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Os caminhos da pós-graduação em Design no Brasil: novos paradigmas e outros desafios

da Conceição Ribeiro, Rita Aparecida

Cuadernos del Centro de Estudios de Diseño y Comunicación Nº 69

Cuadernos del Centro de Estudios de Diseño y Comunicación Nº 69

ISSN: 1668-0227

Presente y futuro del diseño latino

Año XIX, Septiembre 2018, Buenos Aires, Argentina | 296 páginas

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Resumen: El artículo pretende discutir la actual etapa de los programas de postgrado en diseño en Brasil a partir de las transformaciones y rupturas que se instauran en los paradigmas de las ciencias a finales del siglo XX y sus implicaciones en la investigación en diseño. Presenta al diseño como un proceso social que tiene un papel preponderante en la constitución de la sociedad en el siglo XXI. Por último, se traza un breve recorrido del postgrado en el país y se analiza la constitución de las áreas de concentración y los desafíos interpuestos por el Documento de Área 2013, uno de los conductores de la evaluación promovida por la Coordinación de Perfeccionamiento de Personal de Nivel Superior - CAPES órgano de regulación de posgrados en el país.

Palabras clave: postgrado - ciencia - paradigmas - evaluación.

(*) Pesquisadora e Coordenadora Executiva do Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, Brasil. Pesquisadora PQ do CNPq. 

O design como uma área de conhecimento

“O design deve refletir a cultura de sua terra”. Sérgio Rodrigues

A ruptura epistemológica que temos vivenciado a partir do final do século XX traz marcas profundas no entendimento do Design. Neste artigo propomos apresentar os caminhos traçados pelos cursos de pós-graduação na área em nosso país, e, para, além disso, entender os novos rumos ligados ao Design, entendido agora como uma área de conhecimento, para a qual devem se desenvolver teorias específicas. O que aqui é descrito por área ou campo do conhecimento inclui as ciências em geral, tanto naturais quanto humanas e sociais, mas ainda as áreas da filosofia, arte e tecnologia. 

Perceber o design como um campo de conhecimento próprio é tarefa árdua, dada sua natureza híbrida. No entanto entendemos que aquilo que poderia ser considerado uma fragilidade, constitui a força motriz deste campo. Cada vez mais o design interfere e afeta os comportamentos sociais. No século XXI sentimos sua influência em todos os campos, ainda que de forma sutil. Até mesmo os processos comunicacionais passam a ser influenciados por esta área. Por que não lhe atribuir o estatuto de campo de conhecimento?

Já em 1993, na criação da primeira revista voltada para os estudos acadêmicos do design no Brasil, a Estudos em Design, Victor Margolin argumenta sobre a necessidade de estudos teóricos acerca do campo. Seus questionamentos entendem o Design como uma forma de atuação social:

Quando aprendemos a perceber a profundidade da interferência do design no universo de objetos, serviços e técnicas na sociedade podemos começar a reconhecer neles as manifestações de valores e políticas sociais. [...] O design é o resultado de escolhas. Quem faz essas escolhas e por quê? Que visões de mundo estão subjacentes a elas e de que modo esperam os designers apresentar uma visão do mundo manifesta nos seus trabalhos? (Margolin, 1993, p. 11)

As indagações de Margolin antecipam a tônica das discussões acerca dos caminhos do design na atualidade. Lipovetsky e Serroy (2015) afirmam que o design hoje transcende o material e incorpora o emocional: “como escreve Harmut Esslinger, ‘form follows emotion’ suplantou ‘form follows function’”. (Lipovetsky; Serroy, 2015, p. 250.)

As tradicionais divisões do design nas áreas de produto, gráfico, ambientes e moda deixam de existir. Os limites de atuação do design se estendem a todos os campos e seus sentidos se ampliam. Como trabalhar uma teoria que consiga abarcar todos esses processos?

Os paradigmas da ciência num mundo complexo 

No mundo complexo em que vivemos o ideal da racionalidade e o ideal da objetividade não constituem mais parâmetros suficientes para a construção do conhecimento cientí- fico. Uma ruptura epistemológica que se instaura no final do século XX traz os quatro seguintes pressupostos, apresentados por Boaventura Souza (2003) como constituintes do paradigma de uma ciência pós-moderna:

1. Todo conhecimento científico-natural é científico-social: o ser humano passa a ocupar a centralidade na pesquisa, sendo ele indissociável da natureza. Discutir seu papel no mundo é entender tantos os processos físicos e naturais, como perceber que esse conhecimento virá sempre a partir de uma perspectiva humana. O ser humano, portanto, é ao mesmo tempo parte e agente no meio-ambiente. Suas ações interferem e são reflexos do meio. 

2. Todo conhecimento é local e total: o conhecimento avança na medida em que seu objeto se amplia e cria novas interfaces. “O conhecimento pós-moderno, sendo total, não é determinístico, sendo local, não é descritivista. É um conhecimento sobre as condições de possibilidade” (Souza Santos, 2003, p. 77). As condições de possibilidade, sendo diversas, pressupõem também outras formas de investigação que não aquelas tradicionais. A utilização de conhecimentos transdisciplinares que levam a investigações a outros questionamentos e novas perspectivas de análise.

3. Todo o conhecimento científico é autoconhecimento: quando o ser humano passa a ser o centro das pesquisas, o conhecimento que é produzido afeta diretamente a ele. “A ciência não descobre, cria, e o ato criativo protagonizado por cada cientista e pela comunidade científica no seu conjunto tem de se conhecer intimamente antes que conheça o que com ele se conhece do real” (Souza Santos, 2003, p. 83). O conjunto de crenças, juízos de valor, tradições culturais não podem ser consideradas menores que o conhecimento científico. Todos são frutos do real e transitam ao mesmo tempo na esfera social. 

4. Todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum: Mesmo considerando o caráter simplista e mistificador do senso comum, o autor propõe que este tem um caráter ao mesmo tempo libertário. Ao trazer a ciência ao conhecimento do senso comum, ela amplia seus horizontes. “A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida”. (Souza Santos, 2003, p. 91) 

Os pressupostos apresentados por Souza Santos podem ser percebidos de maneira complementar na construção do paradigma da complexidade de Edgar Morin:

Complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de conhecimento e seu contexto, as partes em si. Por isso a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade. (Morin, 2000, p. 38)

A noção de complexidade contrapõe-se ao que o autor denomina paradigma da simplicidade que tende a unificar de forma abstrata a diversidade, incapaz de perceber a união entre uno e múltiplo. Morin alerta para os riscos da chamada inteligência cega. A inteligência cega é aquela que compartimenta, isolando os objetos do seu meio ambiente e não concebe a indissolubilidade entre o observador e seu objeto. “A metodologia dominante produz um obscurantismo acrescido, já que não há mais associação entre os elementos disjuntos do saber, não há possiblidade de registrá-los e de refleti-los” (Morin, 2005, p. 12). O conhecimento para o autor é cada vez menos objeto de reflexão e discussão, sendo produzido para ser registrado e armazenado de acordo com interesses políticos. 

Para isso ele alerta para a necessidade do pensamento complexo, que coloca em cena o paradoxo do uno e do múltiplo. “A complexidade é uma palavra-problema e não uma palavra-solução” (Morin, 2005, p. 06). Para trilhar o caminho do pensamento complexo devemos ter em mente que a complexidade não leva à eliminação da simplicidade, mas à eliminação do pensamento simplificador. E ainda ressalta que a complexidade não deve ser confundida com completude. Nenhum conhecimento é completo. Mas o pensamento complexo tem como aspiração um conhecimento multidimensional. “O pensamento complexo também é animado por uma tensão permanente entre a aspiração a um saber não fragmentado, não compartimentado, não redutor, e o reconhecimento do inacabado e da incompletude de qualquer conhecimento”. (Morin, 2005, p. 07)

Tanto o pensamento de Boaventura Souza, quanto o de Edgar Morin refletem as inquieta- ções que movem o pensamento científico no século XXI. O pensamento do design, também sofre as influências dessa crise paradigmática. Se no século XX o design era condicionado mais pelos preceitos funcionalistas, a partir do final desse século e cada vez com mais profundidade no século XXI, a visão acerca do design e sua percepção como um processo social se aprofunda. 

O design como processo social na sociedade em rede 

Entendemos que a transformação na percepção do design para o seu papel de processo social caminha a partir do aprofundamento da sociedade de consumo. Diversas são as causas que contribuem para esse processo. A chamada globalização produziu nas sociedades modernas mudanças constantes, rápidas e permanentes. Mudanças que promoveram também a transformação das relações de tempo e espaço. Uma das consequências desse processo seria o desalojamento do sistema social, ou seja, a extração das relações sociais dos contextos locais de interação e sua reestruturação ao longo de escalas indefinidas de espaço-tempo. 

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. Correspondentemente, as identidades que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático. (Hall, 2005, p. 12)

No final do século XX, portanto, surge outro sujeito, denominado por Stuart Hall como sujeito pós-moderno, que transita entre as diversas escalas espaço-temporais. Assim, o sujeito concebido anteriormente como uma só identidade se fragmenta, composto não de uma, mas de várias identidades, por vezes contraditórias. A identidade torna-se uma “celebração móvel”, formada e transformada continuamente em relação aos sistemas culturais que nos rodeiam, possibilitando que o sujeito assuma formas diferentes, em diferentes momentos. Não existe mais um “eu” único. A identidade conforma-se a partir dos vários papéis sociais que cabem ao indivíduo representar: na família, no trabalho, com o grupo de amigos, associações etc. 

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente. (Hall, 2005, p. 13)

Para Castells, a transição da sociedade industrial para a sociedade informacional acarreta o estabelecimento de novos paradigmas, incluindo-se neles a busca pela identidade, tão importante quanto as transformações tecnológicas e econômicas no registro dessa nova fase histórica. Castells argumenta que um novo modelo, que visa à reestruturação do modo capitalista de produção, emerge a partir do final do século XX. Chamado informacionalismo baseia-se na premissa de que as sociedades organizam-se a partir de relações sociais historicamente determinadas mediadas pela produção, experiência e poder.

Em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca da identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social. Essa tendência não é nova, uma vez que a identidade e, em especial, a identidade religiosa e étnica tem sido a base do significado desde os primórdios da sociedade humana. No entanto, a identidade está se tornando a principal e, às vezes única fonte de significado em um período histórico caracterizado pela ampla desestruturação das organizações, deslegitimação das instituições, enfraquecimento de importantes movimentos sociais e expressões culturais efêmeras. Cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que elas acreditam que são. (Castells, 1999, p. 41)

García Canclini (1999), da mesma forma, nos chama a atenção para a exigência de uma mudança no olhar sobre as identidades a partir da noção de interculturalidade:

A maioria das situações de interculturalidade se configura, hoje, não só através das diferenças entre culturas desenvolvidas separadamente, mas também pelas maneiras desiguais com que os grupos se apropriam de elementos de várias sociedades, combinando-os e transformando-os. Quando a circulação cada vez mais livre e freqüente de pessoas, capitais e mensagens nos relaciona cotidianamente com muitas culturas, nossa identidade já não pode ser definida pela associação exclusiva a uma comunidade nacional. O objeto de estudo não deve ser, então, apenas a diferença, mas também a hibridização. (García Canclini, 1999, p. 165-166)

O autor ressalta que hoje, as identidades são permeadas por uma hibridização de significados, que possibilitam a convivência de tradições iconográficas nacionais (festas juninas, congado) e daquelas criadas pela cultura de massa (novelas, música pop). Para García Canclini, a discussão acerca das identidades e da cidadania deve levar em conta os modos diversos com que estas se recompõem e nos desiguais circuitos de produção, comunicação e apropriação da cultura.

Estudar o modo como estão sendo produzidas as relações de continuidade, ruptura e hibridização entre os sistemas locais e globais, tradicionais e ultramodernos, do desenvolvimento cultural é, hoje, um dos maiores desafios para se repensar a identidade e a cidadania. Não há apenas co-produção, mas também conflitos pela co-existência de etnias e nacionalidades nos cenários de trabalho e de consumo; daí as categorias de hegemonia e resistência continuarem sendo úteis. Porém, a complexidade dos matizes destas interações demanda também um estudo das identidades como processos de negociação, na medida em que são híbridas, dúcteis e multiculturais. (García Canclini, 1999, p. 175)

As mudanças nas relações de força, a hegemonia norte-americana na produção cultural massiva, a flexibilização das relações sociais e familiares, a transformação nos relacionamentos, tudo isso contribui para a fragmentação do modelo identitário em circulação até os anos 90 do século passado. No século XXI, cada vez mais as identidades se configuram a partir de referenciais simbolicamente constituídos, que, por vezes, encontram-se distantes espacial e temporalmente, mas que interferem diretamente no cotidiano das pessoas, seja pelo aparato informacional, seja pelos produtos da mídia e, cada vez mais, pelo design. 

Como afirma Sudjic (2010), o design a partir de sua linguagem tem o poder de atribuir sentidos, valoração, reforçar marcas, criar um sistema de castas. “E é o design que pode servir como meio para criar uma noção de identidade –cívica, coletiva e pessoal. É o design que cria insígnias nacionais e marcas de empresas”. (Sudjic, 2010, p. 50) 

Portanto, o entendimento do design no século XXI, assim como as teorias a seu redor, passam pelo reconhecimento deste como um processo social, que interfere diretamente na identidade e na visão de mundo das pessoas. Essas discussões somente se aprofundam na medida em que se reconhece a necessidade de entendimento do design como um campo de conhecimento com as suas especificidades. Para isso, em muito contribui a dissemina- ção dos programas de pós-graduação em nosso país. 

Um breve percurso da pós-graduação em design no Brasil 

Os pesquisadores na área apontam a criação dos primeiros cursos de graduação em Desenho Industrial no país como frutos do pensamento desenvolvimentista alavancado pelo governo de Juscelino Kubitschek. Sua política de modernização com o lema “50 anos em 5”, certamente, favoreceu a implantação de cursos que seguiam os preceitos funcionalistas. Assim surgiram o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) que funcionou no Museu de Arte de São Paulo em 1951, A ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) começa suas atividades em 1963, assim como a Fundação Mineira de Arte (atual Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais). Atualmente, o país conta com cerca de 318 Instituições de Ensino com cursos nas áreas do design nos níveis Técnico, Tecnólogo, Graduação e Pós-Graduação, ofertando cerca de 808 cursos. 

Em 1994 surge o primeiro curso de pós-graduação na área, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A UNESP (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita) inicia seu curso em 1999. Na década de 2000 são constituídos 08 programas. Nesta segunda década, mais 11 se consolidaram de acordo com os dados fornecidos pela Plataforma Sucupira da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) órgão de regulação da pós-graduação no país. 

Ao todo, atualmente temos 20 instituições que oferecem 21 programas de pós-graduação distribuídos entre 15 cursos de Mestrado, 10 cursos de Doutorado e 06 Mestrados Profissionais, como pode ser observado na Figura 1. 

Como podemos perceber, os programas de pós-graduação são, praticamente, recentes. A tradição em pesquisa acadêmica no design em nosso país, portanto, ainda está em busca de seus caminhos. Perto de áreas como as ciências tradicionais, nosso campo dá seus primeiros passos. As principais áreas de concentração dos programas ainda refletem o pensamento utilitarista do design, como pode ser percebido no gráfico abaixo, desenvolvido a partir das diversas áreas de concentração destes programas apontadas no site da CAPES. (Ver Figura 2) 

As interfaces com os fatores humanos e culturais (educação, arte, sociedade e sustentabilidade) representam ainda uma parcela menor frente à tecnologia, inovação, produto e artefatos. Como podemos entender isso? Talvez pensando como o ideário funcionalista, presente no embrião dos cursos de graduação, ainda mantém seus traços atualmente na pós-graduação. 

Em termos de espaço, o Brasil é imenso. A diversidade cultural, dada as proporções monumentais de nosso país, da mesma forma. Mas em termos de distribuição geográfica, os programas de design ainda têm muito espaço a percorrer. Isso pode ser comprovado pela distribuição geográfica dos PPGDs. (Ver Figura 3) 

A grande concentração de cursos na região centro-sul do país, 12 ao todo, deve-se também à concentração de renda. As principais indústrias localizam-se nestas regiões. Pressupõese então, que as melhores ofertas de emprego também se oportunizem aí. Isso gera um ciclo vicioso: não se desenvolvem as indústrias por falta de mão de obra especializada e a criação de programas nestas regiões acaba comprometida pelas mesmas razões. Estas situações constituem problemas que já são observados, mas ainda carecem de ações mais assertivas, como aquelas apontadas na próxima seção.

Os desafios dos cursos de pós-graduação em design no país 

O atual modelo do Sistema Nacional de Pós-Graduação foi estabelecido em 1988. A avaliação tem como objetivos certificar a qualidade da pós-graduação brasileira (referência para a distribuição de bolsas e recursos para o fomento à pesquisa) e também verificar assimetrias regionais e de áreas estratégicas do conhecimento de forma a orientar ações de indução na criação e expansão de programas de pós-graduação no país. (CAPES, 2016) 

Os objetivos do Sistema Nacional de Pós-Graduação são promover a formação pós-graduada de docentes para todos os níveis de ensino assim como a criação de recursos humanos qualificados para o mercado. Visa também o fortalecimento das bases científica, tecnológica e de inovação. 

A avaliação dos cursos de pós-graduação no Brasil baseia-se no trinômio Fichas de Avalia- ção, Relatórios de Avaliação e Documentos de Área. 

Os documentos de área são referência para os processos avaliativos, tanto na elaboração e submissão de propostas de cursos novos quanto na avalia- ção trienal dos cursos em funcionamento. Neles estão descritos o estado atual, as características e as perspectivas, assim como os quesitos considerados prioritários na avaliação dos programas de pós-graduação pertencentes a cada uma das 48 áreas de avaliação. (www.capes.gov.br)

O documento de área da CAPES, publicado em 2013, que faz parte dos procedimentos de avaliação dos cursos de pós-graduação em Arquitetura, Urbanismo e Design, lista os principais desafios da área. Entre eles citamos alguns que entendemos estarem especificamente relacionados ao atual momento dos cursos de pós-graduação em design.

- Adequação das linhas de pesquisa e às temáticas contemporâneas e aos avanços tecnológicos; 

- Incentivo à inter e transdisciplinaridade, necessárias para a renovação das práticas e processos de investigação científica;

Estas demandas comungam com os preceitos dos novos paradigmas que apresentamos no início do artigo. Voltar o olhar para as questões emergentes da sociedade, entendendo o design como um processo social que influencia e é influenciado pelo meio é fundamental para que tenhamos um entendimento real de sua dimensão, como área de conhecimento. Da mesma forma, por ser um campo que se alimenta de outros campos, o incentivo à inter e à transdisciplinaridade leva à uma dimensão do entendimento da complexidade do processo.

Roberto Verganti (2009) afirma que o design é normalmente pensado pelas empresas a partir de duas perspectivas: a primeira, mais tradicional, se refere ao estilo e à estética na criação dos objetos. A segunda, um pouco mais recente, volta-se para as necessidades e desejos do consumidor. No entanto, ele alerta para uma terceira e mais revolucionária –a busca das empresas por pesquisadores inovadores. Aqueles que imaginam e pesquisam novos significados para os produtos. A criação de novos significados faz parte do entendimento do design como um processo reflexivo na sociedade.

Ao apresentar o design como um processo codificado, previsível e obrigatório –o que o torna mais palatável para profissionais formados segundo as teorias tradicionais de gestão– os designers se arriscam a perder a habilidade de conduzir pesquisas que vão além do tradicional. Gostam de serem considerados profissionais criativos, mas a criatividade não tem nada a ver com pesquisa. (Verganti, 2009, p. xiii)

A pesquisa, segundo o autor é um dos requisitos fundamentais para o desenvolvimento da inovação guiada pelo design. 

Criatividade refere-se à rápida criação de ideia (quanto mais, melhor); a pesquisa requer um grande aprofundamento sobre uma concepção (quanto mais profundo melhor). A criatividade geralmente valoriza a nova perspectiva, já a pesquisa valoriza o conhecimento acumulado e as teorias consolidadas. A criatividade constrói variedade e divergência, a pesquisa desafia os paradigmas através de uma visão específica. A criatividade é culturalmente neutra para resolver problemas, a pesquisa de significados é intrinsecamente visionária e baseada na cultura pessoal daquele que a conduz. (Verganti, 2009, p. XIII)

Friedman (2005) ressalta que um dos principais problemas para a constituição das teorias no campo do design é que estas dificilmente são pensadas fora da prática. Assim, desenvolvendo-se teoria e prática por meio de articulação e pergunta indutiva, alguns designers têm o entendimento de que a prática é a pesquisa e de que a investigação baseada na prática constitui-se por si só como uma forma de construção da teoria. 

All knowledge, all science, all practice relies on a rich cycle of knowledge management that moves from tacit knowledge to explicit and back again. So far, design with its craft tradition has relied far more on tacit knowledge. It is now time to consider the explicit ways in which design theory can be built—and to recognize that without a body of theory-based knowledge, the design profession will not be prepared to meet the challenges that face designers in today’s complex world. (Friedman, 2003, p. 520)

A necessidade da pesquisa e do entendimento de suas implicações sociais leva a outros dois pontos apontados no Documento de Área:

- Criação de novos programas de pós-graduação no país, atendendo às demandas regionais; 

- Incentivo à formação de programas de mestrado profissional, ampliando as possibilidades de qualificação teórico-prática de profissionais não inseridos no segmento acadêmico;

Dado o atual momento político e econômico atravessado por nosso país, entendemos que estes sejam dois pontos de difícil solução, que demandarão um grande esforço das universidades. A sinalização de cortes efetivos na educação superior deve refletir diretamente nos programas de pós-graduação. Parte destes efeitos já se fazem sentir na redução de verbas, cortes de bolsas, etc. Com isso, a criação de novos programas deve se ressentir. Um enorme retrocesso para uma área ainda em consolidação. A busca de parcerias com o setor privado e organizações de classe pode abrir novas perspectivas para suprir tais demandas. Mas para isso é necessário que o empresariado perceba a real importância do design, enquanto promotor de comportamentos e não apenas como ferramenta. A interação entre academia e o mercado constitui-se também como um fator de democratização do conhecimento.

Research is normally seen as high-end, technical activity, avaiable by training and class background to specialists in education, the sciences, and related professional fields. It is rarely seen as a capacity with democratic potential , much less as belonging to the Family of basic rights. All human beings are, in a sense, researchers, since all human beings make decisions that require them to make systematic forays beyond their current horizons (Appadurai, 2013, p. 269)

A afirmação de Appadurai referenda os pressupostos abaixo. 

- Ampliação da relação com cursos de Graduação e a Educação Básica, de forma a contribuir para a formação de novos talentos e da cidadania; 

- Proposição de novos meios para uma melhor inserção social da pós-graduação, promovendo um maior diálogo entre teoria e prática, como instrumento de aproximação entre os distintos campos de conhecimento e a sociedade. 

- Promoção da pesquisa aplicada como alternativa de proposição direta junto às demandas dos segmentos públicos e privados.

A necessidade de ampliação dos horizontes da pesquisa para além das instâncias da universidade, a criação de laços com as instituições de educação básica e do ensino médio possibilitam a criação de uma nova consciência voltada à pesquisa e uma consequente desmistificação de seus procedimentos. Trazer a pesquisa para a comunidade, desenvolver o conhecimento científico, retornando esse aos saberes do senso comum. Essas são as pretensões de Souza Santos, e de uma universidade que se percebe inserida na sociedade e que vê o conhecimento como uma das principais ferramentas do desenvolvimento e da democracia.

Considerações finais 

Este artigo pretendeu apresentar um panorama do atual estágio dos programas de pósgraduação em design no Brasil, pensando nos paradigmas que norteiam o pensamento científico no século XXI. 

O nosso entendimento é que vivemos um momento em que as teorias pré-concebidas e as verdades que norteavam o pensamento já não mais se sustentam. O pensamento hoje reflete a complexidade de um homem que se vê, ao mesmo tempo, rodeado pela mais alta tecnologia, mas com problemas milenares como a fome e a degradação do meio-ambiente. Os estudos em design não podem fechar suas premissas numa formatação que pense apenas na produção e consumo dos bens. 

Hoje esses mesmos bens tendem a se desmaterializar. Design deixa de ser uma ferramenta para se transformar num processo social que permeia toda a sociedade em maior ou menor grau. Os estudos nessa área, portanto, necessitam de constante revisão. A interdisciplinaridade, característica de nossa área é usada no discurso de diversos pesquisadores como desculpa para o não aprofundamento das questões. Acreditamos no contrário. A interdisciplinaridade é que promove a diversidade. Ela é fundamental em nossa área e faz com que o design se constitua como uma disciplina desafiadora. A pesquisa, portanto, só tem a ganhar com esse desafio.

Cabe aos programas pensar o seu papel de fomentadores do conhecimento e de sua rela- ção com a sociedade na qual estão inseridos. Nosso país necessita cada vez mais de pensadores que tomem o destino em suas mãos. Não apenas de reprodutores de um conhecimento que, rapidamente, se torna obsoleto. 

A proposta de Verganti da inovação guiada pelo design constitui uma provocação à inteligência cega que é apontada por Morin e que, infelizmente ainda está presente em grande parte do discurso da universidade. No entanto, os caminhos começam a ser trilhados. Enquanto um campo de conhecimento jovem, o pensamento em design ainda terá muitas dúvidas que talvez não possam ser sanadas. Mas é, justamente a partir da criação de perguntas que surgem boas respostas. 

A criação de uma identidade brasileira no design já é sentida na prática, mas de forma tímida. A partir do momento em que a universidade incorpore o entendimento do design como uma disciplina capaz de criar seus pressupostos teóricos, que caminha entre a diversidade, seremos também capazes de fortalecer nossa autoestima e criar profissionais e pensadores que sejam capazes de fomentar a inovação nas diversas áreas, guiadas pelo design. Cabe aos programas de pós-graduação preparar seus alunos, que serão os docentes do futuro, para esse desafio. 

Agradecimentos: Este trabalho conta com o apoio do CNPq e da CAPES.

Referências 

Appadurai, A. (2013). The Future as Cultural Fact: Essays on the Global Condition. New York: Verso Editions. 

Castells M. (1999). A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra. Estudos em Design. V.1, n.1 (agosto). Rio de Janeiro: Associação de Ensino de Design no Brasil, 1993. 

Friedman, K. (2003). “Theory construction in design research: criteria: approaches, and methods”, em Design Studies (vol. 24, n.6, nov.2003). 

García Canclini, N. (1999). Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ. 

García Canclini, N. (1999). Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp. 

Hall, S. (2005). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A. 

Lipovetsky, G.; Serroy, J. (2015). A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras. 

Morin, E. (2005). Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina. 

Morin, E. (2000). Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 

Santos de Souza, B. (2003). Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal. 

Santos de Souza, B. (2003). Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez. 

Sudjic, D. (2010). A linguagem das coisas. Rio de Janeiro: Intrínseca.

Verganti, R. (2012). Design-driven innovattion: mudando as regras da competição: a inovação radical do significado de produtos. São Paulo: Canal Certo.

Abstract: The article discusses the current status of graduate programs in design in Brazil from the changes and disruptions that are established in the paradigms of science in the late twentieth century and their implications for the design research. It displays the design as a social process that plays an important role in the constitution of society in the twentyfirst century. Finally, we draw a brief post-graduate course in the country and analyze the formation of the focus areas and challenges brought by the Documento de Área 2013, one of the drivers of the evaluation organized by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES organ graduate of regulation in the country.

Key words: graduate - science - paradigms - evaluation.

Resumo: O artigo pretende discutir o atual estágio dos programas de pós-graduação em design no Brasil a partir das transformações e rupturas que se instauram nos paradigmas das ciências no final do século XX e suas implicações na pesquisa em design. Apresenta o design como um processo social que tem papel preponderante na constituição da sociedade no século XXI. Por fim, traçamos um breve percurso da pós-graduação no país e analisamos a constituição das áreas de concentração e os desafios interpostos pelo Documento de Área 2013, um dos condutores da avaliação promovida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES órgão de regulação da pósgraduação no país. 

Palavras chave: pós-graduação - ciência - paradigmas - avaliação.


Os caminhos da pós-graduação em Design no Brasil: novos paradigmas e outros desafios fue publicado de la página 221 a página233 en Cuadernos del Centro de Estudios de Diseño y Comunicación Nº 69

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