questão do discurso reflexivo ou filosófico, ficando quase na condição de uma narrativa de segunda mão, sendo constantemente colocado sob suspeita de se tratar de uma fraude (Lozano, 1987, p. 19). Essa percepção, que faz a audição perder a sua relevância, tem como consequência o isolamento da fala dentro da escrita, pois ela se perde nos enunciados e nas leituras que seriam feitas (Compagnon, 1996, pp. 76-77). De acordo com Florescano: Por primera vez el relato del viajero y del historiador registro las peripecias de la aventura humana en los escenarios más apartados y las comunicó a seres de culturas diversas. Gracias al libro impreso, el ciudadano de un país pudo ser contemporáneo de civilizaciones extrañas y llegó a conocer los itinerarios históricos de pueblos hasta entonces ignorados (Florescano, 2012, p. 81).

Os diários de viagem relaciones e crônicas, por trazerem descrições geográficas, etnográficas e da natureza das regiões, se estabeleceram como fonte incontestável sobre o que estava sendo narrado, ainda que dependessem, em alguns momentos, da descrição oral para existir (Florescano, 2012, p. 184).Se tratando do relato sobre a viagem para o Estreito de Magalhães, resumidamente, é um texto que tratou de uma expedição para o conhecimento e registro dessas terras com o objetivo de encontrar locais aptos ao desembarque de navios nas proximidades, a possível construção de um porto e uma colônia espanhola e, quem sabe, a possibilidade de conversão de índios que vivessem nestas terras. Entretanto, em José Cardiel, percebemos que o viajar seria mais que a viagem, pelo número de tentativas frustradas na busca de indígenas, de terras férteis, de água doce ou de vestígios da passagem de pessoas por aquele lugar. O que nos mostra, na medida em que a terra se mostra deserta e hostil à presença humana, uma constante busca por algo que nos informa muito mais do desejo, do espírito que traduz a ideia de missão e da personalidade de Cardiel de buscar o encontro com os índios hostis, fossem Araucanos ou Puelches, e se autoafirmar como missionário do que propriamente como seria a costa Magalânica e a sequência dos dias em que se desenvolve a expedição. Mas, será que ele se reconhece em meio a um lugar estranho e que só é possível encontrar esqueletos e animais empalhados? Embora seja um trecho longo da carta deste jesuíta, é importante trazermos o seu relato com a proposta de que se trata da primeira viagem em que ele descreve uma parte do que viu e vivenciou, enquanto esteve nos territórios que abrangiam o estreito.Logo, conforme o próprio Cardiel: Pusose en ejecucion el orden real, apresiose para ello la fragata San Antonio que acabada de llegar de España y con ella 25 soldados por no caber mas con los marineros y viveres de seis meses. Fuimos señalados por misioneros el Padre Matias Strobel y yo. Llevaban orden los soldados de estar en todo a nuestra obediencia. En la navegación con la frecuencia de pláticas, lecciones sacras, novenas y frecuencia de sacramentos que entablamos, se quitaron presto los juramentos y blasfemias a que es inclinada esta gente. Eramos entre todos ochencha personas. Saltamos a tierra en diversas costas, registrando por un lado y por otro. Ibamos a veces por entre escollos como por costas incógnitas con grande riesgo. Padecimos fuertes tempestades del sudueste que aqui llaman Pampero que nos echaba a alta mar alejándonos de tierra. Es reparo que hicimos entonces y en dos años que han pasado después acá. Hallamos tres ensenadas y tres buenos puertos, pero ni en aquellos ni en estos había leña ni agua buena, ni pasto ni tierra de sustancia, calidades necesarias para poblar, ni rastros algunos de indios. Sólo en un pueblo hallamos agua buena y abundante a tres leguas de la mar, y a cinco leguas un sepulcro con tres difuntos indios y cinco caballos muertos embutidos de paja y puestos sobre palos como piernas que parecían vivos, mirando a la cabaña que servía de sepulcro y era de ramos de matorrales y cerca mucho estiercol de caballo no nuevo y una senda que proseguía tierra adentro.

Prosegui yo con treinta hombres con intento de caminar a 5 leguas en 4 dias, persuadidos a que en ese espacio habitarían indios en donde consiguientemente habría pasto para sus caballos y leña para alivio del temple riguroso, pues estaba en 49 grados y tierra buena para sementeras cual es la que cria buen pasto y se podría en este espacio formar la colonia pretendida desde donde podrían socorrer al castillo y navios del buen puerto y nosotros podríamos allí hacer asiento y desde allí hacer salidas a todas aquellas tierras para la conversión que pretendíamos. Y si en este espacio no se encontraba tierra para poblar, aunque se encontrase más adelante, ya era mucha incomodidad la larga distancia hasta el puerto. Caminamos cada dia 6 y 7 leguas cargados con la ración de vizcocho y tasajos de vaca para ocho dias de ida y vuelta. No hallamos indio ni más buenas calidades de tierra que las de alrededor del puerto, y el último dia que era el cuarto vimos desde un alto unas grandes sierras a distancia de diez o doce leguas. Volvimos desconsolados. Entramos en consejo con el capitan y demás Cabos, los tres Padres, y se resolvió que no era conveniente ni conforme a la voluntad del Rey el quedarnos allí, y mucho menos en los parajes registrados por falta de las cosas necesarias ya dichas. Proseguimos a la vuelta en registrar otros parajes y todo lo hallamos desierto y esteril por lo visto, con que nos volvimos del todo a Buenos Aires después de cuatro meses de penosa y peligrosa navegación (Cardiel, 1930, pp. 22-23).

O estereótipo de um lugar hostil, deserto e que, em alguns momentos, se traduz em imagens de um verdadeiro cemitério de sal e solidão, evidenciam a visão que Cardiel tem e busca afirmar como uma terra sem vida e de ninguém. A terra é o espelho do vazio, da ausência de significados que o jesuíta busca nesta expedição, que seria encontrar o outro, a espécie de nativo que desse um sentido para aquele espaço e que ajudasse a definir aquele território. Ao mesmo tempo, o lugar se apresenta como uma resposta ou uma realidade de que nem todos os esforços feitos pelos membros da Companhia de Jesus eram exitosos, mesmo que no final de seus textos tudo terminasse bem. Ainda pode ser visto como um relato de autoafirmação como missionário, embora em Pedro Lozano a representação de José Cardiel como um apóstolo incansável seja mais visível, que não desiste diante das intempéries que aparecem e das frustrações que surgem a cada negativa que o espaço dá ao não compactuar com as expectativas que foram criadas. Em outras palavras, os membros da Ordem Jesuítica, mesmo contra a sua vontade, são a “vanguarda do império” nas fronteiras e nos espaços que devem ser (re)conhecidos e catalogados pelos espanhóis nas fronteiras, uma vez que são aqueles (os missionários) os que têm a possibilidade, na maioria das vezes, de levar a ocidentalização a esses confins e produzir relatos sobre o meio ambiente e populações (Del Valle, 2009, p. 13). Por último, o que Cardiel tenta descrever é a Ordem de Santo Ignacio como uma das frentes de colonização que estava disponível à Coroa Bourbônica e que se mostrava incansável na descoberta de novos territórios e na ampliação territorial espanhola. O que não nos impede, de observarmos, que as queixas de Cardiel com relação a este deserto, pode significar uma contrariedade ao se deparar com uma situação em que o apoio institucional era amplo, com o auxílio de soldados e marinheiros, para que a expedição fosse bem sucedida, mas que fracassa pela falta de informações concretas “e da ajudaoferecidas pelas populações das áreas percorridas” (Martins, 2010, p. 12), que neste caso não existem e que acarretaram no abandono desta iniciativa.

Com o fim desta iniciativa e a existência de um relato de fracasso –ou quem sabe um sucesso fora do padrão?–, abre espaço para a segunda viagem que é transcrita e narrada por Pedro Lozano. Um relato feito de segunda mão, com filtragens, censuras inserções e um roubo da memória de Cardiel para a construção de um novo texto padronizado e limpo de reclamações ou frustrações. A primeira questão, antes de trazermos os trechos que Lozano refaz esta narrativa de Cardiel, é que temos de ter em mente que no Diario de un viage o missionário não é quem narra a sua trajetória e, tão pouco, é ele mesmo quem se posiciona ou se traduz ao seu leitor o espaço pelo qual transita e o que reflete sobre ele. Ou seja, de autor, ele vira ator de um novo texto. Cardiel se torna um personagem de Lozano e é colocado como uma figura que representa o missionário-apóstolo por excelência que guia o leitor –sobretudo a imaginação de quem lê e do próprio Lozano que reconstrói textualmente o trajeto–, deste relato pelas terras que percorre. É neste momento em que percebemos uma convergência no texto de Cardiel e no de Lozano, quando estes trazem intrinsecamente as orientações que foram dadas por Cícero, para quem a escrita da história deveria ser bem narrada, épica e cativante, o que acabava também se agregavam a ideia de uma história exemplar e pedagógica. Sua elaboração servia como modelo moral, edificante e pragmático, não devendo haver preocupação com a cronologia (Woodman, 1998, p. 74). Nestas instruções, o discurso deveria apresentar uma divisão “com exórdio, narração, argumentação e conclusão. Centra[ndo]-se, entretanto, no exórdio e nas ‘cores’ (as figuras ou ornatos da elocução), que têm a função de fazer com que o público fique ‘atento’, dócil e bem-disposto (attentio, docilitas, captatio benevolentiae” (Pécora, 1999, p.375. Grifo nosso).

Para a melhor compreensão sobre como um texto é estruturado, recorremos ao conceito de arquitexto, que nos auxilia na análise da estrutura textual que a escrita jesuítica deveria observar. Mesmo que se trate de um conceito trans-histórico, ou melhor, que apresenta “um ritmo sensivelmente mais lento do que aqueles que a História –‘literária’ e ‘geral’–tem habitualmente que conhecer” (Genette, 1987, p. 93), ele se configura em determinações temáticas e em características formais que orientam a estruturação de um texto.

Através do aprendizado da arquitetura do texto e do ofício, aquele que escreve passa a montar, desmontar e refazer os modelos de escrita que foram herdados dos seus antepassados, de modo que Quiere sobre todo representar la realidad del pasado, y para ello comienza por seleccionar las fuentes idóneas y comprobar la veracidad de su contenido; luego, para fijar la dimensión de esos datos, está obligado a confrontarlos con su contexto espacial y temporal, y finalmente tiene que darle a todo ello un acabado, una presentación escrita (Florescano, 2012, p. 258).

Além disso, este conceito, que privilegia a relação entre textos, se apresenta como uma possibilidade de entender as relações transtextuais, que transcendem o texto, ultrapassando e incluindo a arquitextualidade, e outros tipos de vinculações transtextuais como o intertexto e o intratexto (Genette, 2010, p. 11). O primeiro, no sentido estrito do termo intertexto, significa que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (Kristeva, 2005, p. 68), como proposto por Kristeva, formando uma conexão entre livros de autores diferentes que se referenciam direta ou indiretamente na formulação de suas obras. O segundo, chamado por Gérard Genett de intratextualidade ou autotextualidade, configuraria o elo que associa os textos produzidos por um mesmo escritor e faz com que este seja reconhecido apenas pela sua redação (Genette, 2010, p. 58).

Deste modo, o primeiro olhar se perde em meio a um olhar institucional, que bloqueia e tenta tolher o relato para se apresentar como um discurso em que a infalibilidade dos trabalhos jesuíticos, independente de qual fossem, era presente e deveria ser enfatizada como um modo de mostrar a necessidade da presença da Ordem naquelas terras indômitas. Este primeiro olhar e as suas considerações também são abandonadas em meio a uma série de inserções, correções, reconsiderações que reorganizam a ordem do discurso para que ele se adeque ao discurso da Companhia de Jesus. Nas palavras de Pedro Lozano: Embarcáronse por fin á 5 de Diciembre de 1745, y el lúnes 6 á las diez horas de dia, habiendo disparado la pieza de leva, se hicieron á la vela en nombre de Dios, con viento fresco, y salieron á ponerse en franquía en el amarradero, que dista tres leguas de Buenos Aires. De allí salieron martes, á las nueve y media de la mañana, y con distar Montevideo solas cincuenta leguas de Buenos Aires, no pudieron tomar su puerto hasta el lúnes 13, que á las once y media del dia dieron fondo en medio de su ensenada. Allí, entre la gente de aquel presidio, se eligieron los veinte y cinco soldados, que se habian de embarcar, á cargo del alferez D. Salvador Martin de Olmo: porque, aunque deseaba el Señor Gobernador de Buenos Aires, que fuese mayor el número de los soldados, y habia otros muchos que se ofrecian voluntariamente á esta expedicion, no fué posible aumentar el número, por no permitirlo el buque del navichuelo. El comandante de Montevideo, D. Domingo Santos Uriarte, vizcaino, egecutó cuanto estuvo de su parte para el avio de la gente y de los misioneros, con la presteza posible. Con que el dia 16 de Diciembre estuvo el navio ya pronto á salir; pero por calmar el nord-nord-este, y soplar el sud-este, no se pudieron hacer á la vela hasta el viernes 17 á las cuatro y media de la mañana, con nord-nord-este y norte. […] La niebla densa casi no les permitia descubrir la tierra, y no se adelgazó hasta las seis y media de la tarde, pasando sin ver la isla de Flores. Domingo 19 dieron fondo á vista de la isla de Lobos, que les quedó al nor-nord-este, á tres leguas de distancia. Tiene esta isla de largo tres cuartos de legua, y corre este-sud-este, oeste-nord-este: al este-sud-este sale un arrecife con algunas piedras que conviene evitar. Este domingo, haciendo una plática el padre Matias Strobl, se dió principio por nuestros misioneros á la novena de San Francisco Javier, escogiéndole de parecer comun, por patron del viage. Asistian todos al santo sacrificio de la misa, que se decia una todos los dias cuando el tiempo lo permitia, y en los dias festivos dos. Se rezaba de comunidad el rosario de Nuestra Señora, y en la novena se añadió leccion espiritual todos los dias y pláticas, para disponer la gente á que se confesasen y comulgasen, como lo hicieron al fin de ella todos con mucha piedad. Para desterrar la costumbre de jurar, que suele reinar entre soldados y marineros, se impuso pena, á que todos se obligaron, de quien quiera que faltase, hubiese luego de besar el suelo, diciéndole los presentes: Viva Jesus, bese el suelo. De esta manera, en devocion y conformidad cristiana, se prosiguió la navegacion; y hallándose el martes 21, en 35 grados, 11 minutos de latitud austral, varió la brújula al norte 17 grados. […] El viernes 7, comenzó á subir la marea á las 7 y 15 minutos de la mañana. A las nueve volvió á subir á tierra el Padre Cardiel con el alferez D. Salvador Martinez y 16 soldados de escolta, á ver si encontraban indios tierra adentro. A la misma hora entraron en la lancha armada el capitan del navio D. Joaquin de Olivares, los dos pilotos, el Padre superior Matias Strobl, el Padre Quiroga, el cabo de escuadra y algunos soldados, á registrar por agua el fin del puerto, y ver tambien si hallaban indios. Navegaron al oeste, costeando por el sur la isla de las Pinguinas, y sondando el canal hasta la isla de los Pájaros. Entraron por entre la isla y tierra firme, y registraron un caño pequeño muy abrigado que parece rio. Saltaron en tierra, y subieron á lo alto de los cerros á reconocer la tierra que es toda seca y quebrada, llena de lomas y peñasquerias de piedra del cal, sin arboleda alguna: solamente hay en los valles leña para quemar de espinos, sabinas y otros arbolitos muy pequeños, y de este jaez es toda la costa ó banda septentrional de este puerto. Desde la isla de los Pájaros, que hace abrigo á una ensenadilla muy segura, para invernar cualesquiera embarcaciones, pasaron á otra ensenada mas al oeste, en frente de la isla de los Reyes, en la misma costa septentrional: buscaron allí agua, y solamente hallaron en un valle un pozo antiguo de agua salobre, que, segun se tiene entendido, fué la única que hallaron en este puerto los holandeses. Desde aquí se volvieron al navio (Lozano, 1836, pp. 3-5). O que demonstra a busca de Lozano por um apoio nos textos escritos pelos padres Matias Strobel e José Quiroga para arrumar o texto de José Cardiel e reorganizá-lo de modo que ficasse mais inteligível ao leitor que se deparasse com o discurso. Com relação a este tema, do uso de diversos autores para a recomposição de uma narrativa, Samoyault, Compagnon e Genette, a partir de diferentes pontos de vista, apontam para os aspectos fundamentais que caracterizam a utilização de citações (presença direta de um texto no outro), alusões (co-presença indireta) e da reescrita, os apresentando como a associação existente entre dois ou mais textos que mantêm entre si uma conexão e convergem em uma narrativa de segunda mão “em que um metatexto [...] ‘fala’ de um texto” (Genette, 2010, p. 16) e faz com que o hipotexto (texto anterior) seja parte do hipertexto (texto em processo de desenvolvimento). Para Compagnon: Talvez o estatuto dessas unidades não tenha uma diferença essencial, que elas sejam citações ou não, nem que alterem muita coisa na escrita. [...] O trabalho da escrita é uma reescrita já que se trata de converter elementos separados e descontínuos em um todo contínuo e coerente, de juntá-los, de compreendê- -los (de tomá-los juntos), isto é, de lê-los. [...] Reescrever, reproduzir um texto a partir de suas iscas, é organizá-las ou associá-las, fazer ligações ou as transições que se impõem entre os elementos postos em presença um do outro: toda escrita é colagem e glosa, citação e comentário (Compagnon, 1996, pp. 38-39). Samoyault complementa, afirmando que: É impossível assim pintar um quadro analítico das relações que os textos estabelecem entre si: da mesma natureza, nascem uns dos outros; influenciam uns aos outros, segundo o princípio de uma geração não espontânea; ao mesmo tempo não há nunca reprodução pura e simples ou adoção plena. A retomada de um texto existente pode ser aleatória ou consentida, vaga lembrança, homenagem explícita ou ainda submissão a um modelo, subversão do cânon ou inspiração voluntária (Samoyault, 2008, pp. 9-10). Assim sendo, quando um texto efetivamente se torna parte ou modelo estrutural de outro, seja pela citação “com ou sem referências precisas”, ou por uma alusão, enquanto “enunciado cuja compreensão plena supõe a percepção de uma relação entre ele e um outro” (Genette, 2010, p. 12), nos permite observar como este relato refeito por Pedro Lozano podem ter sido elaborados e como o autor se refere ou remete ao uso que faz de outros textos para criar a sua própria redação. Iniciando, dentro dos padrões pré-estabelecidos dos temas que deveriam ser abordados nos relatos jesuíticos, Pedro Lozano prioriza que no relato apareça primeiro uma visão mais abrangente do território para depois entrar nas questões relativas à ausência de habitantes na região e fazer uma representação textual da terra como cemitério de sal, ossos e animais empalhados, como já havíamos comentado anteriormente, de forma que este espaço fosse visto como um lugar inóspito e indômito à presença humana. O que neste caso é descrito como: Lúnes 14, salieron en la forma dicha el Padre Strobl por la parte oriental, y el Padre Cardiel por la occidental, y caminando aquel al sur, como cosa de seis leguas, encontró una laguna que bojearia una legua, toda cuajada de sal, distante del mar tres cuartos de legua, y otro tanto del fin de la bahia. Los soldados encendieron los matorrales que hallaron, y corrió el fuego dos leguas. La tierra era la misma que en el viage antecedente. La gente, que con el Padre Cardiel iban hácia el poniente, pegaron tambien fuego en la yerba de los campos, y subió el fuego hasta muy alto. Hizo noche dicho Padre Cardiel como seis leguas al poniente de la bahia, en donde hallaron agua dulce. Por la mañana del martes 15, despues de rezar, y haberse todos encomendado á Dios, prosiguieron su viage, y á distancia de una legua de la dormida, dieron con una casa, que por un lado tenia seis banderas de paño de varios colores, de media vara en cuadro, en unos palos altos, clavados en tierra, y por el otro lado cinco caballos muertos, embutidos de paja, con sus clines y cola, clavados cada uno sobre tres palos en altura competente. Entrando en la casa, hallaron dos ponchos tendidos, y cabando encontraron con tres difuntos, que todavia tenian carne y cabello. El uno parecia varon, y los otros mugeres: en el cabello de una de estas habia una plancha de laton de media cuarta de largo, y dos dedos de ancho, y en las orejas, zarcillos de lo mismo. En lo alto de la casa habia otro poncho revuelto, y atado con una faja de lana de colores, y de ella salia un palo largo como veleta, de que pendian ocho borlas largas de lana amusca. Segun estas señas, los difuntos eran de la nacion Puelche. Pasaron adelante en busca de los que habian hecho aquel entierro, creyendo dar luego con ellos, y juntamente con tierra habitable; mas, aunque caminaron otras tres leguas, no hallaron rastro y se les acabó el bastimento.

Quisieron los soldados cazar patos en las lagunas que se encontraban, y como era con bala, no mataban nada (Lozano, 1836, p. 16).

E prossegue Lozano, através da reconstrução dos passos de Cardiel, a descrição desta ausência do outro ao narrar que: Caminaron en esta forma cuatro jornadas, de á 6 y 7 leguas cada dia, casi siempre por un camino de indios, de un solo pié de ancho, que estaba lleno de estiercol de caballos y potrillos, ya antiguo, y por manantiales de agua muy buena. Al fin de las cuatro jornadas se desviaron de la senda á una cuesta alta, desde donde mirando con un anteojo de larga vista, descubrieron la tierra de la calidad que la demas. Anduvieron en estos cuatro dias, cosa de 25 leguas sin hallar árbol alguno, ni pasto, sino algo de heno verde en los manantiales, ni tierra de migajon para sembrar, sino toda esteril: agua sí, y en abundancia en varios manantiales, por donde iba el camino ó senda de los indios; y por donde no la habia, lagunas todas de agua dulce. No vieron humo alguno, ni se encontraron animales del campo, sino unos pocos guanacos que huian de media legua, y tal cual avestruz, de los que mataron uno, siendo esteril de caza toda la campaña y cuestas: ni aun pájaros se oyeron, sino es tal ó cual. Hubiéronse, pues, de volver harto desconsolados. La gente se portó con mucha constancia, aunque unos á pocos dias iban ya descalzos, otros con ampollas en los pies, y otros con llagas, y los mas al sexto dia estaban estropeados. El Padre Cardiel á pocos dias padeció muchos dolores en las junturas de las piernas, de manera que al quinto no podia caminar sin muletas; y no hallando otro remedio, que ponerse en ellas paños empapados en orina: con esto solo y la providencia paternal de Dios pudo proseguir. El frio de noche les molestaba mucho; y aunque con los escasos matorrales que hallaban, tenian fuego toda la noche, como no llevaban mantas, ni con que cubrirse, por un lado se calentaban y por otro se helaban sin poder dormir.[…]Con todos estos trabajos estaba tan vigoroso el ánimo del Padre Cardiel, que si hubiera sido sui juris, se hubiera venido por tierra, descubriéndolo lo que hay acerca de los decantados, ó encantados Césares, y de naciones dispuestas á recibir el Evangelio, para lo cual ya se le habian ofrecido algunos de su comitiva. Porque se hacia la cuenta, que con abalorios que llevaba, podria comprar caballos de los indios, y cautivarles voluntades; pero como no esperaba conseguir licencia para practicar esta especie, trató de volverse al puerto en otras cuatro jornadas. En estos ocho dias, que se tardó el Padre Cardiel en esta expedicion, observó el Padre Quiroga con un cuadrante astronómico la latitud de esta bahia de San Julian: y segun estas observaciones, la primera entrada de la bahia está en 49 grados, y 12 minutos: el medio en 49 grados y 15 minutos. El martes 22, á las 4 de la mañana, se embarcaron en la lancha el Padre Mathias Strobl, el Padre Joseph Quiroga, el piloto D. Diego Varela y el alferez D. Salvador Martinez Olmo, y salieron á la primera ensenada de la bahia, y saltando en tierra, caminaron hácia el norte á reconocer la laguna, que habian descubierto los dias antecedentes. A los tres cuartos de legua hallaron en lo alto, entre unos cerros, otra laguna de agua dulce, que tiene de circuito una legua. Mas adelante, á dos leguas de la ensenada, donde desembarcaron este dia, hallaron la laguna grande; pero toda cubierta de sal: tiene tres leguas de largo, y mas de una de ancho. Pasaron á la otra banda por ver si hallaban algunos árboles, y no hallaron sino matorrales, que solamente tienen leña para quemar. En esta travesía de la laguna les calentó mucho el sol; y su reflexion en la sal blanca como la nieve les ofendia la vista. Hallaron siete ú ocho vicuñas, y un guanaco, y á la banda del sur de la laguna, un pozo de agua dulce. Por la banda del este de esta laguna hay una buena llanura, y luego está el mar á una legua de distancia. A las 4 de la tarde de este dia estuvieron ya á bordo (Lozano, 1836, pp. 19-20).

Para finalizar a narração do trabalho de José Cardiel, dentro da expedição, apresentando os argumentos que fizeram com que a expedição não fosse bem sucedida, embora tivesse observado e respondido a questões que ainda estavam em aberto com relação ás fronteiras deste deserto e à sua extensão territorial, que ainda não havia sido medida para fins de conhecimento da Coroa espanhola. O que, nas palavras de Lozano na posição de narrador dos feitos de Cardiel e, em alguns momentos de Quiroga e Strobel, seriam colocadas deste modo:Los puertos son muy pocos: solamente en el Puerto Deseado, en San Julian y en la bahia de San Gregorio se halla abrigo para los navios. En el Puerto Deseado hay una fuente, de la cual en caso de necesidad pueden hacer aguada los navios. Todo lo restante de la costa está seco y árido, que no se vé un árbol, ni hay donde se pueda hacer leña gruesa: de algunos matorrales se puede hacer algun poco en la bahia de San Julian, en donde se hallará tambien mucha pesca y abundancia de sal. En tiempo de verano se siente algo de frio; pero en el invierno no puede menos de ser excesivo, á causa de las muchas nieves que caen en las cordilleras. Estas no fecundan la tierra, antes la dejan tan seca y esteril que parece incapaz de producir fruto alguno. Toda la costa parece que está desierta, ni hay indios en parte alguna cerca del mar, desde el Cabo de San Antonio al Cabo de las Vírgenes: porque siendo la tierra de la costa salitrosa é infructífera, no tienen de que mantenerse; y si en alguna parte los hubiera, hubieran estos navegantes visto algunos fuegos, ó humaderas en las partes donde surgieron y saltaron en tierra. Por tanto parece que los indios viven muy tierra adentro hácia la falda de la Cordillera de Chile. Hánse descubierto con este viage y registro varias falsedades que tienen los derroteros de algunos viageros extrangeros, porque en cuanto á los rios que ellos señalan, se ha visto ahora que son imaginarios, y que á lo mas solo debe de correr agua por ellos en tiempo de lluvias y nieves: con que queda claro, que desde el rio del Sauce, que es el que otros llaman el Desaguadero, no hay ningun otro rio hasta el estrecho de Magallanes. Los extrangeros no parece que fueron de propósito á registrar costas, como estos nuestros españoles, y así dijeron aquellos lo que desde lejos les pareció. Pudiera ser que á los españoles se les hubiera ocultado alguno, aunque han puesto sumo cuidado, porque es cosa dificil verlo todo desde el navio, entre peñascos, quebradas y bancos; pero parece han hecho cuanta diligencia cabe, y que en los parages donde pararon, saltaron á tierra, é hicieron registro, no hay duda que han hallado fabulosos los rios que otros señalaban, y varias otras cosas que por sus diarios nos habian hecho creer los dichos extrangeros. Tal parece lo que dicen, que se encontraron en las cuestas altas del Puerto Deseado sepulcros de gigantes, cuyos huesos eran de once pies de largo: porque los huesos de los cadáveres que ahora se encontraron, eran de estatura ordinaria. Añaden dichos diarios extrangeros, que en una ensenada del Puerto Deseado, que señalan en sus mapas, hay mucha pesca. Nuestros españoles se pusieron allí á pescar y no hallaron cosa alguna. Cuentan tambien los diarios extrangeros, que en San Julian hay megillones, ú ostiones de once palmos de diámetro; y despues de registrar tanto nuestros españoles, no han hallado mas que lo dicho en la descripcion, puesta arriba, de la bahia de San Julian (Lozano, 1836, pp. 32-33).

Neste ponto, como fechamento do que pode ser visto nesta recomposição em passagens longas de um relato é que, possivelmente, há uma diferença na concepção de estrutura do relato como imagem oficial da Companhia de Jesus, embora todos os jesuítas devessem seguir os mesmos critérios para a escrita de seus textos. Esta diferença de visões e textual entre José Cardiel e Pedro Lozano, ainda reflete as suas posições dentro da Ordem de Santo Ignacio, pois, enquanto o primeiro era missionário, o segundo, se tratava do historiador e Censor Oficial dos textos que eram produzidos por seus companheiros de Ordem que estavam missionando na Província Jesuítica do Paraguay. Fato este que colocava Lozano na condição de ter acesso ao que era visto e descrito por seus correligionários, tendo a oportunidade de confrontar, comparar e verificar os textos, o que lhe dava uma conjuntura favorável para que “deles [pudesse] extrair citações e exemplos”, bem como ampliar com outras informações o que considerasse mais relevante para a sua argumentação. De modo que as suas anotações e a organização que deu a elas transpareçam no texto “de maneira [que o leitor pudesse]a encontrar e indexar mais facilmente as passagens que haviam chamado a sua atenção” (Cavallo; Chartier, 1998, p. 32. Grifo nosso).

Algumas considerações finais: a utilização da teoria linguística para analisar a escrita jesuítica Deste modo, seguindo estas questões, levantadas por Genette, Kristeva, Compagnon, Chartier e Samoyault, podemos considerar e pensa como as citações, alusões e inspirações, presentes na obra do jesuíta podem representar a relação que teve, enquanto leitor, com estes textos e quais autores acabaram sendo mais referenciados e submetidos a considerações ou críticas quando comparados aos outros, igualmente, mencionados no texto. De modo que, a escrita se apresente como um agente que possibilita a quem escreve tecer comentários, polemizar ou criticar outras interpretações dos fatos que “pueden ir desde el error hasta la falta de comprensión o a la ausencia de una explicación veraz” (Lozano, 1987, p. 198). Igualmente, consideramos o que diz Medeiros, que essa escrita se relacionava com outras que foram desenvolvidas na mesma época e contexto (Medeiros, 2011, p. 11).

Ao mesmo tempo, podemos questionar o significado que a ausência do nome de alguns autores e seus livros que aparecem no texto de Pedro Lozano de forma fluída como se fossem do próprio jesuíta pode transmitir no corpo do livro: a primeira hipótese seria a introjeção de alguns temas, matérias, pensamentos, de tal maneira, que Lozano toma para si aquela ideia como sua; isto nos leva a segunda possibilidade, que envolveria o argumento de que exista, quem sabe, algum esquecimento, ou seja, em meio as leituras, anotações e reflexões, alguma referência tenha escapado. Outro ponto que deve ser levantado é o que Maeder ressalta quanto a escrita do jesuíta, em que o descreve como Un cronista concienzudo, que procuro no sólo ordenar el desarrollo histórico de las tres provincias [Paraguay, Río de la Plata y Tucumán], sino que hizo todo lo que estaba a su alcance para disponer de datos fidedignos con que documentar la relación de lo acontecido en esos distintos a lo largo de más de dos siglos. En tal sentido, se apoyó inicialmente en las crónicas y relatos de sus antecesores, buscó y transcribió documentos, fue celoso en alcanzar precisiones cronológicas, exactitud en los nombres y circunstancias de los protagonistas principales e incluso, ejerció la crítica de la bibliografía de su tiempo (Maeder, 2010, p. 25. Grifo nosso).

Estas reflexões permitem pensarmos que dificilmente a cópia de algum texto sem referência, em meio a um texto repleto de citações relacionadas ao nome de seus respectivos autores, fosse um ato pensado para se apropriar das ideias de outro de forma deliberada.

Possibilita, ainda, pensarmos naquilo que Genette chama de intratextualidade, que seria “a sequência e as inumeráveis formas de integração narrativa que a ele se ligam” e faz com que o autor “imite a si mesmo de alguma forma [trazendo] vários textos, que de algum modo remetem uns aos outros” (Genette, 2010, pp. 57-58). Essa correspondência intra/ intertextual é responsável por parte do que compõe a arquitextualidade do texto, ou seja, “o conjunto de categorias gerais ou transcendentes –tipos de discursos, modos de enunciação, gêneros literários, etc.– do qual se destaca cada texto singular” (Genette, 2010, p.11). A arquitextualidade seria a estrutura formadora do texto e, neste caso específico, acabaria sendo a responsável pela disposição em que os temas das instruções da Companhia de Jesus foram apresentados e viriam a caracterizar a historiografia jesuítica.

Notas 1. Conforme Jorge Lozano, a questão do argumento da autoridade ganha força com as ideias de Santo Agostinho, para quem a complexidade de experiência temporal demonstra que o passado não pode ser conhecido sem que haja o testemunho de uma fonte confiável, para alcançar o passado. Este pensamento permeou toda a Idade Média e fez com que o passado começasse a ser visto como um objeto de fé, oposto ao presente. Deste modo, os cronistas medievais tiveram que basear o que escreviam no que era proporcionado pela tradição e na autoridade reconhecida pela Igreja, tais como textos oriundos de representantes da monarquia; estudos sobre os mais diversos temas saídos das universidades; relatos feitos por homens de alta posição e vida comprovadamente exemplar ou qualquer manuscrito que corroborasse a santidade de quem o transmitia. Somente estes textos eram vistos como comprometidos com a propagação da fé e percebidos como uma narrativa verdadeira (Lozano, 1987, p. 31). Esta concepção se mantém nos séculos XVI, XVII e XVIII, não apenas nos textos das ordens religiosas, mas também nos livros dos cronistas oficiais.

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Resumen: El presente artículo pretende realizar un estudio comparativo entre el discurso de José Cardiel, SJ. y Pedro Lozano, SJ. sobre la expedición hecha al Estrecho de Magallanes (1745/1746) como una forma de mostrar y reflexionar de que modo un discurso directo (de aquel que participó del evento o fue testigo de los eventos) pasa por un filtro al ser reelaborado por otra persona. Buscamos analizar, de modo equitativo, la cuestión del viaje por medio de la escritura como una forma de conocimiento personal y de tránsito en una geografía extraña. Entretanto, esta geografía desconocida será la que permita que exista una autorreflexión que lleve al autor a recolocar los hechos bajo la perspectiva de una ausencia de esa extrañeza anterior. El viaje y su descripción son importantes, desde esta perspectiva, dado que puede ser analizado como un arte de la memoria y como un recurso narrativo de la historia; como un género discursivo que puede pasar por alteraciones a pesar que sean dos viajes realizados (uno de autoconocimiento que se relaciona con el acto de viajar físicamente para otros lugares y, un viaje literario: que es el viaje que se realiza a través de la lectura y de la imaginación). Esta reflexión nos permite pensar cuánto de la inserción de un nuevo bies narrativo puede alterar el significado original de un texto, tal como ocurrió en el Diario de un Viaje (1746); lo cual sucedió por medio de imprecisiones o un incrementar temas que no eran abordados en la carta redirigida por Cardiel aquel mismo año. Para alcanzar este objetivo utilizamos como concepto teórico-metodológico el de discurso narrativo (Genette) y así poder guiar nuestro análisis que considera la reescritura de un texto como una narrativa de segunda mano, en donde el relato original es modificado, transformado y distanciado de aquel que fue propuesto por el autor que vivenció aquello que relataba.

Palabras clave: Historiografía jesuítica - Discurso narrativo - Diario de un Viaje - Pedro Lozano - José Cardiel.

Abstract: The present article intends to make a comparative study between the speech of José Cardiel, SJ and Pedro Lozano, SJ on the expedition made to the Strait of Magellan (1745/1746), as a way of showing and reflecting in what way a direct discourse participated in the event and was a witness of the facts) undergoes a filtering when being redone by another person. Equally, we seek to analyze the issue of travel through writing as a form of personal knowledge and displacement in a strange geography. However, it will be this unknown geography, which causes the author to re-think such facts in the perspective of an absence of this previous strangeness. The journey and its description are important in this perspective because it can be analyzed as an art of memory and as a narrative resource of history, as a discursive genre that can undergo changes even if they are two journeys (that of self-knowledge that relates to the act of traveling to other places physically, the literary, which is the journey through reading and imagination). Such reflection allows us to think about the insertion of a new narrative bias to a specific text can change its original meaning, as occurred in the Diario de un viage (1746), through inaccuracies or the addition of subjects that were not addressed in the letter written by Cardiel in the same year.

For this, we use as a theoretical-methodological concept of narrative discourse (Genette), to guide our analysis, in which a second-hand narrative is considered as a rewriting of a text, in which the original account is modified, transformed and distanced from was proposed by its author.

Keywords: Jesuit Historiography - Narrative Discourse - Diario de un viage - Pedro Lozano - José Cardiel.

[Las traducciones de los abstracts fueron supervisadas por el autor de cada artículo]


Diario de un viage (1746): um estudo comparativo sobre o discurso narrativo de José Cardiel, S.J. e Pedro Lozano, S.J e suas aportações para a memoria fue publicado de la página 201 a página220 en Cuadernos del Centro de Estudios en Diseño y Comunicación Nº92

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